França, Mariana e Jardel

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Reflexões sobre o Brasil no fim de 2015

Hoje é o dia em que um grande amigo comemora seu nascimento. O nome desse meu amigo é Jardel, e eu o parabenizo. Mas não é desse Jardel que trata este texto.

Como estamos no final do ano e a maioria das pessoas se vê na obrigação de planejar alguma coisa para as festas, prefiro aproveitar o momento para refletir sobre o ano que está terminando.

Não preciso ir muito longe em minha retrospectiva para ilustrar o que tem sido 2015 até aqui. Milhares de pessoas morreram no trânsito; outras milhares foram vítimas da violência ou da negligência do Estado. O grupo terrorista da moda está tirando o sono dos principais líderes mundiais com suas investidas suicidas contra o Ocidente.

O governo federal reconhece a crise que muitos já esperavam depois de anos de denúncias de corrupção e desvios de recursos públicos. O valor do dólar está subindo, o desemprego também, assim como a inflação. Ou seja, nada de muito novo para o povo brasileiro.

Só sendo muito fanático para não perceber que boa parte do que vivemos nos últimos anos, na minha visão, não passou de uma grande distração enquanto se retirava do país aquilo que ainda podia oferecer alguma esperança.

Tirando as pessoas diretamente atingidas por toda essa enxurrada de violência e corrupção, todos os outros parecem preferir reclamar em silêncio, mergulhados em sua letargia.

Os atentados na França e a solidariedade nas redes sociais

Voltando no tempo uns vinte dias, tivemos os atentados na França, que deixaram mais de uma centena de mortos. Muitas pessoas colocaram a bandeira francesa em seus perfis nas redes sociais como forma de reconhecimento à dor dos franceses.

Na minha opinião, aquilo foi uma demonstração explícita de uma reação sem resultado: uma espécie de marketing feito com a dor alheia.

No que isso ajudou as famílias das vítimas?

A maioria simplesmente estava na frente do computador ou com o celular na mão e resolveu demonstrar sua solidariedade porque aquilo havia se tornado uma tendência nas redes sociais. Entretanto, em nenhum momento essas pessoas, em sua maioria jovens, demonstraram interesse em pesquisar para tentar entender o que realmente estava acontecendo na Europa. No máximo, ficaram com as explicações simplistas apresentadas pela mídia.

Um tanto sem graça, não?

Por que eu falo isso?

Porque muitas das pessoas que fizeram esse tipo de manifestação não demonstram a mesma reação diante das mortes que acontecem ao seu redor, em seu próprio país, que, somadas, chegam a números enormes todos os anos.

Explico.

Quantas pessoas morrem na fila de um hospital esperando atendimento? E em acidentes de trânsito? E em assaltos à mão armada?

É fácil demonstrar solidariedade por alguém que está longe e é desconhecido. Mas e o que acontece no seu bairro, na sua rua? Você faz alguma coisa para tentar mudar essa situação?

Possivelmente não.

Só reclama e xinga na internet.

O nosso governo, com seu descaso e sua corrupção, é muito mais letal do que o Estado Islâmico. E o mais triste é que somos nós que financiamos tudo isso.

Somos responsáveis, de alguma maneira, pela sociedade que construímos e pelas escolhas que fazemos. Mas, muitas vezes, só conseguimos sentir verdadeiramente a dimensão de uma tragédia quando ela acontece com um filho, amigo, parente ou conhecido.

Contudo, individualmente, nem sempre temos poder para fazer algo efetivo a respeito.

Ainda assim, mesmo que não tenhamos poder suficiente para mudar determinada situação, compactuar com ela ou tentar camuflar a realidade, na minha visão, é algo extremamente grave.

Mariana: quando a negligência também destrói

Outro fato que chamou a atenção do mundo foi o que aconteceu com a barragem em Mariana.

O desastre atingiu um rio importantíssimo para a região, destruiu comunidades e soterrou áreas inteiras sob a lama.

Não sou ambientalista e não pertenço a nenhum grupo ativista. Muito menos sou parente de alguém que dependia do Rio Doce para tirar seu sustento. Também não tive minha casa soterrada pela lama.

Mas o fato fala por si só.

Não basta matarmos uns aos outros motivados por racismo, religião, negligência, violência armada ou imprudência no trânsito. Estamos também destruindo o mundo em que vivemos.

