As mentiras sobre as IAs
As mentiras sobre as IAs
Entre o hype, a dependência e a realidade
Você reconhece estas frases?
“As pessoas perderão — e já estão perdendo — seus empregos para as Inteligências Artificiais.”
“Precisamos criar uma renda para as pessoas que perderem seus empregos para as Inteligências Artificiais.”
“Estamos investindo em tecnologias avançadas para diferenciar trabalhos feitos por humanos daqueles produzidos por Inteligências Artificiais.”
“Você não perderá seu emprego para uma Inteligência Artificial, mas para alguém que sabe usá-la.”
Essas frases são utilizadas o tempo todo na internet para convencer o público de que as Inteligências Artificiais (IAs) representam uma revolução irreversível e que precisamos simplesmente aceitar as transformações provocadas por elas.
Porém, algumas vozes têm se levantado contra essa suposta “realidade imutável”. É o caso de nomes como Ed Zitron, Gary Marcus, Yann LeCun e François Chollet, entre outros, que criticam aspectos importantes da atual corrida pela inteligência artificial, incluindo os enormes investimentos na construção de data centers, o consumo de recursos, a segurança dos dados dos usuários e, principalmente, a quantidade de informações equivocadas que essas ferramentas podem produzir.
Minha experiência com as IAs também merece ser considerada.
Minha experiência com Inteligência Artificial
Sou usuário de Inteligência Artificial desde 2024, quando comecei a utilizar a versão gratuita do ChatGPT, como a maioria das pessoas fazia naquela época. Inicialmente, utilizava a ferramenta praticamente como utilizaria o Google: para fazer pesquisas, reunir informações e obter dados sobre diferentes assuntos.
Como sou cético, comecei justamente por temas que conhecia muito bem. A ideia era simples: testar a ferramenta em assuntos nos quais eu conseguiria identificar rapidamente eventuais erros.
Embora a velocidade das respostas e a diversidade de abordagens fossem impressionantes, percebi que uma parcela considerável do conteúdo apresentado precisava ser questionada, verificada ou simplesmente descartada. Em muitos casos, informações falsas, imprecisas ou controversas apareciam misturadas a dados corretos.
A verdadeira utilidade das IAs, para mim, começou a aparecer na revisão e correção de textos. Ainda assim, ferramentas da Microsoft e do Google já ofereciam recursos semelhantes havia bastante tempo. O mesmo vale para traduções, que também não representaram uma revolução tão grande na minha rotina.
Em 2025, por assinar o pacote Microsoft Office, passei a ter acesso ao Copilot. Para algumas funções nas quais eu já utilizava o ChatGPT, ele se mostrou um pouco abaixo das minhas expectativas. Por outro lado, a geração de imagens a partir do DALL-E revelou-se bastante útil, mesmo apresentando algumas distorções bizarras.
Recursos como projetos e integrações, que deveriam representar grandes diferenciais, muitas vezes não acrescentaram tanta utilidade prática ao meu fluxo de trabalho. Assim, o ChatGPT continuou sendo minha ferramenta preferida.
A terceira Inteligência Artificial que utilizei foi o Claude. A promessa era permitir trabalhar com volumes maiores de dados, organizar livros ilustrados e realizar pesquisas mais profundas.
Na prática, a versão gratuita mostrou-se bastante limitada para algumas dessas tarefas. Em determinados trabalhos, foi necessário reiniciar o processo várias vezes até conseguir chegar a um resultado satisfatório — e, ainda assim, o resultado frequentemente ficava aquém do esperado.
Posteriormente, utilizei Grok e Perplexity. Ambos apresentam características interessantes, mas, na minha experiência, não se diferenciam radicalmente do ChatGPT em muitos usos cotidianos. Também encontrei limitações de utilização e erros que exigem revisão.
Isso fica particularmente evidente quando peço algo aparentemente simples, como corrigir a gramática, melhorar a fluidez e otimizar um texto para SEO. Muitas vezes, a ferramenta altera o contexto, acrescenta exemplos que não têm relação com o assunto original ou modifica ideias que deveriam simplesmente ter sido preservadas.
Inteligência Artificial para imagens e vídeos
Para produção de vídeos, utilizo Dreamina, Opus Clip e recursos adicionais do CapCut e do Clipchamp. As opções gratuitas, entretanto, não permitem grandes criações.
Também já experimentei ferramentas como Kling AI e HeyGen, mas, na minha experiência, os resultados foram mais interessantes como demonstrações tecnológicas do que como soluções realmente úteis para o meu trabalho cotidiano.
Em resumo, utilizo as ferramentas de Inteligência Artificial principalmente para gerar ou modificar imagens de acordo com necessidades específicas. Para vídeos, raramente utilizo uma ferramenta nativa de IA como elemento central da produção.
Meu uso mais frequente está relacionado a pesquisa, verificação de informações, aprofundamento de temas, revisão gramatical, melhoria da fluidez de textos e organização de ideias.
Também considero bastante útil utilizar uma IA para desenvolver uma linha de pensamento sobre determinado assunto e poder retomá-la posteriormente. Nesse sentido, a ferramenta funciona mais como uma espécie de assistente intelectual do que como substituta do meu próprio trabalho.
As integrações de IA são realmente úteis?
Quando o assunto são integrações, minha impressão é que elas parecem muito mais um fetiche tecnológico do que uma solução realmente eficiente.
Cada vez que tento utilizar uma ferramenta integrada a outro serviço, existe a possibilidade de o processo ser interrompido por falta de autorização, incompatibilidade, excesso de utilização, limitações técnicas, problemas de acesso ou outras barreiras.
