Guerra
Guerra
“Guerra” foi gravada no final de 2017 e trata-se de uma versão da composição inicialmente chamada “Children of the New World”, uma música muito semelhante instrumentalmente, porém com uma letra mais caótica e em inglês. Versões parciais poderão ser verificadas no meu canal do YouTube ao longo deste ano de 2020, enquanto a versão definitiva, anterior a “Guerra”, encontra-se na coletânea que publiquei no SoundCloud.
O instrumental foi composto com a banda entre 2008 e 2009 e sofreu alterações ao longo dos anos seguintes, até chegar à versão definitiva, que pode ser encontrada no YouTube, em formato de music lyrics, e na já citada coletânea disponível no SoundCloud.
As influências musicais remetem a bandas como Metallica, Megadeth e Anthrax. Dessa forma, a música se enquadra em uma sonoridade próxima ao thrash metal da década de 1990, mas sem a velocidade característica do estilo. Os riffs de guitarra são mais coesos, enquanto algumas passagens e solos tendem ao heavy metal tradicional.
A letra da música fala sobre um impulso íntimo de um indivíduo que o instiga a provocar uma guerra por motivos egoístas e completamente artificiais. Trata-se de uma representação genérica da mentalidade que pode estar por trás de determinadas ações de revolta.
Letra: Kako Ramos
Verso 1Olhe nos meus olhosE encare o seu reflexoLevante em meio aos fracosE forme o seu exércitoNão há fuga do destinoVocê jamais será o mesmoVai deixar de ser cretinoE lutará pra ter respeitoVerso 2Sem lugar para a inocênciaFracos não serão aceitosÉ a lei da violênciaQue impõe estes conceitosEsqueça todas as suas lembrançasAssuma o seu renascimentoE tome posse de sua herançaSem temer um julgamentoRefrãoBerre ao mundo: “Estou vivo!”Declare o início da guerraMostre àquele que quer oprimi-loQue agora é o “Senhor da Guerra”Verso 3Os fracos já morreramAgora só alimentam cãesE os poucos que nasceramEstão vendendo as próprias mãesSó há dor e desesperoO inferno estourou na TerraVocê é o grande herdeiroPara ser o “Deus da Guerra”
Como pode ser percebido acima, existe uma sequência iniciada com o estímulo para que o indivíduo se olhe no espelho e reconheça em si mesmo o impulso belicoso. Logo, ele é levado a acreditar que está em uma condição de fragilidade e injustiça.
Na sequência, essa voz interna, que busca exercer controle sobre ele, sugere que haja uma reação e a tentativa de formar um exército. Não demora muito para que a ideia de destino seja inculcada. Essa inevitabilidade também passa a justificar a frieza exposta nos métodos propostos e uma determinada busca por dignidade nos versos seguintes.
O refrão da música apresenta um grito que exalta o fato de estar vivo como princípio para uma declaração de guerra. Automaticamente, o indivíduo reivindica para si a posse da situação, como se rebelar-se já fosse, por si só, uma ação libertadora diante de determinada opressão.
Nos últimos versos, a ideia de que os fracos morreram e os que sobreviveram não possuem dignidade apresenta uma terceira autojustificação para criar divisão e atribuir pechas arbitrariamente. O desfecho, ao alegar que existe dor e desespero e que o inferno estourou na Terra, representa a terceirização da culpa pelo caos, que, nesse momento, se torna justificativa para a tomada de poder e para ações ainda mais duras.
Guerra, poder e O Príncipe, de Maquiavel
Na letra desta música, fiz uma referência a O Príncipe, de Maquiavel, obra na qual são apresentados conselhos ao futuro soberano sobre como proceder para alcançar o trono e mantê-lo.
O desfecho caótico apresentado nos últimos versos deixa clara a ideia de que a busca pelo poder se inicia por uma revolta contra uma condição de opressão e injustiça. Essa condição é apresentada de maneira a atribuir ao revoltado uma situação de sofrimento.
Quando ele coloca em prática determinadas ações que questionam sua própria moralidade, passa a se considerar isento de responsabilidade em razão das injustiças impostas por terceiros, que teriam sido responsáveis pelo seu sofrimento.
Como de costume, a pessoa insurgente chama para si a condição de representante de uma coletividade, apelando ao respaldo de terceiros para seus futuros atos. Logo, o apelo místico, atribuindo ao destino e à inevitabilidade dos fatos uma força externa e superior, também é inserido como elemento justificante.
Essa força, além do coletivo que o indivíduo afirma representar, passa a ser apresentada como agente das ações que supostamente mudarão o mundo.
Então, a guerra, que mata e oprime, agora justificada pelos elementos mencionados anteriormente, torna-se o verdadeiro ato revolucionário. O poder, esvaziado da moral, passa a ser a única justificativa que leva o indivíduo a rebelar-se e buscar a transcendência de sua condição.
Para obtê-lo, não pode haver escrúpulos, mas apenas ações pragmáticas cujos fins justificam os meios. Entretanto, os fins são apenas hipotéticos, utópicos; os meios e as consequências acabam se tornando o verdadeiro ponto de chegada.
Como houve um esvaziamento prévio da moral e de outras virtudes humanas que poderiam frear suas ações, a pessoa que escolhe trilhar esse caminho acaba vendo refletido exteriormente tudo aquilo que foi preenchendo seu interior e que a levou a se rebelar.
“Guerra” como parte de um trabalho conceitual
Por fim, “Guerra” faz parte de um trabalho conceitual que acabou não se concretizando até o momento por diversos motivos. Minha intenção era representar artisticamente diferentes características do ser humano. O ímpeto belicoso é apenas uma delas.
As análises mais técnicas, tanto de composição quanto de produção de áudio, serão explicadas em postagens posteriores.

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