Convite à reflexão
Convite à reflexão
Política, sociedade e os caminhos do Brasil
No início do ano, publiquei um texto com o título “Que 2016 nasça pobre, mas com dignidade”. Acredito que esse seja o sentimento de boa parte da população brasileira — ou, pelo menos, espero que seja. Diante de tudo o que acompanhamos nos noticiários sobre corrupção, violência e idiotice, dignidade é o mínimo que posso desejar.
Nasci em 1978, no final de um longo período em que um governo militar controlou o Brasil. O regime militar, como muitos o chamam, teve início em 1964 e seu processo de transição para a democracia se estendeu até 1985. Foi durante essa fase que a pluralidade partidária começou a ressurgir, dando origem ao cenário político que conhecemos hoje.
O que proponho aqui é uma reflexão sobre todo esse contexto político e social que minha geração acompanhou. Sugiro que cada pessoa acostumada a comentar notícias, defender A ou B, debater suas teses e manifestar opiniões nas redes sociais pare por um instante. Deixe a bandeira de lado, vista a camisa da imparcialidade e repense suas convicções políticas e sociais. É preciso evitar que a teimosia ideológica nos leve a aceitar tudo aquilo que confirma nossas crenças, sem questionamento ou reflexão.
Por que propor essa reflexão agora?
A resposta é simples: para que possamos resgatar — ou talvez conquistar — a dignidade que nós, brasileiros, possivelmente nunca tivemos em sua plenitude.
Não será um partido político, por si só, ao assumir o poder que lutará por você para garantir essa condição. Certas conquistas não podem ser terceirizadas. Cabe a cada cidadão buscar e defender sua própria dignidade.
O jogo político é nefasto e mesquinho. Nunca ignore essa característica. Um político bem-sucedido em sua trajetória dificilmente será o defensor de causas nobres ou alguém verdadeiramente comprometido com o bem comum, como muitos eleitores acreditam ao depositar seu voto. Na minha visão, quem entra na política costuma ter dois objetivos principais: dinheiro e poder. Qualquer outra intenção tende a ser esquecida durante o processo ou acaba se tornando um obstáculo à ascensão política desse indivíduo.
Vou dividir o assunto em alguns tópicos para facilitar o desenvolvimento da reflexão. Antes, porém, faço uma ressalva: reconheço que existem exceções para quase todas as afirmações anteriores. Ainda assim, reforço que são exceções.
O período militar no Brasil
Li bastante sobre o assunto e ouvi muitas histórias de meu avô e de seus contemporâneos. Acredito que esse período tenha sido vivenciado de maneiras diferentes em cada região, afinal, vivemos em um país de dimensões continentais, com uma diversidade climática, cultural e econômica que influencia diretamente a interpretação de qualquer fenômeno social.
Ao ouvir depoimentos de artistas, políticos e jornalistas que viveram naquela época, percebo que havia uma forte necessidade de silenciar quem apresentasse opiniões diferentes daquelas defendidas pela elite no poder — ou simplesmente quem ousasse manifestar uma opinião própria. Em resumo, na visão desses personagens, a liberdade de pensar e se expressar era duramente combatida pelo regime militar.
A filosofia que orientava parte da estrutura militar brasileira era associada ao positivismo. Em uma explicação simplificada, o governo tomava decisões com base nas avaliações de técnicos escolhidos para cada área, buscando resultados considerados pragmáticos.
Entre os adversários mais ferrenhos do regime estavam os comunistas e socialistas revolucionários, que organizavam grupos e realizavam ações que iam da propaganda ideológica até iniciativas violentas. Entretanto, movimentos dessa natureza já existiam desde a Era Vargas e ganharam força após a renúncia de Jânio Quadros e a posse de João Goulart, que mantinha relações próximas com alguns desses grupos.
Minha impressão é que existia um grande temor em relação à farda e às consequências de ser preso por cometer algum delito, especialmente quando ele pudesse ser interpretado como um ato contra o governo. Se prestarmos atenção às letras das músicas e aos textos produzidos naquela época, perceberemos como a polícia e o Exército eram frequentemente representados como instrumentos de execução de um poder consolidado contra a população.
