Ordem dos Músicos do Brasil
Ordem dos Músicos do Brasil (OMB)
Minha experiência com a profissão de músico
Decidi fazer esta postagem motivado por dois assuntos: 1) a recente aprovação da lei que tira a obrigatoriedade de filiação à Ordem dos Músicos do Brasil (OMB) para exercer a profissão e 2) a minha reaproximação com a entidade após mais de 15 anos.
Para situar o leitor no tempo e justificar minhas decisões de me afastar da Ordem dos Músicos e, posteriormente, voltar a frequentá-la, preciso voltar à metade dos anos 90.
Naquela época, tínhamos algumas dezenas de bandas e músicos de fim de semana que costumavam tocar em pequenos bares, nas calçadas, nas escolas, em praças e onde mais houvesse público disposto a ouvir e instrumentos para tocar. Cada um arranhava alguma coisa em seu instrumento e compartilhava esse conhecimento com os demais para aprender também.
Eu já havia seguido um caminho diferente. Passei a estudar solitariamente e dificilmente pegava um violão em público, salvo raríssimas exceções. Quando entrei para a escola, já sabia algumas coisas sobre partituras e notação musical. Isso possibilitou que eu estudasse alguns métodos para piano, já que não tinha acesso a obras direcionadas ao estudo de violão, muito menos de guitarra.
Eventualmente, consultava alguma revista de cifras para testar a sonoridade de determinados acordes dentro de um contexto harmônico, mas, no geral, minha tentativa era adaptar as transcrições feitas para piano.
A carteira de músico profissional e a OMB
Independentemente da metodologia adotada por um músico para desenvolver-se em seu instrumento, um dos tabus que tínhamos naquela época era a respeito da tal carteira de músico profissional.
Eu ouvia muita gente comentar sobre a dificuldade para tirar a carteira e sobre sua real necessidade. Nesse meio-tempo, comecei a tocar em algumas bandas e o assunto passou a ficar mais sério.
Ouvi relatos de pessoas que haviam sido abordadas pela polícia, que exigia o encerramento de algum evento em que algumas pessoas tocavam seus instrumentos, sob a suposta denúncia de um fiscal da OMB por exercício ilegal da profissão.
Em algumas dessas ocasiões, os instrumentos eram apreendidos e só poderiam ser devolvidos mediante o pagamento de multa.
Achei meio absurdo aquilo que era narrado por algumas pessoas, mas segui em frente e acabei visitando a sede regional da Ordem dos Músicos do Brasil, no centro de Porto Alegre, para me informar sobre as condições necessárias para tirar a tal carteira.
No dia e horário marcados, compareci com meu violão e a documentação necessária, além do pagamento da taxa, cujo valor não lembro atualmente.
Preparei cerca de oito músicas e estudei um pouco mais de teoria musical. Chegando à sede da Ordem, aguardei aproximadamente uma hora até ser chamado para o exame.
Fui conduzido a uma bancada onde estavam meia dúzia de senhores sentados. Um deles me explicou rapidamente como funcionaria a avaliação.
Interpretei uma canção quase completa e trechos de outras duas no violão. Tive o cuidado de escolher músicas dentre aquelas sugeridas pela própria Ordem. Depois, precisei explicar alguns detalhes técnicos e teóricos sobre o que havia tocado.
Em seguida, veio a parte do ditado musical, com a leitura de trechos de uma partitura.
Fui aconselhado a buscar aperfeiçoamento técnico e teórico junto a uma entidade formal, mas fui considerado apto a exercer a profissão de músico, com algumas limitações. A carteira que consegui era provisória.
Dentro de alguns dias, eu tinha em mãos uma carteira com minha foto, meu nome, um número de registro e o título de músico profissional.
Pode parecer estranho, mas aquilo nunca foi motivo de orgulho. Minha família reprovava meu envolvimento com a música, e as pessoas com quem eu tocava e saía não davam importância à carteira ou simplesmente repudiavam a Ordem dos Músicos do Brasil.
Por que me afastei da Ordem dos Músicos
Tempos depois, fui abordado quando saía de um bar por alguns amigos que haviam sido aconselhados a não tocar no evento em questão.
Um certo "fulano de tal" teria apresentado a carteira da Ordem e se identificado como delegado. Fui ao encontro do sujeito e questionei a respeito.
Ele ameaçou tomar minha guitarra com a ajuda da polícia. Apresentei minha carteira e discutimos durante algum tempo sobre toda aquela situação.
