Cursum Perficio
Cursum Perficio
O fim da jornada do Anthrax?
A expressão latina Cursum Perficio, em uma tradução aproximada, significa algo como “minha jornada chegou ao fim”, “minha jornada terminou” ou “concluo minha jornada”. É uma expressão que remete à reflexão sobre uma história, uma trajetória ou um caminho que chega ao seu término.
Esse é o título do mais recente álbum da banda americana de thrash metal Anthrax, lançado em 18 de setembro de 2026, depois de dez anos sem um novo álbum de estúdio. O trabalho sucede For All Kings, de 2016, e representa um momento particularmente simbólico na trajetória da banda.
O título, entretanto, não significa que o Anthrax esteja anunciando oficialmente o fim de suas atividades. Charlie Benante já afirmou que a banda não está encerrando sua trajetória, e o próprio conceito do álbum parece funcionar mais como uma reflexão sobre tudo o que o grupo construiu ao longo de suas décadas de carreira.
Até o lançamento do disco, o Anthrax havia apresentado três singles acompanhados de videoclipes — “It's For the Kids”, “The Edge of Perfection” e “Everybody's Got a Plan” — além do EP Cursum Perficio: Meet the Characters, que apresenta personagens relacionados ao universo conceitual do álbum.
Minha relação com o Anthrax
Eu cheguei a assistir a uma apresentação do Anthrax em abril de 2012, ao lado do Misfits, e achei muito interessante o que vi. Não foi, entretanto, uma experiência que me levasse a colocar a banda no mesmo patamar dos outros três integrantes do chamado “Big Four” do thrash metal americano: Metallica, Megadeth, Slayer e Anthrax.
O Anthrax sempre teve uma característica própria. Embora tenha abordado temas pesados como demência, epidemias, distopia e crítica social, a banda frequentemente apresentou uma postura mais divertida e irreverente quando comparada ao satanismo do Slayer, ao mau humor do Megadeth ou à atmosfera mais depressiva que muitas vezes associo ao Metallica.
Mesmo assim, nunca conseguiu reunir ao seu redor uma legião de fãs tão apaixonada quanto a de seus três companheiros de geração, nem surfou em uma onda que lhe desse grande destaque fora do universo do thrash metal.
Isso não significa que o Anthrax não tenha importância.
O grupo sempre teve carisma e representou muito bem seu papel ao longo de décadas de existência. Musicalmente, na minha opinião, esteve um pouco abaixo das outras três bandas do Big Four, mas nunca esteve muito distante delas. E, em termos de representatividade, sempre esteve à frente de diversas outras bandas importantes do estilo, como Metal Church, Exodus, Testament e Overkill.
O Anthrax de Cursum Perficio
Mas o que poderíamos esperar de uma banda que já lançou trabalhos tão diferentes entre si como Fistful of Metal, Among the Living, Sound of White Noise e For All Kings?
Para mim, Cursum Perficio parece uma sequência lógica de toda essa trajetória.
O álbum reúne elementos de diferentes fases do Anthrax. O instrumental é pesado, Joey Belladonna continua cantando muito bem sobre os riffs de Scott Ian e a cozinha formada pelo “tio e sobrinho” — Charlie Benante na bateria e Frank Bello no baixo — continua segura. A formação atual ainda conta com Jonathan Donais na segunda guitarra.
O trabalho também possui uma dimensão conceitual interessante. Personagens como Chron, Grim, Clara Thorne e Rowan Fenn foram criados para ampliar a narrativa associada à arte e aos materiais audiovisuais do álbum. O EP Meet the Characters apresenta justamente essas figuras e ajuda a construir esse universo paralelo.
Existe uma espécie de mística em torno de Cursum Perficio que remete ao encerramento de uma era e à presença de personagens quase mágicos. Talvez por causa das narrações e da construção conceitual, o EP chegou a me lembrar um pouco de Magica, lançado por Ronnie James Dio, embora as temáticas do Anthrax passem por questões como violência escolar, divisão política e, principalmente, a própria trajetória da banda.
O simbolismo por trás do álbum
Ao ouvir o disco e tentar assimilar artisticamente sua proposta, surgiu uma reflexão importante.