Nós, filhos e netos daquele período, crescemos sob a influência desse temor, que foi se diluindo com o passar do tempo e o surgimento de novas gerações.
Entretanto, independentemente de se tratar de um confronto entre um governo autoritário e grupos revolucionários, excessos foram cometidos. Houve mortes relacionadas tanto às ações revolucionárias quanto à repressão estatal. Ainda assim, existem pessoas que defendem e preferem o governo militar. Se Costa e Silva ficou marcado pelo famigerado AI-5, Médici era querido e admirado por muita gente.
Em síntese, o regime militar brasileiro não correspondeu necessariamente à imagem de uma ditadura clássica presente no imaginário de todos, mas foi centralizador, estatista e truculento. Por mais que muitos de seus críticos tenham vindo de grupos adversários, a narrativa construída e popularizada nos anos seguintes carrega muito dos sentimentos daqueles jovens idealistas — personagens de seu próprio tempo.
Culturalmente, aqueles que foram perseguidos e intimidados pelo governo militar acabaram se tornando grandes vencedores. Se não alcançaram seu objetivo mais imediato, que era promover uma revolução proletária, venceram uma importante batalha cultural, conquistando espaço em escolas, universidades, sindicatos, associações e outras instituições. Enquanto isso, os militares viram seu sistema perder força e passaram a ser criticados pelas gerações posteriores.
A redemocratização brasileira
Esse período coincidiu com a passagem da minha infância para a adolescência e foi marcante. O governo militar reconhecia que era hora de sair de cena. Seu modelo demonstrava sinais de desgaste diante da inflação galopante, da desconfiança de setores importantes da sociedade e das pressões que vinham de diferentes lados.
Considero a passagem do governo Geisel para o governo Figueiredo como o primeiro estágio desse processo, posteriormente consolidado com a eleição de Tancredo Neves para a Presidência da República.
Se Figueiredo admitia ter sido escolhido a contragosto para conduzir a transição, ficava evidente que o desgaste do regime era irreversível. O governo militar precisaria abrir espaço para as forças políticas que haviam se unido para derrotá-lo e que conquistavam cada vez mais apoio popular.
Entretanto, um sentimento de frustração marcou aquele momento e esfriou o entusiasmo de muita gente. Tancredo Neves, doente e desgastado pela campanha presidencial, não chegou a tomar posse. Quem assumiu a Presidência foi José Sarney.
Embora a votação tivesse ocorrido entre parlamentares, ela parecia refletir a vontade popular. Ainda assim, ver o poder parar nas mãos de um personagem que até então ocupava uma posição secundária naquele processo não parecia um bom começo.
A reestruturação política e social
Enquanto o governo Sarney herdava problemas econômicos e sociais gravíssimos, seu partido e outras forças políticas pareciam estabelecer um acordo velado para evitar o retorno dos militares e garantir que o poder permanecesse restrito a uma elite política. O objetivo seria preservar posições, manter relevância e direcionar os resultados eleitorais.
Afinal, um dos grandes compromissos daquele período, transformado em bandeira de campanha, era a realização de eleições diretas. Um dos slogans que marcaram os movimentos populares era justamente: Diretas Já!
Antes de abrir definitivamente as disputas pelo poder, era necessário estabelecer as regras do jogo. Foi nesse contexto que se convocou uma Assembleia Constituinte, responsável pela elaboração de uma nova Constituição Federal.
É claro que a inflação, o desemprego e os demais problemas herdados do governo militar não foram resolvidos. Pelo contrário, muitos deles se agravaram. Mas o foco daquele momento era consolidar a nova estrutura política.
Embora essa fase tivesse um direcionamento essencialmente político, a população, que sofria com os problemas econômicos e sociais, também aderiu às novas ideias e tendências divulgadas pela mídia. Jornais, revistas, televisão e rádio passaram a exercer grande influência sobre o comportamento e a opinião pública.
Diversos movimentos que sobreviveram ao período militar aproveitaram a liberdade recém-conquistada — da qual se declaravam restauradores — para moldar informações e discursos de acordo com suas próprias ideologias.
