Sobre as últimas notícias e seus desdobramentos

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Depois de alguns anos de sonolência, parece que o Brasil está acordando para a realidade. Quando tudo dava a entender que os anos de inflação e desemprego haviam ficado para trás, passadas a Copa do Mundo de 2014 e as eleições, alguns fantasmas de outrora, reencarnando em personagens do presente, parecem tentar dar as caras novamente.

O que resta do tal “legado da Copa” é uma avalanche de denúncias de corrupção e de desperdício de dinheiro público. É claro que a estratégia do governo de anestesiar a população com a falsa ideia de que tudo estaria bem — de que investidores estrangeiros poderiam investir à vontade no país, enquanto a população comprava seus smartphones, televisores de LED de 40 polegadas, carros zero-quilômetro e sonhava com uma vida nunca antes imaginada — havia deixado algumas fissuras, dando margem à desconfiança dos mais céticos e críticos.

Hoje, cerca de um ano após a Copa do Mundo, não temos polícia suficiente nas ruas, a saúde e a educação passam por uma fase de grande abandono e os índices de violência atingiram níveis alarmantes. Assim está o Brasil em 2015.

Meu Estado está financeiramente quebrado, e estou sentindo no bolso o quanto a economia despencou. Quando assistimos a qualquer noticiário, independentemente do veículo de comunicação, vemos reportagens sobre corrupção e violência.

E o que podemos fazer para mudar esse cenário?

Mas o que fazer para mudar esse quadro — se é que ele pode ser revertido? Infelizmente, não tenho a resposta para essa pergunta.

Os políticos continuam sendo acusados de corrupção, enquanto a população sai às ruas para protestar e depois volta para casa para acompanhar, pela internet, os likes em suas redes sociais e compartilhar fotografias feitas com seus celulares durante os eventos. Muitas vezes, tudo isso parece se transformar em mera vaidade.

Imagino os governantes assistindo a tudo de suas bolhas. Devem sorrir e debochar da nossa “grande revolta popular”, que, em determinadas situações, parece tão representativa quanto uma greve de esquimós no Polo Norte.

O único objetivo prático dessas manifestações parece ser, muitas vezes, aparecer nas redes sociais e formar estatísticas para jornais e comentaristas. Quando realmente há um hospital sem atendimento, policiais sem salário ou viaturas para trabalhar, enchentes que deixam centenas de desabrigados, assassinatos registrados por câmeras de segurança ou escolas desabando por causa do abandono, vemos apenas algumas pessoas diretamente prejudicadas pela situação protestarem.

Onde estão os grandes grupos de manifestantes nessas horas?

Será que uma manifestação que não tenha sido previamente marcada pelas redes sociais e organizada por grupos ligados a partidos políticos não é legítima ou justa e, portanto, digna de engajamento?

Os velhos problemas continuam

Não sou velho o suficiente para ter vivido os tempos da “ditadura militar”, mas lembro da campanha pelas “Diretas Já”, dos cortes de zeros no valor das moedas, do bloqueio da poupança e do impeachment do ex-presidente Collor.

Pois, anos depois, os mesmos protagonistas dessas trapalhadas continuam no poder ou transitando pelos corredores da Câmara e do Senado, quando não ocupam cargos de confiança nos novos governos.

Nada mudou substancialmente no país. O que houve, na minha visão, foi uma grande propaganda de marketing para distrair o povo enquanto o governo montava seus cartéis e seus mirabolantes planos de enriquecimento ilícito.

Era previsível que um dia pagaríamos a conta, e parece que esse dia chegou.

Os ricos continuarão ricos, como sempre, pois entendem o jogo do dinheiro e correm riscos calculados. Alguns velhos cansados irão para suas confortáveis prisões domiciliares depois de deixarem suas famílias e comparsas nadando em dinheiro, fruto de seus golpes.

Corrupção, leis e segurança pública

Alguém acredita que algum político ou partido pode ou quer resolver uma situação que, na minha visão, tanto os beneficia?

Dessa gente só podem sair atos de corrupção e leis fajutas.

De que adianta um monte de leis cheias de distorções e termos jurídicos, que dão margem a milhares de interpretações diferentes, se não temos sequer presídios seguros para manter os presos ou uma fiscalização minimamente eficiente?

As inúmeras câmeras de segurança servem apenas para registrar ações criminosas e ilustrar matérias jornalísticas, jogando na cara da sociedade o quanto ela está à mercê da criminalidade.

Todos nós sabemos — ou deveríamos saber — que muitos crimes são praticados por pessoas que já são procuradas pela polícia ou foragidas do sistema carcerário. Na minha percepção, pouco adianta instalar câmeras se as autoridades já conhecem determinados criminosos e não conseguem, ou não conseguem efetivamente, impedir novos delitos.

Nem as cidades do interior estão livres desse turbilhão de violência. Na internet, há informações sobre a localização das agências bancárias e até sobre a quantidade de policiais responsáveis pela segurança de determinadas regiões. Como consequência, ataques a agências bancárias passaram a fazer parte também da realidade das cidades do interior dos Estados.

Educação, limites e responsabilidade

Vivemos em um mundo no qual a discussão sobre a redução da maioridade penal frequentemente envolve a falta de presídios e a possibilidade de recuperação de adolescentes que cometem crimes. Ao mesmo tempo, professores são agredidos em plena sala de aula e famílias enfrentam dificuldades para estabelecer limites e responsabilidades dentro de casa.

Quem agride outro ser humano sem motivo, independentemente da idade, deve responder por seus atos dentro dos limites estabelecidos pela legislação.

