Iron Maiden - O início

Iron Maiden – O início

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Steve Harris, The Soundhouse Tapes e os primeiros álbuns

Aos fãs de Iron Maiden, já aviso: não trago nenhuma grande novidade ou revelação aqui. Porém, é justo falar neste espaço sobre aquela que considero uma das bandas mais importantes e populares do heavy metal — e que eu adoro, diga-se de passagem.

O Iron Maiden é daquelas bandas que parecem não dar a mínima para as crises do mercado da música. Seus fãs continuam comprando álbuns, camisetas, produtos oficiais e ingressos para os shows. E o mais interessante é que esse público se renova permanentemente.

Não é difícil encontrar um jovem de 14 ou 15 anos usando uma camiseta do Iron Maiden, mesmo décadas depois do lançamento dos primeiros discos.

Então podemos fazer uma pergunta interessante:

Como é possível uma banda sobreviver durante tanto tempo e continuar relevante para novas gerações?

A resposta mais provável, na minha modesta opinião, é: Steve Harris.

Quem teve contato com a história da banda — e até quem acompanha de longe o trabalho de Steve Harris — conhece sua obstinação, persistência e controle sobre a identidade musical do Iron Maiden.

Antes mesmo de formar o Maiden, Harris passou por bandas como Gypsy's Kiss e Smiler. O Iron Maiden surgiu em 1975, e os primeiros anos foram marcados por inúmeras mudanças de formação até que Steve começasse a consolidar aquilo que queria para a banda. A própria história oficial do grupo registra os primeiros shows ainda na segunda metade dos anos 1970, quando a banda percorria o circuito de pubs e pequenos clubes britânicos.

Talvez tenha sido por sorte, competência ou simplesmente pela combinação das duas coisas que Steve Harris conseguiu descobrir exatamente o que queria fazer.

E, mais importante: teve disposição para insistir nisso durante décadas.

The Soundhouse Tapes: o começo do Iron Maiden

A primeira gravação oficial do Iron Maiden, The Soundhouse Tapes, nasceu de uma sessão realizada no Spaceward Studios, em Cambridge, nos dias 30 e 31 de dezembro de 1978.

A banda gravou quatro músicas naquela sessão: “Prowler”, “Iron Maiden”, “Invasion” e “Strange World”. Entretanto, apenas três foram incluídas no EP lançado em 1979, já que “Strange World” acabou ficando de fora da edição original.

O resultado foi uma das demos mais famosas da história do heavy metal.

Lançado em novembro de 1979, The Soundhouse Tapes teve apenas 5 mil cópias produzidas. As unidades foram rapidamente vendidas, transformando o pequeno lançamento independente em um objeto de desejo para colecionadores. A importância daquela gravação também está relacionada ao trabalho do DJ Neal Kay, do Bandwagon Heavy Metal Soundhouse, que ajudou a divulgar as primeiras músicas do Maiden no circuito londrino.

As três músicas do EP são:

  • Iron Maiden

  • Invasion

  • Prowler

E existe uma característica interessante nessa gravação: ela apresenta um Iron Maiden muito mais cru, direto e agressivo do que aquele que surgiria alguns anos depois.

Na formação associada às gravações estavam Steve Harris (baixo), Paul Di'Anno (vocais), Dave Murray (guitarra) e Doug Sampson (bateria). Paul Cairns é frequentemente associado à segunda guitarra daquela fase, embora não apareça creditado oficialmente no EP.

O que aconteceu depois é história.

As apresentações ao vivo, a repercussão da demo e o crescimento da banda ajudaram a chamar a atenção da indústria fonográfica. Em dezembro de 1979, o Iron Maiden assinou contrato com a EMI.

Ou seja: antes de existir uma grande gravadora, uma grande produção ou uma estrutura profissional por trás do grupo, havia uma banda tocando em pubs, uma pequena gravação independente e um público que começou a crescer.

O primeiro álbum do Iron Maiden

O primeiro álbum, simplesmente intitulado Iron Maiden, foi lançado em 14 de abril de 1980. O disco foi produzido por Wil Malone e gravado nos Kingsway Studios, em Londres.

A formação do álbum tinha Paul Di'Anno nos vocais, Dave Murray e Dennis Stratton nas guitarras, Steve Harris no baixo e Clive Burr na bateria.

O disco apareceu em um momento particularmente interessante da música britânica.

O punk rock havia explodido poucos anos antes e nomes como Ramones, Sex Pistols e The Clash tinham mudado a maneira como muitas pessoas enxergavam o rock. Ao mesmo tempo, uma nova geração de bandas britânicas estava desenvolvendo aquilo que posteriormente seria conhecido como New Wave of British Heavy Metal — NWOBHM.

