Entrevista com Régis Tadeu

Entrevista com Régis Tadeu

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Em junho deste ano, escrevi um texto sobre Régis Tadeu e outras figuras do cenário musical brasileiro identificadas com o rock e o metal. Nesse mês, aproveitei para bater um papo via Skype com o Régis, que gentilmente atendeu à minha solicitação — o que não é muito normal em termos de Brasil.

Entrei em contato e ele aceitou gentilmente abrir um espaço em sua agenda para conversar sobre seu início de carreira, o mercado da música, entre outras coisas.

Confiram abaixo:


O início da carreira e a banda Subúrbio

Régis Tadeu: Bom dia, seu Paulo!

Kako Ramos: E aí, Régis?

Régis Tadeu: Tudo bem aí?

Kako Ramos: Tudo tranquilo. E por aí?

Régis Tadeu: Tudo joia, também.

Kako Ramos: Então, vamos direto ao nosso assunto? Quero saber de ti o seguinte: como um cara que estudou com o Edgar Scandurra e com o Nasi — sim, guitarrista e vocalista do Ira!, respectivamente — e que teve um show cancelado pelo pai tornou-se dentista e depois voltou a trabalhar com música como crítico musical?

Régis Tadeu: É. Na verdade, a gente — Edgar Scandurra, Nasi e Régis Tadeu — tinha uma banda chamada Subúrbio e tocava em alguns bares à noite e não sei o quê. E meu pai era militar, né? Era extremamente de direita. E, um dia, meu, ele foi assistir a um show da gente e ficou absolutamente espantado com a quantidade de maconheiros que tinha na plateia.

E aí, eu tinha... O quê? Acho que eu tinha dezesseis ou dezessete anos. Meu pai falou: “Meu, nem a pau que você vai continuar tocando no meio desses maconheiros”. Imagina, para um militar, era o fim da picada naqueles tempos, né, cara? Nós estamos falando de 1977/78.

Mas, enfim... Bom, aí o engraçado é que eu acabei deixando os caras, parando de tocar com a banda por um tempo, e depois voltei a tocar com outra banda. Só que aí era uma banda de heavy metal, né?

Kako Ramos: Ahãm!

Régis Tadeu: Quer dizer, então, na verdade, eu nunca parei de tocar. E eu sempre gostei muito de odontologia. Entrei na faculdade e tal. Mas, mesmo durante a faculdade, não parei de tocar. Eu tocava em bandas, Anarca, um monte de bandas.

E aí, me formei, comecei a trabalhar em consultório e tal, aquela coisa toda. E aí, num belo dia, um amigo de uma namorada minha me convidou para escrever para uma revista de cifras e tablaturas chamada Cover Guitarra. Ele queria colocar algumas matérias, algumas críticas de discos. E, como ele sabia que eu tinha muitos discos — isso já em 1994 —, eu acabei escrevendo. E aí foi uma bola de neve, né, cara?

Aí eu virei repórter, isso paralelamente ao exercício da profissão de dentista.


Da Cover Guitarra à televisão

Kako Ramos: Sim.

Régis Tadeu: Aí eu virei repórter. De repórter, eu virei editor. De editor, eu virei diretor de redação. Aí, como diretor de redação, nós lançamos algumas revistas que acabaram me levando para dar entrevista no Jô Soares, na TV.

E aí o pessoal de outra emissora gostou. Tudo uma bola de neve, bicho. Na minha vida, tudo aconteceu assim, em termos de bola de neve.

Kako Ramos: É! Essa é a minha grande curiosidade, na verdade. Eu acompanho seu trabalho desde a Cover Guitarra. Eu tenho a primeira que saiu, que era a revista dos Ramones. Depois veio U2...

Régis Tadeu: Isso!

Kako Ramos: Eu tenho uma coleção aqui. Estou agora, com o advento do Mercado Livre e coisas assim, comprando de novo essas revistas velhas, porque a gente acaba se desfazendo desse tipo de coisa com o tempo. Tem mudanças, casa, separa e daí perde muito, né?

Régis Tadeu: Casar é sempre um problema para quem coleciona qualquer coisa.

Kako Ramos: Pois é! Aqui, ainda bem que eu tenho espaço. Eu coleciono guitarras, por exemplo, né, mas... Daí, eu me lembro dessa sua entrevista. Eu cheguei da escola à noite e teve a entrevista com o Jô. Na época, acho que você estava trabalhando na divulgação da revista Mosh, né?

Régis Tadeu: Isso. A gente estava lançando a revista Mosh.

Kako Ramos: Isso. Daí foi um papo bem interessante. Falaram sobre seus discos, sobre um monte de coisas. Que tu tomavas banho lavando os discos e tal...

