Custo-benefício

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Equipamentos musicais, marcas e produção musical

O produtor Lisciel Franco, conhecido por seus vídeos no YouTube, fez uma postagem interessante falando sobre três tipos de reações que as pessoas costumam ter em relação a equipamentos de marca.

No vídeo, ele conta uma pequena história para ilustrar sua ideia e propõe que existem três formas diferentes de pensar quando o assunto são marcas, equipamentos e ferramentas utilizadas na produção musical.

Cheguei a fazer alguns comentários no vídeo, que pode ser conferido no canal do Lisciel no YouTube. Como o espaço para expor uma ideia mais completa é limitado e, percebendo que o assunto teve certa repercussão, achei interessante escrever sobre isso e apresentar minha opinião com base na minha própria experiência no universo musical e na produção de música.

O peso das marcas no universo musical

Todas as pessoas que têm interesse em participar do universo musical, seja como músicos, produtores ou profissionais de outras áreas, cedo ou tarde vão se deparar com inúmeras histórias sobre marcas de equipamentos, instrumentos, músicos e produtores.

As grandes marcas carregam histórias de sucesso por trás de seus produtos, e isso faz toda a diferença no mercado.

Se pegarmos os amplificadores Marshall como exemplo, veremos que, em muitos vídeos de guitarristas e bandas famosas, existe uma parede de amplificadores da marca ao fundo.

Muitos músicos desenvolvem uma verdadeira obsessão por Marshall, e modelos como o JCM 800 fizeram — e ainda fazem — parte da história do Rock.

Da mesma forma, quando temos contato com o trabalho de guitarristas como Jimi Hendrix, Ritchie Blackmore, Yngwie Malmsteen, entre tantos outros, vemos em suas mãos guitarras Fender.

Esse tipo de associação funciona como uma poderosa forma de marketing e ajuda a tornar determinadas marcas praticamente imbatíveis no imaginário dos músicos.

O mesmo acontece com marcas como Gibson, Mesa Boogie e tantas outras.

As empresas clássicas dificilmente saem da cabeça dos músicos e dos apaixonados por música. Seus produtos normalmente se tornam objetos de desejo e sonhos de consumo.

Embora existam diversas linhas e faixas de preço dentro dessas marcas, seus produtos carregam o peso de uma história, de uma reputação e de décadas de know-how.

Ao pagar por uma guitarra Fender ou Gibson, por exemplo, existe a expectativa de adquirir um instrumento de qualidade respaldado pela tradição da empresa que o fabrica.

Entretanto, você pode pagar aproximadamente R$ 2.000 por uma guitarra Fender ou R$ 15.000 por outra, dependendo do modelo.

Certamente, a primeira opção não terá a mesma qualidade de construção nem o mesmo desempenho da segunda, embora ambas carreguem o logotipo da mesma empresa.

O mesmo acontece com a Gibson, cujo leque de modelos e preços pode ser tão amplo quanto — ou até maior do que — o da Fender.

Quanto custa montar um setup para gravar guitarra?

Mas o que Lisciel mostra em seu vídeo é direcionado principalmente para quem produz música e acompanha seu trabalho nessa área.

E é nesse ponto que as coisas precisam ser analisadas com maior profundidade.

Para gravar uma guitarra utilizando um setup tradicional, você pode precisar de:

  • Uma guitarra;

  • Um cabo;

  • Um amplificador;

  • Um microfone;

  • Um cabo de microfone;

  • Um pedestal;

  • Uma interface de áudio;

  • Um computador;

  • Um software de gravação.

Vamos quantificar financeiramente esse exemplo utilizando algumas das marcas já mencionadas e outras bastante conhecidas no mercado.

Imagine pagar:

  • R$ 12.000 por uma Fender Stratocaster;

  • R$ 120 por um cabo Tecniforte;

  • R$ 8.000 por um amplificador Marshall Combo valvulado;

  • R$ 750 por um microfone Shure SM57;

  • Cerca de R$ 200 por um cabo Mogami para o microfone;

  • Aproximadamente R$ 350 por um pedestal Santo Angelo;

  • Cerca de R$ 2.000 por uma interface de áudio Avid ou Digidesign;

  • Aproximadamente R$ 5.000 por um Mac Pro usado;

  • R$ 1.800 por uma versão do Pro Tools, ou utilizar aquela fornecida com determinada interface.

Somando apenas esses itens, já ultrapassamos facilmente os R$ 30.000 em equipamentos para gravar uma guitarra.

E isso sem contar regulagem, correia, cordas, palhetas, pedais, pré-amplificadores, investimento no espaço de gravação, acessórios para computador, instalações elétricas, monitores de referência, fones de ouvido e muitos outros detalhes.

Pensando dessa maneira, gravar guitarra em casa pode se tornar algo financeiramente inviável, mesmo utilizando equipamentos de marcas famosas em suas linhas mais simples.

Mas, se você é teimoso e decide investir no seu sonho, é justamente aí que outras marcas e modelos começam a fazer toda a diferença.

Você passa a pensar no conjunto de ferramentas que possibilitará gravar sua música, e não simplesmente em adquirir todas aquelas marcas famosas.

O melhor investimento: conhecimento

Na minha opinião, o primeiro investimento que você deve fazer é em conhecimento.

Antes de comprar qualquer equipamento, o mais sensato é buscar informação.

A partir daí, você descobrirá que existem inúmeros tipos de instrumentos, equipamentos e formas de gravar música.

