Cultura

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O elo entre gerações e a identidade de um povo

A cultura sempre foi uma das principais vítimas dos grandes conquistadores de todas as épocas e, muitas vezes, também um de seus espólios mais valiosos.

A primeira ação de um exército que invadia outra pátria frequentemente envolvia destruir ou controlar elementos fundamentais da cultura do povo conquistado. Isso acontecia porque atacar símbolos culturais, religiosos e históricos podia produzir um impacto muito mais profundo do que a simples destruição física.

Destruir deuses, objetos sagrados, monumentos e símbolos tinha consequências não apenas materiais, mas também emocionais e religiosas. Tentar apagar elementos que lembrassem um povo de sua origem poderia, a longo prazo, dificultar a preservação de sua identidade e até mesmo enfraquecer possíveis movimentos de resistência.

Imagine o que representaria para um povo antigo acreditar que seus deuses o abandonaram. Como transmitir às gerações seguintes costumes e tradições sem seus totens, livros, monumentos e toda a simbologia que representa a cultura de uma civilização?

A questão é muito mais complexa do que parece.

Conquista, colonização e destruição cultural

Foi isso que os europeus fizeram quando chegaram à América? Destruíram vilarejos inteiros, mataram crianças, catequizaram povos nativos para facilitar sua submissão e escravização? Em outras palavras, destruíram suas culturas para se apropriar das riquezas da terra?

E na Europa? Esse tipo de aniquilação cultural também foi recorrente a cada guerra e a cada invasão praticada por um povo contra outro de cultura diferente?

Levanto essas questões porque parte dessa interpretação foi transmitida pela minha própria educação escolar e, portanto, passou a fazer parte da minha formação cultural.

Porém, por mais que exista um enorme esforço para simplificar questões históricas extremamente complexas e transformá-las em conceitos artificiais, acredito que precisamos olhar para elas com mais cuidado. A história raramente cabe em explicações simples envolvendo apenas heróis e vilões.

Religião e transformação cultural

Uma das interpretações mais difundidas sobre a expansão do cristianismo é a de que os deuses de outras culturas teriam sido transformados em demônios ou associados ao mal.

Além disso, existem diversos exemplos históricos de igrejas construídas em locais que anteriormente possuíam importância religiosa ou simbólica para outras culturas.

Quando isso acontecia, a transformação do espaço não era apenas arquitetônica. Poderia representar também uma mudança profunda na relação daquela comunidade com sua própria história, sua religião e seus símbolos.

Essa prática pode ser interpretada como uma forma de transformação cultural, especialmente quando acompanhada da destruição ou da proibição de antigos costumes.

Durante muito tempo, a religião também foi utilizada por diferentes poderes políticos para legitimar conquistas, guerras e formas de dominação. O cristianismo não foi exceção, embora sua história seja muito mais complexa do que a simples ideia de uma instituição dedicada exclusivamente à destruição cultural.

Por isso, uma análise histórica mais séria precisa ir além das versões simplificadas que costumamos receber.

O que significa cultura?

Escrevo tudo isso dando ênfase ao enfoque mais difundido porque estamos celebrando a cultura regional aqui no Rio Grande do Sul por estes dias, e isso me leva a uma reflexão sobre o que tudo isso significa na prática.

É difícil estabelecer uma relação objetiva entre cultura e os problemas sociais.

Talvez até o próprio termo “cultura” seja um pouco obscuro para as mentes contemporâneas — a minha certamente está incluída nessa constatação.

Estamos cada vez mais preocupados em operar nossos smartphones, compartilhar pelas redes sociais as mais diversas bobagens encontradas na internet, estudar de forma penosa em instituições de ensino que nem sempre conseguem cumprir adequadamente sua função e trabalhar de maneira displicente em nossos empregos.

Essa parece ser uma regra geral.

Diante dessa realidade, fica difícil dedicar tempo para descobrir o que é cultura de fato, quanto mais para se dedicar profundamente a uma cultura específica.

Hoje, muitas demonstrações culturais parecem artificiais e até mesmo patéticas.

Os governos, por sua vez, deveriam compreender o nível cultural de uma população como um dos fatores fundamentais para o desenvolvimento social. Se houvesse maior valorização da cultura, da educação e do conhecimento, talvez também existisse maior respeito e dignidade na vida pública.

Os problemas sociais deveriam ser encarados de forma séria, e não apenas como bandeiras de partidos ou grupos de pressão.

Como se percebe, é um ciclo no qual diferentes elementos influenciam uns aos outros. Infelizmente, muitas vezes esse ciclo parece funcionar hoje para o lado negativo.

Os cinco pilares da formação cultural

Na minha visão, existem cinco pilares fundamentais para a formação de uma cultura: educação, religião, economia, política e ciência.

Esses cinco elementos se inter-relacionam, reforçando-se mutuamente e ajudando a estruturar determinada sociedade.

Dizem que é dever de cada indivíduo preservar sua cultura sem interferir na cultura de outras pessoas. Essa regra, entretanto, tem sido ignorada de geração em geração.

Cultura, mesmo quando representada por obras individuais, não é simplesmente uma escolha particular e arbitrária. Ela representa aquilo que é cultivado e compartilhado por um grupo.

Educação

A educação é o primeiro elemento a ser tratado, pois é através dela que regras de convivência, conhecimentos, linguagem e valores são compartilhados.

Ela é, fundamentalmente, uma prática de respeito e começa em casa, segundo uma visão mais tradicional.