Lembro-me de ter ido até a sede da entidade e jogado minha carteira no lixo depois de ouvir a explicação dos responsáveis.
A importância histórica da OMB para os músicos
Houve uma época no Brasil em que o músico podia ser preso por vadiagem. A profissão não era reconhecida pela sociedade.
Eu mesmo sofri com o preconceito daqueles que me rodeavam. Tanto é verdade que sempre tive um emprego formal, mesmo tendo ganhado dinheiro com música em alguns momentos.
A Ordem dos Músicos do Brasil foi criada nos anos 60 com a intenção de combater esse estigma de que músico era vagabundo. Entre outras coisas, isso proporcionou ao músico determinado amparo junto aos órgãos do governo, inclusive nos sistemas de saúde e previdenciário.
A anuidade cobrada pela Ordem nunca chegou a ter valores exorbitantes. Porém, a fama que a entidade carregava e o fato de alguns de seus membros se considerarem acima das demais pessoas fizeram com que sua imagem permanecesse bastante manchada.
Minha revolta, assim como a de algumas outras pessoas, estava relacionada ao descaso de membros da Ordem com aqueles que ambicionavam ser músicos.
Começava pela ineficácia da entidade em impedir que o ensino musical nas escolas públicas fosse retirado do currículo escolar para nunca mais voltar. Havia também a falta de representatividade perante a sociedade, com a Ordem aparecendo, na visão de muitos músicos, apenas para cobrar anuidades e intimidar quem não fosse filiado.
O fato é que a Ordem nunca cresceu ao ponto de se tornar atraente aos olhos de quem desejava seguir uma carreira musical. Muitos desses músicos acabaram ficando contra a entidade, chegando ao ponto de contribuir para derrubar judicialmente a obrigatoriedade de filiação para o exercício da profissão, em razão de fatos públicos nos quais a entidade teria se voltado pontualmente contra alguns artistas.
Minha reaproximação com a Ordem dos Músicos do Brasil
Foi então que, em dezembro de 2014, acabei procurando novamente a Ordem dos Músicos do Brasil e fui muito bem recebido.
O presidente na época, o Sr. Manoel Peres, foi muito educado e atencioso ao me explicar sobre a mentalidade atual dos membros da entidade.
Acreditei que poderia ser bem-vindo naquele espaço que eles chamavam de "A Casa do Músico" e comecei a estudar Solfejo e Teoria Musical. O curso era gratuito e preparatório para quem desejava assimilar os fundamentos teóricos necessários para prestar o exame e obter a carteira profissional.
No caso da sede regional de Porto Alegre, havia a possibilidade de inscrição em quatro cursos. Além do já mencionado, havia cursos de Harmonia, Violão para Iniciantes e Violão e Guitarra Avançados.
Tal iniciativa da Ordem acabava sendo uma contrapartida oferecida aos não músicos e, ao mesmo tempo, um convite à filiação.
Para quem gosta de música e se dedica a tocar em uma banda, compor ou simplesmente estudar um instrumento, vale a pena conhecer esse tipo de iniciativa. Estudar na Ordem e buscar o reconhecimento da profissão de músico pode representar um avanço importante.
Entretanto, ainda faltava muita coisa para que a entidade conquistasse definitivamente o gosto e o respeito dos músicos em geral.
A Ordem como espaço de convivência entre músicos
Outro fator interessante de frequentar a Ordem era fazer parte da chamada "confraria".
Ter com quem conversar sobre música, conhecer outros músicos, colaborar em projetos de artistas, conhecer seus trabalhos e ampliar e compartilhar conhecimentos e experiências são aspectos importantes para quem pretende construir uma trajetória profissional na música.
Afinal, como acontece em praticamente qualquer carreira, uma rede de contatos é fundamental.
Independentemente de qual seja seu interesse dentro do mercado musical, é preciso estar inserido nele para aumentar suas possibilidades.
Ser músico profissional não significa apenas tocar bem um instrumento. Existe toda uma estrutura envolvendo estudo, formação, legislação, direitos profissionais, relacionamento com outros músicos, produção e oportunidades de trabalho.
Por isso, minha relação com a Ordem dos Músicos do Brasil (OMB) passou por diferentes fases. Primeiro, enxerguei a carteira como uma conquista; depois, afastei-me completamente da entidade por causa das experiências negativas que tive; anos mais tarde, decidi voltar e conhecer uma realidade diferente daquela que havia encontrado no passado.
Talvez essa seja justamente uma das características mais interessantes da vida de um músico: nunca paramos de aprender, inclusive sobre a própria profissão.
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