Se, durante o regime militar, a cultura venceu as armas, foi nessa fase que se enterrou definitivamente o cadáver fardado e se estabeleceu o novo regime democrático brasileiro. Isso não aconteceu apenas no jogo político, mas também no imaginário da sociedade como um todo.
A reconquista do poder
Esse processo ganhou força em 1989, com a primeira eleição direta para presidente da República após o regime militar.
A mídia passou a criar mocinhos e vilões entre personagens já legitimados pelo processo de redemocratização. Também influenciou o ambiente das campanhas, os financiamentos políticos e a aproximação entre grandes marcas, dinheiro e poder.
A década seguinte começou com um presidente arrogante, impulsionado pela mídia e cercado por suspeitas relacionadas à origem de recursos financeiros. Ao que parecia, o escolhido tinha um ego maior do que se imaginava. Em apenas dois anos, foi criticado, acusado, condenado politicamente e afastado do poder em meio a uma mobilização da opinião pública.
O poder real iludiu a população, fazendo-a acreditar que finalmente tinha controle sobre os rumos do país e que, por meio de sua mobilização, havia conseguido derrubar o presidente.
Um novo salvador da pátria já estava pronto para consertar tudo — e foi isso que prometeu fazer. Criou uma moeda forte, reorganizou as regras do jogo e o poder reconquistou seu espaço. Dessa vez, porém, sem precisar recorrer a armas ou ameaças. A vaidade e a crença popular foram utilizadas para conquistar apoio e legitimar mais uma escolha construída nos bastidores.
Durante esse período, os participantes do jogo político foram aprimorando suas estratégias e desenvolvendo novas táticas. Duas correntes políticas muito fortes passaram a disputar espaço, enquanto uma série de partidos menores e movimentos tentava encontrar seu lugar nesse cenário.
O país conquistou uma nova imagem, principalmente para consumo interno. Silenciosamente, o poder também conseguiu neutralizar boa parte da voz revolucionária que existia anteriormente.
Como a máquina militar estava enferrujada e seu uso já não era socialmente conveniente, a principal ferramenta de influência passou a ser a mídia, agora consolidada como um dos grandes agentes do poder.
Em vez do rock contestatório, das letras e peças teatrais com críticas sociais e políticas elaboradas e dos movimentos organizados pelas minorias, ganhou espaço uma produção cultural mais comercial e previsível. Artistas populares passaram a ocupar rádios e televisões com músicas românticas, letras açucaradas e conteúdos de fácil consumo.
Depois veio o pagode adocicado, repleto de trocadilhos. O rock virou motivo de piada, enquanto antigos artistas e intelectuais passaram a escrever para trilhas sonoras de novelas e deixaram de contestar o poder com a mesma intensidade. Em determinadas situações, mantinham apenas a imagem de perseguidos pela ditadura quando algum posicionamento político lhes era conveniente.
Tudo isso passou a ocupar um espaço cada vez maior nos meios de comunicação.
A revolução de plástico
Como a nova estrutura de poder precisava renovar sua imagem e reafirmar sua identificação com o povo, resgatou aquela marca que havia surgido nas greves e nos movimentos sindicais: a voz identificada com o trabalhador explorado.
Essa identidade foi reformulada. Foram estabelecidas alianças com empresários e políticos que representavam o velho sistema, mas que haviam perdido espaço e visibilidade. Com um discurso renovado e promessas de inclusão social, chegou ao poder um presidente sem diploma universitário e sem experiência em mandato executivo. Para boa parte da população, isso parecia torná-lo imune a qualquer desconfiança.
O novo governo sofisticou o discurso, distribuiu benefícios à população e, na minha interpretação, mascarou parte do panorama econômico, ao mesmo tempo que abriu ainda mais espaço para a atuação de grandes empresas no país.
Pessoas que antes eram simples ativistas, com empregos comuns, enriqueceram enquanto parte da população acreditava estar conquistando maior poder aquisitivo e qualidade de vida.
Politicamente, o país foi se dividindo em pequenos grupos e nichos de influência. Enquanto essas forças aparentavam lutar umas contra as outras, também estabeleciam alianças das mais improváveis.