Um bom pai e uma boa mãe não são apenas aqueles que ensinam os filhos a respeitar as regras de convivência social. São também aqueles que transmitem elementos da cultura familiar para que a criança perceba que pertence a algo que existia antes dela e que poderá continuar existindo depois dela.

É justamente essa continuidade que transforma uma experiência individual em patrimônio coletivo.

Os governos normalmente tratam a educação por meio de números: quantidade de escolas, número de alunos, recursos investidos e outros indicadores.

Essas informações podem ser apresentadas em gráficos sofisticados e complexos, acompanhados de uma linguagem própria que muitas vezes dificulta a compreensão para quem está fora da área.

Mas existe uma questão que considero muito mais importante: a qualidade da educação.

Se os recursos destinados à educação básica fossem utilizados de maneira eficiente, poderíamos enfrentar um dos maiores problemas sociais que atingem a população: a precariedade da formação educacional.

E existe uma consequência ainda mais profunda.

Uma população com maior acesso à educação, conhecimento e cultura tende a ter melhores condições para compreender a própria realidade e questionar aqueles que exercem poder sobre ela.

Cultura, ciência, política e economia

A educação é a base de tudo, como expliquei anteriormente, mas seu significado pode ser relativizado conforme os interesses daqueles que controlam os meios de transmissão do conhecimento.

É através dela que os costumes religiosos são preservados, que a política pode ser utilizada com objetivos mais dignos e que se criam condições para que os indivíduos desenvolvam seu potencial.

A ciência existe para lidar com descobertas, investigar questões ainda sem resposta e desenvolver projetos capazes de fazer a comunidade avançar.

A economia é resultado do trabalho e do desenvolvimento estrutural de uma sociedade, de acordo com as circunstâncias nas quais ela se desenvolve.

Para muitos governantes, todas as nuances econômicas de uma comunidade deveriam ser planejadas para atender às necessidades da população e explorar seu potencial. Outros defendem que a economia tende a se desenvolver melhor quando existe menor interferência regulatória.

Se prestarmos atenção, diriam alguns idealistas, essas características também poderiam ser identificadas em determinadas sociedades indígenas da América pré-colombiana.

É claro que existiam problemas, como em qualquer sociedade humana.

Mas como seria a vida hoje se cada povo tivesse permanecido isolado em seu próprio espaço e não houvesse ocorrido aquilo que alguns interpretam como uma profanação cultural?

Isso pode soar bonito em palavras e discursos direcionados a apoiadores. Entretanto, é muito fácil fazer exercícios de imaginação quando não precisamos lidar com fatos históricos específicos.

A realidade humana é muito mais complexa.

Cada movimento provoca uma reação, e cada grupo tende a responder às ações dos demais. Dessa tensão permanente surgem conflitos sociais, políticos, econômicos e culturais.

Essa talvez seja uma das características mais marcantes da cultura contemporânea: estamos permanentemente disputando espaço, identidade, poder e reconhecimento.

A cultura na era da tecnologia

O resultado está diante de nós.

Temos uma geração que passa grande parte da vida dentro de casa, conectada a computadores e smartphones. Quando sai, encontra uma realidade marcada por violência, desigualdade e conflitos sociais.

Ao mesmo tempo, as próprias redes sociais estimulam comportamentos voltados à busca incessante por curtidas, popularidade e aprovação.

Como podemos cultivar alguma coisa estando cada vez mais distantes uns dos outros, conectados principalmente por assuntos banais e passageiros que serão esquecidos no dia seguinte?

A cultura sobrevive da interação entre pessoas em torno de algo que desejam preservar e transmitir às próximas gerações.

Ela funciona como uma espécie de legado da existência humana.

É aquilo que caracteriza nossa maneira de vestir, nossos costumes, nossas crenças, nossas narrativas, nossas conquistas e até nossas formas de interpretar o mundo.

Por isso, cultura não é simplesmente ler um livro.

Não é uma entidade específica.

Não é a política do momento.

Muito menos pode ser reduzida à cor da pele ou às preferências individuais de alguém.

Cultura é o elo que conecta gerações.

É aquilo que permite que as pessoas se reconheçam por meio de símbolos, histórias e narrativas que dão sentido às suas vidas.

É isso que produz músicas para serem registradas e cantadas, histórias e pensamentos para serem escritos em livros e transformados em filmes, além de conhecimentos científicos e tecnologias capazes de construir nossos prédios, casas e ruas, tratar doenças e facilitar nossas vidas.

Cultura, conhecimento e o futuro

Já passou da hora de pararmos de fingir que nossa geração é necessariamente privilegiada apenas porque vive em uma época na qual a globalização e a tecnologia permitem um mergulho praticamente infinito em um oceano de informações.

Informação não é necessariamente conhecimento.

E conhecimento sem contexto pode se perder rapidamente.

De nada adianta ter acesso a milhões de livros, músicas, filmes, documentos, pesquisas e opiniões se não aprendemos nada com aquilo.

E, para aprender, precisamos de uma base cultural precedente.

Precisamos conhecer aquilo que veio antes de nós para compreender o que estamos fazendo agora.

Caso contrário, corremos o sério risco de passar cada geração inteira reinventando a roda.

A cultura não existe apenas para preservar o passado.

Ela existe para permitir que o passado dialogue com o presente e ofereça alguma coisa para o futuro.

É por isso que preservar uma cultura não significa simplesmente guardar objetos antigos, repetir tradições mecanicamente ou transformar costumes em peças de museu.

Significa compreender de onde viemos, reconhecer aquilo que construímos e decidir conscientemente o que queremos transmitir para quem virá depois de nós.


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