Atentamos contra o ar, contra os animais e contra a água, elementos fundamentais para nossa existência. E não estou falando aqui especificamente de “aquecimento global”.

Agora é fácil para um oportunista falar em multas, inventar novas leis e fazer marketing com bravatas ideológicas.

Porém, como falei no início do texto, isso não é nenhuma novidade, infelizmente.

Mário Jardel: do ídolo do futebol à política

E agora vou falar de algo mais recente e que aconteceu bem mais perto de mim do que a maioria das situações mencionadas acima.

Falo do ex-jogador Jardel.

Não do meu amigo que está de aniversário hoje, mas de Mário Jardel.

Esse indivíduo foi mais um nordestino de família humilde que tentou alcançar o sucesso no centro do país — e conseguiu.

Por força do destino, ou do acaso, veio parar no Grêmio em meados da década de 1990. Aqui ele fez sucesso e foi alvo de uma campanha na qual torcedores gremistas contribuíram financeiramente para que ele permanecesse mais algum tempo no clube do coração, presenteando a torcida com mais títulos. Era a campanha “Fica, Jardel”.

O centroavante ainda teve mais dois ou três anos de sucesso na Europa depois de ser vendido pelo clube gaúcho, até que sua carreira começou a degringolar de vez.

Atolado em dívidas e diante de notícias e acusações relacionadas ao uso de drogas, recebeu ajuda de amigos influentes no Rio Grande do Sul.

O fato é que ele voltou ao estado e candidatou-se a deputado. Como era querido e admirado por muita gente que havia torcido por ele durante sua carreira como jogador, conseguiu se eleger.

Menos de um ano depois de sua posse, o então deputado Mário Jardel passou a ser alvo de denúncias e investigações envolvendo supostas práticas de corrupção e extorsão de assessores.

Mais um político envolvido em acusações de corrupção entre tantos outros.

Só que este não foi pego com mais de oitenta anos de idade e cinquenta anos de roubalheira.

Independentemente do que levou o deputado a ser descoberto tão cedo, na minha visão, todo o prestígio construído durante sua carreira esportiva foi parar na lama. E quem votou nele provavelmente deve estar muito envergonhado.

Os outros detalhes já eram de conhecimento público naquele momento, e não estou aqui para falar deles.

Quando um político vai para a cadeia

Pode ser um alento saber que a Polícia Federal está agindo.

Antes tarde do que nunca.

E, naquela época, havia também a expectativa de que investigações importantes pudessem ser interrompidas ou prejudicadas por ações políticas.

Entretanto, não dá para segurar um leve sorriso amarelo, de canto de boca, quando um corrupto vai para a cadeia.

Mesmo sabendo que não é como se um ladrão de galinha estivesse indo para a prisão, ver um político arrogante algemado e entrando em uma viatura não deixa de representar uma espécie de vitória para quem optou por levar uma vida honesta, mesmo que pequena e aparentemente irrelevante em termos gerais.

Temos violência, morte e destruição à nossa volta. E quem nós escolhemos para nos representar e resolver esses problemas, além de muitas vezes não fazer aquilo que esperamos, ainda pode ser acusado de nos roubar descaradamente.

Sabe quanto ganhava por mês, naquela época, o deputado Mário Jardel?

R$ 25.000,00 somente de salário, além de diárias e outros benefícios.

Mesmo assim, segundo as acusações que vieram a público naquele período, havia envolvimento em práticas ilícitas.

Com certeza, na minha visão, um político deveria ter plena consciência da responsabilidade que acompanha o cargo que ocupa. Trata-se de uma função pública remunerada com dinheiro da sociedade, e justamente por isso deveria estar associada a uma enorme responsabilidade.

E se fosse você?

Para encerrar, deixo uma pergunta no ar.

Se você tivesse a oportunidade de ganhar muito dinheiro e, para isso, precisasse aceitar que crianças doentes morressem, por exemplo, o que você faria?

Possivelmente desviaria o olhar desse problema e manteria seu foco em proporcionar uma vida confortável para sua família — ou simplesmente para si mesmo.

Não posso criticá-lo por pensar dessa maneira, mesmo que eu não concorde.

Porém, é justamente esse tipo de justificativa que, na minha opinião, está destruindo a todos nós.

Reflita sobre isso.

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