Hoje existem plugins capazes de simular diferentes tipos de hardware. Temos aplicativos para smartphones, diversos computadores, interfaces de áudio, amplificadores, microfones e inúmeras alternativas para montar um home studio.

Possivelmente, você continuará desejando aquelas marcas mais famosas.

Mas também perceberá que é possível fazer um trabalho muito bom utilizando alternativas mais acessíveis e compatíveis com um orçamento de curto prazo.

Lisciel deixou claro no vídeo que existem pessoas que desqualificam as marcas mais utilizadas apenas para justificar suas escolhas.

Outras são radicais e saem defendendo suas preferências contra tudo e contra todos.

E existem aquelas que, em vez de perder tempo com esse tipo de discussão, simplesmente fazem seu trabalho com as ferramentas que têm em mãos, independentemente de serem ou não equipamentos da marca mais famosa.

Minha experiência com Mac, Pro Tools e equipamentos de estúdio

Eu mesmo cheguei a comprar um Mac Pro G5 usado, uma interface M-Audio Profire 2626 e utilizei o Pro Tools M-Powered 7.5.

Claro que não era nada absurdo.

O Pro Tools M-Powered era uma série lançada pela Avid na época em que a empresa havia adquirido a M-Audio, e possuía suas próprias limitações.

Quando adquiri esse sistema, a Avid já estava lançando o Pro Tools 9.

O Mac também estava chegando ao limite de sua arquitetura, com 4 GB de memória RAM e rodando o OS X 10.5.8. A Apple já trabalhava com processadores Intel e havia lançado o OS X 10.7.

Mesmo assim, existia uma espécie de fetiche em possuir aqueles equipamentos.

Menos de um ano depois, já havia vendido ou negociado a interface.

Ela funcionava via FireWire, e o Mac já não suportava alguns plugins e instrumentos virtuais com os quais eu estava trabalhando.

Sem esses recursos, o Pro Tools — que acabou se mostrando limitado para minhas necessidades — perdeu a razão de estar ali.

Quando equipamentos mais simples resolvem o problema

Depois disso, adquiri uma interface Tascam US-1800, que possuía 16 canais de entrada e quatro de saída, conexão USB e vinha acompanhada de um Cubase LE 5, bastante simples.

Também tinha um microfone Shure SM57 e uma guitarra Washburn.

Acabei trocando esse conjunto por uma Fender Telecaster Highway One.

Paguei aproximadamente R$ 3.000 pela guitarra e, quando comecei a tocar minhas próprias músicas com ela, percebi que minha Ibanez de R$ 700, equipada com captadores e ponte substituídos por modelos melhores, já dava conta do recado com sobra.

Possivelmente, para a pessoa que recebeu uma interface praticamente nova, uma guitarra Washburn modificada e um Shure SM57, tenha sido um excelente negócio e até mesmo a realização de um sonho.

Mas eu já havia passado daquela fase.

O equipamento precisa servir ao seu trabalho

Também tive outros negócios de ocasião que me fizeram abrir mão de um MacBook e de um Mac Mini para trabalhar com um PC que eu mesmo montei.

E ele está funcionando perfeitamente bem — pelo menos até o momento.

Por afinidade, acabei comprando o Cubase, além de alguns softwares e controladores da Steinberg.

Sabendo que Yamaha e Steinberg fazem parte do mesmo grupo, investi em uma interface Steinberg UR44 para minhas gravações e em monitores Yamaha HS8 para monitoração.

Estou extremamente satisfeito com os resultados.

Independentemente de a Yamaha ser considerada ou não uma marca top de linha e de algumas pessoas — inclusive o próprio Lisciel — falarem mal do Cubase, o que realmente importa para mim é que estou conseguindo trabalhar sem problemas.

E, sinceramente, não acredito que determinadas marcas mais caras melhorariam consideravelmente minhas gravações neste momento.

Sonhar com equipamentos melhores não impede ninguém de produzir música

É claro que eu adoraria ter uma Gibson Les Paul no lugar da minha Epiphone.

Adoraria possuir um sistema completo de Pro Tools HD, monitores Genelec, microfones Neumann para gravar voz, uma mesa SSL e um Marshall JCM 800 no lugar do meu Valvestate.

Mas não possuir esses equipamentos não impede a produção das minhas músicas.

Também não diminui minha empolgação em buscar conhecimento e tentar executar e capturar o melhor som possível.

Custo-benefício é mais importante do que a marca

No final das contas, essa é a grande questão.

Custo-benefício não significa comprar o equipamento mais barato. Também não significa comprar o equipamento mais caro.

Significa encontrar as ferramentas que realmente atendem às suas necessidades dentro das possibilidades que você possui.

Uma marca famosa pode representar qualidade, tradição e confiabilidade.

Mas isso não significa que você precise ter o equipamento mais caro daquela marca para fazer boa música.

Da mesma forma, utilizar equipamentos mais simples não deve ser uma desculpa para desprezar marcas consagradas ou justificar limitações.

O importante é conhecer as ferramentas disponíveis, entender suas necessidades e utilizar da melhor maneira possível aquilo que está ao seu alcance.

No meu caso, continuo sonhando com diversos equipamentos.

Mas, enquanto eles não chegam, continuo estudando, compondo, gravando e tentando melhorar.

Porque, no fim das contas, o equipamento ideal é aquele que permite que você transforme suas ideias em música.

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