Europe - Come This Madness
Europe – Come This Madness
Quatro décadas depois, a banda ainda tem algo a dizer
Confesso que falar sobre o Europe é um pouco desconfortável, pois a banda, estranhamente, está entre as minhas favoritas sem ser exatamente uma delas. Explico.
Em determinado momento, eu estava sozinho em casa, vivendo um período bastante turbulento e depressivo. Trabalhava durante o dia e passava de três a quatro horas dentro do transporte público para me deslocar de casa para o trabalho e vice-versa. Lia durante o trajeto e, ao chegar em casa no começo da noite, tomava banho, comia alguma coisa e ia para a internet ver o que estava rolando no Orkut e conferir as mensagens no MSN.
Foi então que me deparei com um vídeo de um DVD do Europe gravado quase uma década antes. O trabalho registrava a volta da banda e promovia o álbum Start from the Dark, primeiro lançamento de músicas inéditas desde Prisoners in Paradise, lançado no início da década de 1990.
Até então, para mim, Europe era a banda que havia feito sucesso com “The Final Countdown” e “Carrie”, ou seja, uma banda glam que vivia de um ou dois grandes sucessos, como tantas outras. A diferença é que, como o próprio nome sugere, o grupo era europeu — e não americano —, mais precisamente sueco.
Assistindo ao show no DVD, o que mais me chamou a atenção foram as músicas novas, principalmente a faixa-título, “Start from the Dark”. Mas “Hero”, “Wake Up Call” e “America”, para citar quatro, também soaram muito bem.
Pesquisei mais sobre a volta da banda e descobri que eles já haviam lançado outros dois álbuns: Secret Society e Last Look at Eden. No total, eu já conhecia seis discos do Europe e comecei a perceber que a sonoridade de The Final Countdown, Out of This World e Prisoners in Paradise não representava necessariamente tudo o que a banda era artisticamente.
A história da própria banda mostra que aquela fase foi marcada por uma enorme pressão comercial e por uma transformação de seu direcionamento. Depois do sucesso de The Final Countdown, o Europe passou a ser tratado pela indústria como uma banda muito mais pop, enquanto os próprios integrantes tinham referências em bandas como Deep Purple, Thin Lizzy e UFO. John Norum, inclusive, deixou o grupo pouco antes do lançamento de The Final Countdown, em parte por discordar daquele caminho.
A pausa e o retorno do Europe
Depois de trabalhos com Glenn Hughes, entre outras atividades, John Norum, John Levén, Mic Michaeli e Ian Haugland voltaram a se reunir com Joey Tempest para uma apresentação na virada do século.
Mesmo mantendo contato durante os anos de separação, os músicos começaram a considerar uma volta do Europe. O retorno definitivo aconteceu em 2003, com Start from the Dark, seguido pelo DVD que havia chamado minha atenção.
Contudo, foi Secret Society que mais me marcou. Talvez pela época em que o conheci, posso dizer que aquele álbum acabou se tornando a trilha sonora de um período muito importante e delicado da minha vida.
E agora chegamos a 25 de setembro de 2026, quando o Europe lançou oficialmente seu 12º álbum de estúdio, Come This Madness.
O disco chega nove anos depois de Walk the Earth, de 2017, e foi lançado pela Silver Lining Music/Hell & Back Recordings.
A formação é a mesma que consolidou a identidade do Europe nas últimas décadas:
- Joey Tempest — vocais
- John Norum — guitarra
- John Levén — baixo
- Mic Michaeli — teclados
- Ian Haugland — bateria
Ou seja, temos uma situação particularmente interessante: não estamos diante de uma banda tentando reconstruir sua identidade com músicos novos, mas de uma formação que continua trabalhando junta depois de mais de quatro décadas de história.
Produção: Tom Dalgety
Um dos aspectos que mais chama a atenção é a presença de Tom Dalgety na produção.
Come This Madness foi gravado no RMV Studio, em Estocolmo, e Dalgety teve uma participação bastante próxima do processo criativo. A própria banda destacou sua importância na construção do álbum e afirmou que trabalhar com ele foi uma experiência muito positiva. O disco também foi mixado por Mike Fraser.
A participação de Dalgety ajuda a colocar o Europe dentro de uma produção contemporânea sem obrigá-lo a abandonar sua identidade. E isso é importante porque o álbum não parece interessado em simplesmente reproduzir o Europe de 1986.
As 11 músicas de Come This Madness
O álbum tem 11 faixas e aproximadamente 41 minutos de duração. A sequência oficial é:
- One on One — 3:41
- The Cult of Ignorance — 3:31
- Come This Madness — 4:02
- This Time of Year — 4:05
- In a Different World — 3:45
- Scandinavian Eyes — 4:51
- Takin' It Back — 3:46
- In the Absence of Grace — 1:28
- The Angels Must Have Flown — 3:45
- The Devil's Back — 3:47
- Nothing Can Follow This — 4:38
Uma curiosidade é “In the Absence of Grace”, com apenas 1min28s, funcionando quase como uma pequena peça de transição dentro de um álbum em que a maioria das músicas fica entre três e cinco minutos.