Régis Tadeu: Isso. Exatamente. Na verdade, essa entrevista foi o ponto de partida para meu trabalho na televisão. Porque aí o pessoal do Super Pop acabou gostando muito. Na verdade, foi uma das entrevistas mais longas. A produção do programa me falou isso: foi uma das entrevistas mais longas da história do programa, né? Foram vários, dois ou três blocos.

E aí o pessoal do Super Pop me chamou para fazer uma participação num debate. E aí eu fiz a participação nesse debate, os caras gostaram pra caramba. Me chamaram para fazer um outro debate no mesmo dia, porque, na época, o programa era gravado direto. Eles gravavam dois programas num dia só.

Aí me chamaram para botar naquele quadro em que eu falava mal dos discos, quebrava os CDs e tal. Superdivertido. E depois, de lá, eu fui para o Raul Gil, onde estou até hoje.


Música na televisão

Kako Ramos: O Raul Gil, eu acompanhei mais na década de 90. E era bem bacana o programa dele. Hoje eu não sei a quantas anda. Assisti pouco nos últimos anos. Eu não sei como ele está, porque ele está velho pra caramba, né, cara?

Régis Tadeu: É. Todos nós envelhecemos.

Kako Ramos: É. Ele e o Silvio Santos, por favor, né? Já estão nessa desde o início de tudo, praticamente, relacionado à TV. Mas ele era superengajado em revelar bandas, novos artistas, nomes e descobrir talentos.

Régis Tadeu: Ahãm.

Kako Ramos: E hoje é uma coisa muito difícil para o pessoal que trabalha com música ter espaço na TV. Porque até o Faustão e o Jô Soares estão demitindo os músicos, né, cara? Isso é muito ruim para a categoria. Não sei qual é a tua opinião sobre isso.

Régis Tadeu: É. Eu acho que o espaço para música vem se reduzindo na televisão, muito porque o público tem um grau de cultura muito baixo, cara. Quanto mais baixo for o perfil da audiência em termos culturais, mais baixo vai ser o nível da programação.


MTV, cultura e divulgação musical

Kako Ramos: É. O fim da MTV foi uma prova disso aí, né? Estávamos falando de 1994 anteriormente, e a MTV entrou no ar no início da década de 90. Então, eu conheci 98% das bandas de heavy metal através de programas da MTV, como Fúria Metal.

Ela foi um veículo muito forte, trazendo os clipes e as informações do que estava rolando lá fora. Para quem gostava de música, foi uma febre na década de 1990.

Régis Tadeu: Ahãm.

Kako Ramos: E hoje a gente não tem isso. Até a Cultura não está oferecendo uma alternativa cultural com essa representatividade. Eu li um texto seu falando que a Cultura poderia ser a nova MTV se as pessoas trabalhassem de verdade.

Régis Tadeu: É. Eu achava isso, né? Eu até acho isso ainda, mas precisa ter patrocinadores engajados, né, cara? Senão, isso não vai rolar, definitivamente.


O futuro da música ao vivo

Kako Ramos: Concordo. Eu estava conversando com o pessoal da Ordem dos Músicos aqui do Rio Grande do Sul que, pelo que estou vendo no mercado atual, a música ao vivo tende a acabar em um curto espaço de tempo. Qual a tua opinião sobre isso?

Régis Tadeu: Na verdade, assim, eu não sei como é aí no Sul, mas aqui em São Paulo, por incrível que pareça, você tem espaço para as bandas cover. E, ainda assim, são poucos espaços. Na verdade, você tem três ou quatro bares só que trabalham com bandas cover.

Pra música autoral é muito raro. Acho que, a cada dia que passa, as pessoas vão ficar consumindo música dentro das suas próprias casas, tá entendendo?

Kako Ramos: Sim. Claro.

Régis Tadeu: Ou você sai para assistir a shows de figurões com ingressos cada vez mais caros, ou você vai ficar curtindo música dentro da sua casa. Infelizmente, é o que está se prenunciando aí no horizonte.

Kako Ramos: E não é só isso. É um conjunto de coisas: segurança, por exemplo. Aqui em Porto Alegre está horrível. Imagino que em São Paulo esteja pior ainda.

Nos grandes centros, você vai sair à noite e deixar o carro onde? As opções são mínimas. Com o que ocorreu em Santa Maria em 2013 — incêndio na boate Kiss —, ficou pior ainda para abrir um bar.

Tem que molhar a mão de muita gente, pagar um monte de impostos, alvarás, pagar as bandas para manter um espaço que abriga 50 pessoas. É impossível se manter nessas condições.

Antes até tinha um pessoal que mantinha bares onde tocavam bandas cover, algumas autorais, mas hoje ficaram só os tradicionais mesmo e que se mantêm com um orçamento que ninguém sabe exatamente de onde sai.

Régis Tadeu: É. Eu imagino.

Kako Ramos: Fica complicado.


