Evocation
Evocation
A redescoberta da demo Belial's Land, 18 anos depois
Estava dando uma olhada em alguns blogs que falam sobre Heavy Metal e acabei me deparando com um em especial. A princípio, as postagens mostravam capas de fitas e CDs demo. Reconheci algumas delas e fui percorrendo as postagens até ter uma grande surpresa.
Em meio a centenas de títulos e bandas, estava a demo Belial's Land, da Evocation.
Antes de mais nada, quero fazer uma ressalva. Em outras postagens escrevi que havia tocado na banda Evocation e gravado a demo Obscurity Worshiper. Na verdade, o nome da demo é Belial's Land. Nunca iria lembrar-me disso.
No blog em questão não havia reviews ou coisas do tipo, apenas uma foto da capa e dados como os nomes das faixas e o ano de lançamento. Porém, para que a surpresa ficasse completa, havia um link direcionando para uma página de downloads.
Cliquei no bendito link e, em dez minutos, tinha em mãos a demo que havia gravado dezoito anos antes e da qual nunca havia tido uma cópia.
O som está péssimo e algumas músicas apresentam problemas sérios de conversão A/D, mas o que se salva é o registro em si, pelo menos para mim. Não conheço o cara que postou tanto material naquele blog. Só posso dizer que ele começou a fazer isso cerca de dois meses antes de eu escrever esta postagem.
As lembranças da Evocation
Ao ouvir novamente as músicas, fui tomado por um forte sentimento nostálgico. Logo, as lembranças vieram à mente, e tento descrever algumas delas aqui.
Acho que havia escrito em outro momento que toquei em uma banda chamada Desaster. Essa banda era liderada pela mesma pessoa que formou a Evocation, o guitarrista Alex — cujo sobrenome, infelizmente, não consigo lembrar.
Eu havia conhecido Alex alguns anos antes, quando ele tocava em uma banda chamada Crow. Quem nos apresentou foi seu primo, que era um grande amigo meu.
Após o fim da Crow, banda que cheguei a integrar durante uma reformulação, fui convidado para fazer parte da Desaster. Fizemos alguns ensaios com o baterista da Crow, o André — também não consigo lembrar seu sobrenome —, primo do Alex, mas a banda não chegou a tocar em lugar algum.
Na verdade, aquilo não passava de uma tentativa frustrada de Alex remontar a Crow.
Após um ou dois anos, Alex convidou meu amigo Adriano para tocar teclado em uma nova banda. Ouvi algumas músicas de uma demo que Adriano me mostrou. Eles continuaram ensaiando durante alguns meses e começaram a fazer shows.
Eu, por outro lado, havia montado uma banda que misturava Hardcore e Thrash Metal, com um baterista que morava próximo à casa do Alex e um baixista de Gravataí que, mais tarde, integrou a banda R.E.D.
Shows e a cena Metal de Porto Alegre
Após um show na Usina do Gasômetro, em Porto Alegre, que chamou a atenção dos Metalheads locais, o baixista abandonou seu posto e fui chamado para integrar a banda nos shows seguintes.
Tocamos em Cachoeirinha, Gravataí, Esteio, Canoas, Porto Alegre, Sapiranga, Guará Mirim, entre outras cidades.
Nesse meio tempo, frequentávamos os bares da Rua Osvaldo Aranha, em Porto Alegre. Era nas calçadas daquela rua que bebíamos e interagíamos com nossos amigos e músicos de outras bandas.
Não havia internet, celulares ou os recursos que temos hoje. A maneira que encontramos para divulgar nosso trabalho foi sair convidando cada pessoa vestindo camisetas de bandas que encontrávamos nos bares para nos assistir ao vivo ou comparecer a um estúdio para nos ver ensaiar.
Era uma época completamente diferente.
Embora houvesse dedicação e não faltasse esforço, sempre foi complicado manter um baterista fixo. Os shows eram quase sempre improvisados, havia brigas internas e as mudanças eram constantes.
A gravação da demo Belial's Land
Em novembro de 1996, gravamos a demo Belial's Land no estúdio Live Productions, em Porto Alegre.
Simplesmente chegamos ao estúdio com um baterista que havia feito apenas alguns ensaios conosco, mas que já nos conhecia e estava familiarizado com as músicas. Ligamos os instrumentos e tocamos tudo ao vivo.
Não houve edição, testes, ajustes ou regravações. Foi tudo em um único take, exatamente como acontecia nos shows.
Logo depois, a banda se separou e voltou a se reunir um ano mais tarde para gravar uma música para uma coletânea europeia. Depois disso, acabou de vez, pelo menos para mim.
Confesso que jamais considerei a Evocation como sendo realmente a minha banda. Eu participava dos ensaios, saía junto com os integrantes, tocava e gravava, mas nunca me preocupei muito com os rumos que as coisas estavam tomando.
Entretanto, os seis meses que fiquei na banda foram muito bons para mim.
Eu me divertia bastante, conhecia pessoas novas, lugares novos e fazia aquilo de que sempre gostei: tocar Metal.
A influência do Black Metal norueguês
Uma das coisas que contribuíram para que a Evocation tivesse uma vida turbulenta e curta foi a influência das bandas norueguesas, mais precisamente Burzum e Mayhem.
O chamado Inner Circle norueguês estava pegando fogo na Europa e era notícia nas publicações especializadas em Metal da época.
O Black Metal estava fortemente contaminado pela herança dessas bandas, e era difícil ir contra a tendência amadora de grupos que se preocupavam mais com aparência, confusão e polêmicas do que com a construção de uma cena unida, capaz de dar sustentação às bandas e aproximá-las.
Uma parte da história que não se perdeu
Para encerrar, deixando de lado os apertos e as dificuldades que tivemos para realizar cada show e gravar cada música, acho que demos nossa contribuição para a cena Metal da época.
Aquele período também fez com que eu amadurecesse bastante e conhecesse muitas coisas que fazem parte de quem sou hoje.
É estranho saber que a Evocation ainda respira em algum canto do mundo. Acho que, pela primeira vez, surgiu uma versão digital da demo, possibilitando que Belial's Land fosse preservada e imortalizada, de alguma forma, dentro da história da cena Metal gaúcha.
Sinceramente, eu achava que essa parte da minha história havia se perdido para sempre.
Mas, dezoito anos depois, encontrei esse material por acaso.
Uma bela e grata surpresa.
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