O que o Europe está fazendo em 2026?
A descrição oficial do disco fala em tensão, verdade e energia, especialmente nas músicas “One on One”, “The Cult of Ignorance” e “Come This Madness”. A gravadora apresenta o álbum como um trabalho que combina uma dimensão pessoal com uma abordagem voltada para o mundo contemporâneo.
Isso é interessante porque o Europe que conquistou o mundo com The Final Countdown está muito distante do Europe atual.
E isso não é necessariamente ruim.
Depois da enorme exposição comercial dos anos 1980, a banda passou por uma transformação significativa. O Europe contemporâneo já vinha explorando uma sonoridade mais pesada, orgânica e orientada ao rock clássico em trabalhos como War of Kings (2015) e Walk the Earth (2017).
Come This Madness parece continuar justamente essa trajetória, em vez de tentar recriar The Final Countdown.
E é aqui que, para mim, a história fica mais interessante.
“One on One”
Foi o primeiro single divulgado para apresentar o álbum. John Norum registrou em seu site oficial que o vídeo ultrapassou 1 milhão de visualizações no YouTube antes do lançamento do disco.
É uma escolha interessante para apresentar o álbum porque deixa clara a intenção de mostrar um Europe contemporâneo, com Joey Tempest ainda no centro da identidade melódica da banda.
A própria banda descreve a música como um classic hard rock e conta que a composição começou como uma demo que eles continuaram trabalhando até chegar à versão definitiva.
“The Cult of Ignorance”
É uma das músicas que mais ajudam a entender o conceito apresentado para o álbum.
O próprio título já aponta para uma abordagem mais crítica, e a faixa foi escolhida como um dos principais singles do disco. A gravadora destaca seu refrão marcante e uma mensagem relacionada ao mundo acelerado em que vivemos.
O videoclipe também chama atenção pela quantidade de participações especiais, reunindo nomes de diferentes áreas da cultura sueca e internacional.
“Come This Madness”
A faixa-título foi disponibilizada poucos dias antes do álbum. John Norum anunciou seu lançamento em 22 de setembro, três dias antes de o disco completo chegar ao público.
O título também parece funcionar como uma espécie de síntese conceitual do álbum. Não é simplesmente uma celebração nostálgica do passado do Europe, mas uma tentativa de olhar para o presente e para a situação do mundo.
A música começa com riffs mais agressivos, passa por momentos mais contidos e cresce até um refrão bastante amplo. Joey Tempest explicou que, nessa faixa, a intenção era escrever e produzir músicas “no espírito dos velhos tempos”.
O Europe voltou às suas origens?
Ouvir Europe sem lembrar de The Final Countdown é quase impossível para quem conheceu a banda através daquele sucesso. Mas, quando analisamos os dois primeiros trabalhos — Europe e Wings of Tomorrow —, encontramos uma banda diferente.
Ali já estava presente um tipo de hard rock melódico, ainda cru, com forte presença das guitarras e influências de bandas como Deep Purple e UFO. A própria trajetória do grupo confirma que essas referências faziam parte de sua formação muito antes do sucesso mundial.
Por isso, não vejo necessariamente o Europe pós-Prisoners in Paradise como uma banda que finalmente descobriu seu caminho. Para mim, a grande ruptura aconteceu antes, com a transformação provocada pela sequência The Final Countdown → Out of This World → Prisoners in Paradise.
Depois veio a pausa.
E, quando o Europe voltou, pareceu mais interessado em recuperar aquela identidade de banda de rock do que em reproduzir a fórmula que havia feito seu maior sucesso comercial.
Come This Madness se encaixa muito bem nessa trajetória. Não é uma tentativa de voltar a 1986. É um disco de uma banda que conhece seu passado, mas continua trabalhando dentro de uma linguagem que já estava presente em sua origem.
Quatro décadas depois
Depois de perdermos grandes nomes do rock como Ozzy e vermos tantas bandas históricas chegarem à reta final de suas carreiras, é interessante perceber que grupos como o Europe continuam lançando material inédito.
Já falei sobre isso quando escrevi sobre o mais recente álbum do Anthrax. Considero muito saudável que a busca por ainda acrescentar alguma coisa a uma carreira que ultrapassa quatro décadas continue sendo um objetivo para os artistas.
No caso do Europe, isso é particularmente interessante porque a banda poderia simplesmente viver de The Final Countdown, Carrie e Rock the Night pelo resto da vida.
Mas não é isso que está acontecendo.
Em 2026, o Europe ainda está tentando fazer novos discos.
E talvez seja justamente aí que esteja a razão de eu considerar essa banda tão importante para minha própria história musical, mesmo sem conseguir colocá-la entre aquelas que chamo de minhas favoritas.
Eu conheci o Europe em um momento difícil da minha vida. Secret Society acabou se tornando trilha sonora daquela fase. Anos depois, continuo acompanhando a banda e agora tenho mais um disco para ouvir.
No fim das contas, talvez seja isso que realmente importe.

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