O amor vence o tempo
O amor vence o tempo
É possível viver algo no presente que era proibido no passado?
O contexto da época
Quem prestar atenção na minha história pode notar algo sutil, mas tão poderoso que acaba definindo quem eu realmente sou e me diferenciando de outras pessoas. Deixo claro que essa diferenciação não significa ser melhor ou pior do que ninguém, apenas diferente.
Quem leu meu texto anterior sobre o arquétipo da “parte deslocada” notará que falo de mim mesmo. Eu sou a parte deslocada e colhi frutos excelentes, e outros nem tanto, ao longo da minha jornada.
Mas alegar, no título, que “o amor vence o tempo” é ousado, pois, para mim, essa entidade chamada tempo é meu eterno “arqui-inimigo”. Luto contra ele desde os primórdios, e o safado vive me pregando peças.
Diferentemente de muitos adolescentes da minha época, eu não tive uma namoradinha na escola e fui ter contato físico com o sexo feminino propriamente dito já no final dessa fase “dourada”, quando comecei a tocar com bandas obscuras e me relacionar com as meninas que iam aos eventos que abrigavam esse tipo de atração.
Não eram as meninas comportadinhas da escola que eu encontrava à noite, mas sim as namoradas de outros músicos e algumas raras aventureiras que se expunham àquele tipo de situação.
Sem fazer juízo de valor, as groupies do underground dos anos 1990 não eram exatamente as mulheres com as quais eu gostaria de casar e constituir família. Aliás, eu não via essa ideia com bons olhos devido a alguns traumas que carregava e que foram se arraigando à minha personalidade.
Os traumas como armas do tempo contra mim
O casamento dos meus pais foi um fracasso desde o início e mal se consumou de fato por muito tempo. Mas eu sou oriundo dele.
Meu pai, um jovem aventureiro metido a malandro, caracterizou-se por passar a juventude se envolvendo com mulheres, fazendo filhos e abandonando-os pelas estradas que sempre considerou seu verdadeiro lar, caminhoneiro como era.
Já minha mãe sempre teve uma personalidade difícil. Masculinizada e rebelde, também não teve muito êxito em suas relações ao longo da vida. Poderia citar muitos exemplos de insucessos matrimoniais, mas o texto ficaria longo demais.
O importante aqui é justificar o porquê de eu perder totalmente o interesse por casar, ter filhos e seguir os passos dos meus avós.
Ainda mais porque, na adolescência, enquanto eu saía da escola com os demais alunos, alguns rapazes mais velhos estacionavam seus carros em frente ao portão e ficavam tentando chamar a atenção das menininhas ingênuas, que adoravam cair na lábia deles para não irem para casa a pé, pois achavam que esse tipo de coisa elevava seu status.
Era óbvio que muitas delas realmente se apaixonavam por aquele tipo patético de homem e acabavam se tornando objeto sexual e troféu nas rodas de conversa masculina, onde os “garanhões” contavam vantagens e expunham a intimidade das infelizes para que os outros comentassem.
Para mim, que era tímido nas relações interpessoais, principalmente com as garotas, era uma batalha inglória sair da educação física todo suado ou passar o intervalo jogando bola, vestir basicamente as roupas que não serviam mais nos meus primos e me preocupar mais em tocar violão do que em aprender português, matemática, história e ciências.
Como expliquei no texto supracitado, eu também não me encaixava nisso.
A paixão passageira, mas marcante
Quando cheguei à sexta série, no primeiro dia já reparei em uma futura coleguinha que aguardava o momento de entrar na sala de aula para mais um ano letivo.
Usando óculos que cobriam belos olhos esverdeados e brilhantes, exibindo lindas covinhas nas bochechas quando sorria, magrinha e vestindo roupas que pouco valorizavam sua beleza, lá estava aquela que, por anos, seria minha paixão adolescente.
Seu nome era Michele.
Não sei se ficamos amigos de imediato, pois ela sentava bem à frente na sala e eu pertencia à “galera do fundão”. Minha memória me trai bastante nesse sentido. Porém, não raro, eu pedia para que ela colocasse meu nome em trabalhos que eu esquecia de fazer.
Algumas pessoas, ao longo do tempo, comentavam sobre nossas covinhas quando sorríamos, e eu me recordo de me incomodar quando alguém fazia algum comentário infeliz sobre ela.