Iron Maiden, Metallica e o mercado de discos

Kako Ramos: Outra coisa que eu gostaria de saber de ti, embasado em sua experiência na profissão: o Iron Maiden está com álbum novo e tem a perspectiva de o Metallica lançar um disco de inéditas, talvez para o ano que vem.

Tu achas que essas bandas têm a necessidade de lançar trabalhos novos, já que o pessoal quer mesmo é ouvir os clássicos nos shows, que são o que realmente dá dinheiro? Afinal, os CDs físicos não vendem mais como antes. O que acha sobre isso?

Régis Tadeu: No caso específico do Iron Maiden, cara, depende do tipo de contrato que eles têm com a gravadora. Eu não sei quantos discos eles estão devendo, porque, quando uma banda grande assim assina um contrato, ele estipula previamente quantos discos a banda vai lançar.

No caso específico do Iron Maiden, assim como no caso específico do Metallica, eu acho que são bandas que os fãs vão comprar qualquer tipo de coisa que eles lancem, você está entendendo?

Eu não vejo muito esse tipo de banda preocupada com quedas nas vendas de discos no mercado. São bandas gigantes. São bandas que possuem mais do que fãs, elas possuem torcedores.

Então, assim, qualquer coisa que eles lancem, no caso do Iron Maiden é mais emblemático ainda, o que a banda lançar em termos de CDs, camisetas, pôsteres, chaveiros ou o que quer que seja, vai vender muito.

Então, essas bandas passam muito ao largo dessa dificuldade de vender discos de hoje em dia.


Kiko Loureiro no Megadeth

Kako Ramos: Eu acho que, no caso do Metallica, que tem menos de 10 álbuns de inéditas em mais de 30 anos de banda, lançar mais discos com músicas novas parece sem propósito comercial, já que, normalmente, eles têm recebido mais críticas do que qualquer outra coisa desde que lançaram o álbum preto.

Pra encerrar: o Kiko Loureiro no Megadeth. Como você viu isso?

Régis Tadeu: Eu vi isso como uma aquisição normal de uma banda. Eu não sei por que as pessoas ficaram tão “Oh!”, sabe? O Kiko é um excelente guitarrista e tem uma carreira internacional consolidada. Não vi isso como sendo uma aberração. Não, muito pelo contrário.

Ele é um cara que tem uma banda com uma carreira consolidada lá fora, que é o Angra. O cara é talentoso e seu passe foi adquirido por uma banda muito conhecida.

Já o resultado disso, eu vou esperar sair o disco, vou esperar pra ver os shows, está entendendo? Não vou ficar aqui fazendo qualquer tipo de previsão, tá entendendo?

Mas, assim, eu vi isso como uma aquisição normal. É que o brasileiro é meio bocó, meio caipira nesse ponto.

Kako Ramos: Sim. Exatamente por isso que queria saber sua opinião. O brasileiro, em geral, não valoriza. É incrível, né? Porque o Sepultura fez uma carreira muito interessante, que chegou a ser comparado ao Metallica nos anos 1990.

Mesmo que eles mesmos tenham se boicotado, na minha opinião, não tiveram do público brasileiro o mesmo reconhecimento. Anos depois, o Kiko está no Megadeth, que é uma banda muito representativa no heavy metal.

Régis Tadeu: É, e você também não sabe exatamente quanto tempo ele vai ficar lá, você tá entendendo? Ele pode ficar lá meses, como pode durar anos. Wherever.


Encerramento

Kako Ramos: Régis, agradeço a disponibilidade de seu tempo. Sucesso no seu trabalho aí. Te acompanho direto pelo blog do Yahoo e pelos programas de rádio. Acho seus comentários hilários muitas vezes e suas intervenções têm sido referência. Muito obrigado e sucesso!

Régis Tadeu: Muito obrigado! Eu que agradeço o contato. Obrigado pela audiência. Um abraço aí. Até mais.

Kako Ramos: Grande abraço.


Considerações finais

Infelizmente, não pudemos trocar uma ideia sobre muitos outros assuntos, pois seria necessário mais tempo de entrevista. Mas o Régis Tadeu escreve semanalmente em seu blog no Yahoo (clique aqui) e tem os programas Agente 93 e Rock Brazuca, na Rádio USP FM.

Então, estão aí os canais para saber mais sobre o trabalho do cara.

Eu curto muito a forma como ele escreve seus textos e faz suas críticas, mesmo não concordando com tudo o que ele escreve e diz. Muito pelo contrário: minha visão e a dele sobre determinados assuntos são totalmente opostas. Mas isso não precisa ser tratado como motivo para críticas, discussões e difamações, como está virando de praxe.

Também saúdo a iniciativa dele de indicar álbuns de diversos estilos e curiosidades sobre o universo musical.

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