Desde o início, o novo governo foi marcado por diversos casos de corrupção que vieram a público. Mas isso parecia ter cada vez menos importância. A população preferiu acreditar em discursos vazios, agarrar-se a bandeiras que pouco representavam seus interesses e demonstrar sua insatisfação por meio de formas criativas, porém muitas vezes ineficazes, de protesto.
O agente tecnológico e o controle da informação
Para coroar todo esse processo, a televisão tornou-se digital e ampliou suas possibilidades comerciais, oferecendo aos patrocinadores do poder novas formas de alcançar o público e exercer influência.
A popularização dos smartphones transformou os objetos de consumo em produtos cada vez mais portáteis, ampliou o público consumidor e contribuiu para reduzir a vida útil de muitos equipamentos, estimulando um ciclo contínuo de consumo e substituição.
Mais do que uma transformação econômica, a integração proporcionada pela popularização da internet abriu caminho para novas formas de influência sobre o pensamento e o comportamento das pessoas.
Os agentes do poder conseguiram manter a população distraída com debates intermináveis a favor ou contra A ou B. Enquanto isso, crianças chegavam à adolescência com dificuldades para ler e interpretar textos, mesmo depois de terem passado cinco, seis ou mais anos em instituições de ensino.
Acreditávamos estar crescendo econômica e intelectualmente por meio de nossos brinquedos digitais, mas talvez não tenhamos percebido que nunca estivemos tão expostos a mecanismos eficientes de manipulação da atenção e da opinião.
Hoje, parece cada vez mais difícil escapar de determinados padrões. Ou aceitamos as imposições sociais e tecnológicas, ou permanecemos à margem, criticando os outros sem conseguir construir alternativas.
Concluindo: um convite à reflexão sobre o Brasil
Precisamos recuperar a simplicidade do pensamento e aprender a utilizar as ferramentas disponíveis apenas como ferramentas, colocando-as a serviço de nossos interesses e objetivos.
Você não precisa vestir uma camisa de partido ou carregar uma bandeira para ter o direito de criticar o governo, seja ele de qual partido for. Afinal, você paga constantemente, por meio dos impostos, para que o poder público ofereça serviços à população.
Cobrar resultados do governo não é apenas um direito: é um dever de todo cidadão que financia a estrutura do Estado.
Mesmo vivendo em um país onde tantos serviços deixam a desejar, onde a confiabilidade do sistema eleitoral é constantemente colocada em debate e onde o cidadão é tratado como principal responsável pelos rumos da política por meio do voto, precisamos ter paciência e aprender a nos desvencilhar das amarras desse jogo.
Não basta sair às ruas para protestar contra a corrupção se, na eleição seguinte, os mesmos políticos forem escolhidos para continuar ocupando os cargos e reproduzindo as práticas que tanto criticamos.
A política nunca recebeu tanta atenção da população e, ainda assim, parece conseguir manter as pessoas cada vez mais confusas e suscetíveis a discursos enganosos.
Regredimos intelectualmente à medida que conquistamos mais acesso à informação. Afastamo-nos uns dos outros justamente quando desenvolvemos ferramentas capazes de nos manter conectados o tempo todo.
Estamos cada vez mais agressivos, com discursos mais afiados nas redes sociais, enquanto continuam crescendo problemas relacionados à violência, à saúde pública, à educação e à corrupção.
Só deixarão de roubar quando não houver mais dinheiro — e talvez esse cenário não esteja tão distante quanto imaginamos.
Reflita sobre tudo isso. O maior prejudicado continua sendo o cidadão comum.
Como procurei demonstrar ao longo deste texto, a política pode ser compreendida como um teatro muito bem organizado, mas que está sempre sujeito a falhas, contradições e exposições de suas próprias mazelas.
Esse sistema só consegue manter seu poder enquanto contar com respaldo popular ou enquanto conseguir silenciar definitivamente as vozes que se opõem a ele.
Por isso, antes de defender um partido, um político ou uma ideologia, vale a pena fazer uma pergunta: estamos realmente pensando por conta própria ou apenas reproduzindo o discurso de alguém?
Talvez a recuperação da nossa dignidade comece justamente quando aprendermos a questionar, comparar, refletir e formar nossas próprias opiniões.

Comentários
Postar um comentário