O Iron Maiden fazia parte desse movimento, mas sua música não parecia simplesmente uma continuação do punk.

Havia velocidade, agressividade e energia, mas também havia solos elaborados, mudanças de andamento, melodias, longas introduções e estruturas mais complexas.

Basta ouvir músicas como “Remember Tomorrow”, “Phantom of the Opera”, “Transylvania” e “Strange World” para perceber que havia muito mais acontecendo ali. O próprio álbum reúne oito faixas e já apresenta vários elementos que se tornariam marcas registradas da banda.

Para quem escuta esse disco pela primeira vez atualmente, talvez não pareça tão pesado ou complexo.

E aí surge outra pergunta:

De onde vem tanta admiração por um álbum que, comparado à produção do heavy metal que surgiu depois, pode até parecer relativamente simples?

A resposta está justamente na composição.

Existe uma química entre os integrantes do Iron Maiden que produz uma música relativamente simples em alguns aspectos, mas cuidadosamente construída e lapidada.

Não é necessário utilizar dezenas de camadas de guitarras, produção digital ou recursos tecnológicos para criar uma música marcante.

O material precisa funcionar.

E o Iron Maiden daquele período funcionava muito bem.

Iron Maiden e Black Sabbath: já estava tudo ali?

Ao ouvir o primeiro álbum do Iron Maiden e o primeiro álbum do Black Sabbath, tenho uma impressão bastante curiosa: em termos de heavy metal, muita coisa já estava ali.

É claro que são bandas completamente diferentes e que desenvolveram linguagens próprias. Mas os elementos fundamentais estavam presentes: riffs, peso, melodias, solos, mudanças de andamento, temas sombrios, baixo marcante e uma maneira diferente de utilizar a guitarra dentro da música.

A partir daí, bastava desenvolver e expandir.

No caso do Iron Maiden, esse desenvolvimento foi enorme.

Mas ele ainda não estava totalmente evidente no primeiro álbum.

O que existe ali é uma espécie de fotografia de uma banda que estava começando a descobrir até onde poderia chegar.

E talvez seja justamente por isso que esse disco continue tão interessante.

Killers e a chegada de Adrian Smith

Gosto de Killers tanto quanto de seu antecessor, principalmente por causa da entrada de Adrian Smith.

Não considero que as composições sejam necessariamente superiores ou mais bem trabalhadas que as do primeiro álbum. Na realidade, algumas músicas do disco de estreia ainda me parecem mais interessantes nesse aspecto.

Gosto muito de “Wrathchild”, “Genghis Khan” e “Murders in the Rue Morgue”, mas prefiro “Iron Maiden”, “Prowler” e “Charlotte the Harlot”, por exemplo, quando penso especificamente em composição.

A grande novidade estava também na formação.

Adrian Smith trouxe uma nova personalidade para as guitarras do grupo e, posteriormente, teria papel fundamental na evolução composicional do Iron Maiden.

Killers foi lançado em 2 de fevereiro de 1981, produzido por Martin Birch e gravado nos Battery Studios.

Martin Birch seria uma peça fundamental na história do Iron Maiden. Ele produziu todos os álbuns de estúdio da banda de Killers, em 1981, até Fear of the Dark, em 1992, além de Live After Death e outros trabalhos ao vivo. 

E isso é importante porque a metodologia de trabalho também ajudou a consolidar uma identidade sonora.

Paul Di'Anno e os limites do primeiro Iron Maiden

Embora eu goste bastante de Paul Di'Anno, acredito que seu estilo vocal também limitava a banda de certa forma.

Sua voz tinha uma característica muito própria, mais agressiva e próxima do punk rock em determinados momentos.

Talvez o Iron Maiden jamais pudesse gravar algo como The Number of the Beast com seu antigo vocalista.

Não necessariamente porque Paul fosse um vocalista pior, mas porque a voz e o estilo dele apontavam para outro caminho.

Bruce Dickinson, que entraria pouco depois, possibilitaria uma expansão enorme das possibilidades vocais e melódicas da banda.

Mas isso fica para outra postagem.

Por enquanto, estamos falando do começo.

E é importante entender que Paul Di'Anno foi fundamental para o nascimento do Iron Maiden que conhecemos.

A produção de Martin Birch também ajudou a tornar Killers um álbum muito agradável de ouvir. É um disco agressivo, mas ao mesmo tempo bastante organizado, e estabeleceu uma parceria de longa duração entre Birch e a banda.

