Falta de valores
Pessoas sem valores definidos costumam levar suas vidas semelhantes às folhas soltas ao vento. Podem ter momentos de sorte e outros de azar como qualquer pessoa, mas não tem nenhum controle sobre seus destinos. A questão principal é se elas não possuem valores por negligência do meio (não receberam dos pais ou responsáveis) ou optaram por ignorar certos padrões para se “rebelarem” contra o status quo familiar. Em um segundo momento, já por não trazerem consigo uma base minimamente aceitável, elas acabam por atraírem para si o que as outras pessoas prezam. Isso pode gerar um conflito interno insuportável a longo prazo. Quando falamos de “valores familiares”, estamos nos referindo às características percebidas que passam de pai para filho culturalmente. Hoje, isso nada representa para os mais jovens, porque os valores deles são ditados pelos grupos a que pertencem e aquilo que assistem em seus smartphones.
Normalmente, por hábito ou vício de linguagem, nós cometemos o equívoco de perguntar qual é o valor de algo que gostaríamos de comprar (qual o valor deste item?) quando estamos negociando uma provável aquisição. Mas, na verdade, quando questionamos dessa forma tão costumeira, estamos inquirindo nosso interlocutor para saber o preço que foi estipulado daquilo que desejamos adquirir. O valor, em termos gerais, nem sempre está relacionado ao preço a ser pago em troca de algum item, mas à relevância intrínseca que ele possui dentro de um cenário mais amplo. Então, quando falamos de valores, estamos tratando de uma adjetivação mais profunda e importante que simplesmente equiparar dinheiro a um bem de consumo ou serviço.
Uma pessoa com valores bem definidos costuma ser vista pela sociedade como sendo mais séria, confiável e pode até assumir um status mais elevado que outras que não gozam de tal conceituação por não terem a oportunidade de os demonstrar ou por simplesmente não os possuírem. Assim, os valores nos termos propostos aqui seriam uma compilação de qualidades positivas de um indivíduo (virtudes). Porém, mesmo que de forma equivocada, o contexto majoritário ou definidor é que atribui valor social às características de um indivíduo. Assim como virtudes e defeitos, o olhar da sociedade tende a ser mais relevante que um simples preceito na hora de valorar pessoas.
Contudo, nem sempre a valoração se dá como característica de um indivíduo, pois sua utilidade em determinada situação pode aumentar seu valor mesmo que suas virtudes possam ser consideradas questionáveis. Por exemplo, um ladrão escondido em um beco aguardando uma vítima para um assalto em potencial, mas que acaba testemunhando acidentalmente um assassinato. Para a investigação daquele crime, seu depoimento é o elemento chave para a resolução do caso, ou seja, ele tem muito valor para quem está engajado em resolver a questão mais urgente mesmo ele sendo um criminoso. Entretanto, até em condições desfavoráveis, os valores de uma pessoa não sofrem nenhuma modificação. Um homem justo, honesto e leal não perde estes valores quando é acusado injustamente de um delito ou acaba prejudicado por alguma circunstância desfavorável. Ele pode sim ser condenado e suas virtudes não mais representarem nada positivo perante a sociedade. Como estamos falando de valores, seu caráter não mudará, pois eles representam a sua base de conduta. Neste caso, suas virtudes permanecem, mas a realidade em torno já não reserva lugar para elas e não as considera mais como tendo valor para o cenário em questão.
Agora caímos em uma armadilha perigosa, afinal, existem aqueles grupos de influência que relativizam tudo e questionam qualquer tipo de conceito que possa ser tido como pretensamente definitivo. Essa é uma tática imoral, mas muito eficiente em debates políticos e defesas de teorias sobre os mais variados temas. Há quem sempre opte por guardar certas desconfianças a respeito de alguém que já foi condenado injustamente, mas que caia sob o crivo de um “relativizador” ao atribuir ao “divino” a condenação dele (se Deus permitiu, alguma coisa errada ele fez). Existem também aqueles que prezam por características de valor questionável ou inexistente (ele é desonesto, mas é uma boa pessoa) em detrimento de quem valoriza a retidão de caráter (humm, muito certinho para o meu gosto!). Virtudes tendem a ofender quem não as possui.
Valores são os elementos basais que definem uma pessoa e a presença deles elimina uma característica negativa. Entre eles estão: a coragem em detrimento da covardia, a honestidade em relação à desonestidade, entre outros. A retidão de caráter não se dá pela perfeita conduta de uma pessoa, pois os seres humanos estão sujeitos a erros, mas sim pelos aspectos que o trazem de volta ao seu proceder natural através do arrependimento, da busca por aprimoramento e pelo pedido de desculpas honesto. As ações devem refletir seus valores e servem como testemunho de sua existência.
É possível aprender e desenvolver valores depois de adulto ou até mais velho?
Eis uma pergunta sensível, afinal, ao contrário do que se possa imaginar, valores como bondade, compaixão, empatia, honestidade, coragem etc. são aprendidos e trabalhados, não são dons naturais. É preciso aprender o valor de manter práticas e hábitos norteados pelas virtudes aceitas e reconhecidas através da passagem do tempo. Como um objeto que precisa de manutenção para continuar com o mesmo “valor” (preço) de mercado, não basta construir uma base sólida e depois parar de trabalhar. Os valores precisam ser revisitados, ampliados ou reduzidos de acordo com as necessidades e adaptados à realidade de momento para se manterem válidos e úteis.
De que adianta um homem de valor isolado dos demais?
O valor precisa ser comprovado publicamente para continuar sendo “cotado a bom preço”.

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