Por mais que muitas vezes tenhamos a tendência de considerar a simbologia adotada pelas bandas apenas uma ilustração non sense, acredito que algumas obras podem provocar associações muito maiores do que aquilo que seus autores pretendiam originalmente.
Foi assim que Cursum Perficio me levou a pensar na ideia de um encerramento de ciclo previsto para 2030.
Não estou afirmando que o álbum tenha sido concebido para representar esse acontecimento. Essa é uma associação que surgiu durante minha própria interpretação da obra.
Quando olho para algumas previsões e representações feitas pela ficção científica nas últimas décadas do século XX, percebo como várias delas anteciparam elementos que hoje fazem parte do cotidiano: chamadas de vídeo em tempo real por dispositivos portáteis, robôs substituindo determinadas funções humanas, conexão tecnológica praticamente permanente e outras transformações que pareciam absurdas algumas décadas atrás.
Ao mesmo tempo, observo uma geração que, na minha percepção, muitas vezes demonstra menos respeito pelos mais velhos, relativiza regras e busca o ócio imediato.
Dentro da minha própria visão de mundo, o novo aeon, projetado para a segunda metade do século XXI, apontaria para uma sociedade cada vez mais dominada por máquinas, para uma transformação profunda da estrutura familiar que conhecemos e para um Estado tecnológico voltado à utilização dos recursos do planeta para sustentar essa estrutura.
Essa é uma interpretação pessoal, mas é justamente esse tipo de associação que a arte pode provocar.
Olhando para a minha própria jornada
Em paralelo a tudo isso, ao ouvir o álbum do Anthrax e tentar compreender artisticamente sua proposta, comecei a olhar para a minha própria trajetória.
Por mais que sempre tenhamos projetos, sonhos e planos para o futuro, chega um momento em que precisamos olhar para trás e perguntar: onde tudo isso nos trouxe?
É exatamente essa sensação que Cursum Perficio despertou em mim.
Olho para o que está ao meu redor e sinto que preciso fazer algo semelhante ao que o Anthrax fez com este álbum: olhar para minha jornada, avaliar onde ela me levou e começar a encerrar os ciclos que ainda permanecem abertos.
No meu caso, ainda tenho algumas centenas de textos para publicar, algumas músicas para lançar e alguns ciclos para concluir.
Por isso, já não sinto o mesmo entusiasmo de outrora, quando olhava para uma página em branco, um instrumento encostado ou uma nova revolução tecnológica e imaginava milhares de possibilidades.
Minha música está aí.
Meus textos estão aí.
Meus livros, meus cursos e toda a história que os gerou também estão aí.
Tudo isso representa uma trajetória.
E talvez seja justamente isso que Cursum Perficio tenha me feito enxergar com mais clareza.
Um marco existencial
É uma reflexão insalubre para um dia chuvoso, especialmente depois de uma noite que representou, para muita gente, prejuízo, dor, sofrimento e morte.
Eu vi algo semelhante no outono de 2024, durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul e que acabaram representando um marco existencial na minha própria jornada.
Depois daquilo, praticamente nada do que eu havia planejado aconteceu como imaginava.
Sei que o novo aeon que imagino está muito além da minha existência. Minha saúde não está boa, minha obra está praticamente concluída e grande parte do restante está fora do meu raio de ação.
Cursum Perficio se tornou, para mim, um símbolo de reflexão.
Assim como “One”, do Metallica, foi uma espécie de marco zero da minha jornada dentro do heavy metal, este álbum do Anthrax carrega uma força simbólica que considero impossível de ignorar.
Talvez a música, isoladamente, tenha pouca relevância para alguém que não acompanhe a banda. Para mim, porém, o simbolismo da capa, a abordagem temática, o momento histórico e a própria fase atual da minha vida formam um conjunto poderoso.
Tudo isso aponta para uma sensação de reta final.
Talvez seja simplesmente a percepção de alguém olhando para a própria trajetória e tentando compreender o que fazer com aquilo que ainda resta.
Qualquer projeto de longo prazo pode parecer uma perda de tempo quando a realidade nos lembra constantemente que o futuro não é garantido.
E, quando 2030 chegar, não sei se estarei aqui para recebê-lo.
Mas sei que Cursum Perficio me fez parar por um instante, olhar para trás e perguntar o que fiz com a minha própria jornada.
Talvez, no fim das contas, seja exatamente essa a força desse título.

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