Uma das características de Steve Harris à frente do Iron Maiden sempre foi, na minha percepção, tentar manter pessoas e métodos de trabalho enquanto eles continuassem funcionando.

Isso ajuda a explicar uma parte da longevidade da banda.

Maiden Japan e a saída de Paul Di'Anno

Da turnê de Killers surgiu também o registro ao vivo Maiden Japan, lançado em 1981.

Pouco depois, Paul Di'Anno deixou o Iron Maiden e abriu caminho para a entrada de Bruce Dickinson.

E aí começaria uma nova fase completamente diferente.

O Iron Maiden ainda não havia chegado ao seu auge comercial e artístico.

O melhor ainda estava por vir.

Mas uma coisa já estava estabelecida: a identidade da banda.

O que podemos aprender com o início do Iron Maiden?

Para quem acredita que, por ser muito mais fácil hoje em dia ter acesso a informações, equipamentos e recursos tecnológicos, basta gravar algumas músicas e depois lamentar porque elas não fizeram sucesso, mesmo sendo muito mais elaboradas do que os primeiros discos do Iron Maiden, existe uma reflexão importante a fazer.

Os fãs do Maiden foram conquistados um de cada vez.

A banda não nasceu com milhões de seguidores.

Não havia internet, redes sociais, streaming, smartphones, YouTube ou ferramentas digitais capazes de colocar uma música diante de milhões de pessoas em poucas horas.

Havia ensaio.

Havia palco.

Havia composição.

Havia divulgação boca a boca.

Havia uma demo.

Havia bares.

Havia pequenos clubes.

Havia músicos insistindo.

E havia uma identidade.

Isso não está em nenhum site ou software.

Está nas mãos, na mente e nas atitudes daqueles que participam de cada etapa do processo.

Um equipamento pode ajudar.

Um software pode ajudar.

Uma boa gravação pode ajudar.

Uma campanha de divulgação pode ajudar.

Mas nenhum desses elementos cria, sozinho, uma identidade artística.

Steve Harris e a identidade do Iron Maiden

É impossível falar sobre o início do Iron Maiden sem falar de Steve Harris.

Ele não era simplesmente o baixista da banda.

Desde os primeiros anos, Harris foi o principal compositor e uma das figuras responsáveis por definir a direção musical e estética do grupo.

Sua insistência em manter determinadas características do Iron Maiden acabou se tornando uma das marcas da banda.

Isso não significa que o grupo tenha permanecido parado.

Muito pelo contrário.

Depois de Iron Maiden e Killers, viriam The Number of the Beast, Piece of Mind, Powerslave, Somewhere in Time, Seventh Son of a Seventh Son e tantos outros trabalhos que expandiriam progressivamente aquela linguagem inicial. A própria discografia oficial mostra como a banda atravessou diferentes fases sem abandonar completamente sua identidade.

E talvez seja exatamente aí que esteja o segredo.

Mudar sem deixar de ser quem você é.

Iron Maiden: uma identidade construída desde o começo

Para encerrar, considero o Iron Maiden uma das bandas mais consistentes e reconhecíveis da história do heavy metal.

Seus álbuns são diferentes entre si e refletem, de alguma maneira, as tendências e circunstâncias de cada período em que foram produzidos. Entretanto, é muito difícil encontrar um disco do Iron Maiden que não carregue a assinatura sonora da banda.

Essa identidade não apareceu de repente em The Number of the Beast.

Ela já estava presente em The Soundhouse Tapes.

Estava em “Prowler”.

Estava em “Iron Maiden”.

Estava nos primeiros shows.

Estava na obstinação de Steve Harris.

Estava na voz de Paul Di'Anno, nas guitarras de Dave Murray e, depois, Adrian Smith, e na bateria de Doug Sampson e Clive Burr.

E estava na capacidade de transformar uma banda desconhecida tocando em pubs ingleses em uma das maiores instituições do heavy metal.

Para mim, essa é a parte mais interessante da história.

Não é apenas a história de uma banda que ficou famosa.

É a história de como uma identidade artística foi construída antes da fama.

E talvez seja justamente por isso que o Iron Maiden continue sendo tão relevante.

Não importa quantas bandas apareçam no mundo: poucas conseguirão construir uma identidade tão reconhecível e duradoura quanto aquela que começou a tomar forma nos primeiros anos do Iron Maiden.

E tudo começou muito antes de The Number of the Beast.

Começou nos pubs, nos ensaios, nas primeiras composições, em uma pequena gravação chamada The Soundhouse Tapes e na persistência de Steve Harris.


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