Além disso, especialistas vêm alertando para questões relacionadas à privacidade e à segurança dos dados. Existe uma preocupação legítima de que a expansão das IAs seja acompanhada por uma coleta cada vez maior de informações sobre os usuários, seus hábitos, preferências e comportamentos.
Isso cria uma pergunta que deveria ser feita com muito mais frequência:
o que estamos entregando em troca da comodidade oferecida por essas ferramentas?
O problema dos “hubs” de Inteligência Artificial
Outro fenômeno que me causa desconfiança são os chamados hubs de Inteligência Artificial, que prometem oferecer dezenas de versões pagas de diferentes ferramentas por uma única assinatura supostamente muito mais barata.
A conta parece simples demais para ser verdadeira.
É difícil acreditar que seja possível oferecer, de forma legítima e sustentável, diversas versões completas e pagas de ferramentas de IA por um preço inferior ao de uma única assinatura oficial.
Na minha percepção, muitos desses pacotes acabam servindo para vender cursos, agentes, ferramentas agregadoras, sistemas de coleta de dados, versões desatualizadas ou uma série de outros recursos apresentados em páginas confusas e, muitas vezes, repletas de problemas.
Há também diversos relatos de usuários insatisfeitos com serviços desse tipo. MyHub, Adapta e outros fornecedores de pacotes de Inteligência Artificial aparecem frequentemente em discussões sobre esse mercado.
Isso não significa que todo serviço agregador seja necessariamente uma fraude. Significa apenas que é preciso ter muito cuidado com promessas exageradas, principalmente quando o preço parece bom demais para ser verdade.
Quem paga a conta das IAs gratuitas?
Talvez a questão mais interessante esteja justamente aqui.
Empresas como OpenAI e Anthropic, responsáveis respectivamente pelo ChatGPT e pelo Claude, operam em um mercado que exige investimentos gigantescos em infraestrutura, processamento e desenvolvimento de modelos.
Ao mesmo tempo, versões gratuitas são disponibilizadas para milhões de pessoas enquanto grandes empresas de tecnologia investem bilhões nesse ecossistema.
Entre os grandes nomes envolvidos estão Amazon, NVIDIA, Microsoft, Meta e outras gigantes do setor.
De maneira simplificada, podemos imaginar um ciclo no qual o usuário utiliza uma versão gratuita ou barata de uma Inteligência Artificial, enquanto o ecossistema tecnológico obtém benefícios indiretos por meio de infraestrutura, serviços, hardware, publicidade, dados e assinaturas premium.
Assim, empresas podem direcionar melhor seus produtos e serviços aos consumidores, otimizar campanhas publicitárias, vender infraestrutura computacional ou estimular a utilização de seus próprios ecossistemas digitais.
E o ciclo se retroalimenta.
O risco de ficarmos dependentes das Inteligências Artificiais
O problema, portanto, não está necessariamente na existência das IAs.
O problema está na dependência.
O pacote simplificado poderia ser resumido assim:
você entrega cada vez mais tarefas para uma Inteligência Artificial, recebe resultados medianos em troca de dados e conveniência, torna-se dependente das ferramentas e passa a acreditar que precisa acompanhar todos os novos lançamentos para não ficar para trás.
É aí que entram os hypes, as modas e as ofertas aparentemente imperdíveis.
A cada semana surge uma nova Inteligência Artificial “revolucionária”. Uma ferramenta promete escrever melhor. Outra promete criar vídeos. Outra promete substituir designers. Outra promete programar. Outra promete pesquisar. Outra promete administrar sua empresa.
E, antes que você tenha tempo de aprender a utilizar uma delas adequadamente, surge outra supostamente muito melhor.
Cria-se uma corrida permanente pelo próximo recurso.
Inteligência Artificial: revolução ou exagero?
Não tenho dúvidas de que as Inteligências Artificiais são ferramentas importantes e que continuarão influenciando nossa sociedade.
Também não acho sensato simplesmente ignorá-las.
O que considero perigoso é transformar uma tecnologia em uma espécie de entidade inevitável, diante da qual precisamos abandonar qualquer senso crítico.
Uma ferramenta que corrige um texto não é necessariamente uma ameaça ao escritor.
Uma ferramenta que gera uma imagem não necessariamente substitui um artista.
Uma ferramenta que pesquisa informações não necessariamente substitui um pesquisador.
E uma ferramenta que produz uma resposta rapidamente não significa que essa resposta esteja correta.
O verdadeiro diferencial continua sendo a capacidade humana de questionar, interpretar, verificar, comparar, criar e tomar decisões.
Por isso, quanto mais utilizo Inteligência Artificial, mais percebo que ela exige justamente aquilo que muitos usuários estão deixando de exercitar: pensamento crítico.
Talvez a maior mentira sobre as IAs não seja dizer que elas vão acabar com todos os empregos.
Talvez seja convencer as pessoas de que elas não precisam mais pensar por conta própria.
E, paralelamente, corremos o risco de materializar algumas das distopias apresentadas em obras de ficção como Jogador Nº 1, Matrix, Wall-E, Eu, Robô e O Homem Bicentenário.
A tecnologia pode facilitar nossas vidas.
Mas, se deixarmos que ela pense, escolha, crie e decida tudo por nós, talvez o problema não seja aquilo que as máquinas se tornarão.
Talvez o problema seja aquilo que nós deixaremos de ser.
Assista todos os episódios de KRPCast clicando aqui;
Conheça o ecossistema KRP clicando aqui;
Ouça o trabalho de Kako Ramos no Spotify clicando aqui;
Para mais informações entre em contato clicando aqui;

Comentários
Postar um comentário