Não adianta ter um Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) se aqueles que realmente cometem crimes contra crianças e adolescentes não respeitam lei alguma. O irônico, na minha visão, é que muitas das pessoas responsáveis por criar e administrar essas estruturas públicas são as mesmas que deveriam responder pela qualidade da educação, da saúde e da segurança.

Há uma inversão de valores quando se torna mais cômodo apresentar uma imagem politicamente correta do que fazer algo realmente significativo para corrigir aquilo que pode ser corrigido.

A nossa responsabilidade diante desse cenário

Parece incrível, mas também colaboramos diretamente para todo esse cenário de caos e degradação.

Fazemos isso quando viramos as costas para pequenos delitos cometidos pelas pessoas à nossa volta e ignoramos a enorme cafajestagem à qual somos expostos diariamente. Essa aceitação silenciosa inibe qualquer reação.

Quando vamos às redes sociais promover conteúdo descartável ou apoiar manifestações populistas que acabam servindo mais para alimentar a própria exposição de seus participantes do que para produzir mudanças concretas, demonstramos nossa impotência diante daquilo que está posto.

Quando os valores sociais são deixados de lado, alguma coisa ocupa o espaço vazio — normalmente algo sem valor ou completamente oposto a eles.

Não temos mais, na mesma medida, valores cívicos como o respeito à nossa bandeira e ao nosso hino, que acabam sendo expostos às mais diversas banalidades. Mesmo sendo apenas símbolos, estamos nos desacostumando a dar atenção aos seus significados.

Também não valorizamos nossas famílias. Elas se desmancham por competições banais, desrespeito ou tragédias, além de sofrerem com ações de marketing que, muitas vezes, as apresentam como responsáveis por tudo de ruim que existe na sociedade.

Perdemos a capacidade de admirar um professor, respeitar quem veste uma farda e confiar em um médico. Ao mesmo tempo, responsabilizamos nossos pais por nossos próprios fracassos.

Valorizamos o que é supérfluo e abandonamos a prática da humildade, da compaixão, do amor, da solidariedade, da honestidade e da amizade.

O que realmente significa uma pátria?

Nossa pátria não é o conjunto de nossos políticos, nossas leis, nossas instituições ou qualquer entidade, pessoa ou governo temporário que acredite representá-la.

Nossa pátria é, basicamente, formada pelas pessoas e por suas histórias. São elas que constroem a cultura e a história, e é para elas que as instituições deveriam trabalhar.

E quem são essas pessoas?

São cada uma das crianças que nascem pelas mãos de um médico preparado e atencioso, com uma mãe assistida por um sistema de saúde adequado e equipado. São crianças que deveriam ser recebidas em um lar cheio de amor, ainda que pudesse faltar todo o resto.

Essa criança deveria crescer em uma vizinhança segura e entrar em uma instituição de ensino onde pudesse ser educada e assistida, com a supervisão e a participação dos pais.

Ela estudaria em uma escola onde aprenderia os segredos do idioma, das ciências exatas e humanas, interagiria com outras pessoas de sua idade e se prepararia para enfrentar cada etapa da vida até atingir a idade adulta.

Depois da escola, teria a opção de cursar uma boa universidade ou fazer um curso técnico que lhe garantisse uma profissão capaz de proporcionar uma existência digna e próspera.

Infelizmente, essa concepção tão simples parece impossível de concretizar nos dias de hoje.

O povo, que tantos alegam representar, é cada um de nós. Porém, poucos podem ser descritos da forma idealizada acima.

Instituições deveriam servir às pessoas

A bandeira simboliza uma história que nos precede e nos transcende, da qual todos fazemos parte e por cujos desdobramentos também somos responsáveis.

As instituições deveriam servir a cada um de nós, e não tentar nos controlar nos aspectos mais particulares da vida.

Pagamos todos os dias, compulsoriamente, por educação, saúde e segurança. Além de não recebermos aquilo que deveríamos receber em troca, ainda podemos ser prejudicados por quem deveria nos assistir nessas áreas.

Isso é realmente importante. Talvez seja a origem de muitos dos problemas que atingem a todos nós. Fora disso, todo o resto se torna secundário.

A esperança de um futuro melhor

Sou de origem humilde e continuo trabalhando todos os dias para, ao menos, garantir alimento e uma moradia digna para minha família. E fico feliz por ainda conseguir fazer isso.

Também escrevo minhas ideias e minhas músicas, leio livros, escuto e pesquiso sobre música, tento dar a máxima atenção à minha família e, eventualmente, saio para assistir a um show ou confraternizar com amigos e familiares.

Gostaria de ir a mais shows, levar meus filhos para brincar em uma praça, passear no zoológico, em um parque ou em um circo com mais frequência. Adoraria ir ao teatro, frequentar bares com música ao vivo e participar de eventos culturais.

Infelizmente, as opções são poucas e, muitas vezes, quase sem qualidade. Não há segurança suficiente para sair às ruas e falta dinheiro para financiar todos esses programas.

Então, recolho-me ao meu humilde lar, ainda inacabado e com a maioria das coisas feita por mim mesmo, buscando interagir com minha família e tentando entretê-la de forma simples e contida.

Faço isso com a esperança de que meus filhos se tornem cidadãos de bom caráter e com alguma cultura. Torço para que tenham saúde para crescer e se desenvolver e sorte para não serem vítimas da criminalidade.

Tenho a ingênua esperança de que o futuro deles reserve uma vida melhor do que a minha, assim como eu recebi de meus antecessores uma vida mais confortável do que aquela que eles próprios tiveram.

Porém, tenho consciência de que eles também esperavam o mesmo para a minha geração.

E o resultado é tudo isso que vemos hoje e que tentei descrever acima.

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