Creio que estudamos uns três anos letivos juntos. Eu fui à casa dela algumas vezes, e ela chegou a ir à minha.
Sempre simpática e atenciosa, ela demonstrava acreditar em um potencial que eu não mostrava e que quase ninguém via, nem mesmo eu.
Passei muitas tardes pensando nela enquanto feria o violão da minha tia, tentando aprender músicas das bandas de que eu gostava ou o repertório que precisava apresentar em algum evento.
Michele nunca me viu tocar, nunca me viu performar nos esportes, nunca saiu comigo à noite. Apenas estudávamos juntos, e eu nutria um amor secreto e quase platônico por ela.
De tantas meninas bonitas que pululavam naquele ambiente, ela era a que mais chamava minha atenção e a única que realmente me atraía.
Um dia, tomei coragem e encenei um comercial do chocolate Laka, que era popular na época, como cantada. Ela me ignorou totalmente e demonstrou certo constrangimento.
Depois daquilo, ela foi uma das tantas que preferiram a companhia dos rapazes mais velhos e “motorizados”, o que partiu meu coração e me obrigou a desviar a atenção para outras coisas.
A música do comercial do Laka, Crying in the Rain, dos noruegueses do A-ha, sempre me fazia lembrar de Michele quando eu a ouvia. Assista ao comercial citado clicando aqui.
Graças a Deus, ela caiu no esquecimento do público em geral, assim como meus sentimentos por Michele.
Cheguei a encontrá-la depois dos tempos de escola. Ela estava linda, mas nem conversamos.
Preciso derrotar o tempo de vez em quando para me sentir vivo
Assim como aconteceu com os programas de troca de arquivos, a internet e a digitalização da música — que fizeram com que eu obtivesse os álbuns que desejava ouvir e os filmes que gostaria de ver, comprasse brinquedos que não ganhei na infância e possibilitaram que eu produzisse minha música totalmente sozinho em um notebook —, pude vencer o tempo mais uma vez.
No momento em que o mundo se rendia a uma pandemia, a perda de pessoas próximas permitiu que eu e Michele voltássemos a nos encontrar.
Ela, ainda linda, saindo de um relacionamento de duas décadas que lhe deu duas filhas.
Eu, mais maduro, seguro, realizado em minhas ambições particulares, mas ainda comprometido.
Encontrá-la, ouvir sua voz, ver seu rostinho lindo e recordar nossas lembranças em comum foi como colocar em perspectiva algo que estava esquecido, adormecido e injustamente não vivido.
Desde então, jamais perdemos o contato, enquanto enfrentávamos nossas mazelas particulares separadamente.
Até que um dia meu mundo caiu.
As calúnias, as mentiras, as traições e as injustiças que costumam atacar aqueles que não se encaixam caíram sobre mim e destruíram tudo aquilo que eu havia levado décadas para construir a duras penas.
Em meio ao caos, quem estava lá para me apoiar e acreditar na minha honestidade quando o mundo inteiro parecia afirmar o contrário?
Michele.
Lutar contra o tempo é uma tarefa inglória
Quando eu tinha perdido tudo — família, emprego, credibilidade, reputação ilibada e esperança —, ganhei uma única coisa que pode compensar todo o resto.
Como se meu espírito fosse lançado em uma viagem no tempo enquanto o corpo permanecesse preso ao presente, foi nos braços de Michele que encontrei amor, carinho, apoio e a compreensão que jamais tive com ninguém.
Por mais que as tramas dos canalhas possam representar um tipo doente de vitória, a ingratidão, o menosprezo e a “vitória” deles foram exatamente as coisas que me possibilitaram viver algo que não vivenciei no passado.
Nos momentos em que possivelmente se regozijavam por me afastar de minha filha, me isolar do mundo e destruir meus planos de me graduar como designer musical para trabalhar com trilhas sonoras de filmes, seriados e games, foi quando recebi, de forma abundante, o amor de quem realmente vale a pena.
O tempo é um adversário implacável, mas, vez ou outra, possibilita reviravoltas inimagináveis.
Mesmo que eu tenha vivido os últimos meses convivendo com momentos de profunda depressão, pesadelos e síndrome do pânico ao sair às ruas na expectativa de cair em alguma emboscada, ainda estou vivo, escrevendo, produzindo, estudando e amando muito.
Se ser traído, descartado e humilhado por um tipo de gente escrota, que nada produz, apenas se alimenta da boa vontade alheia, constrói a própria biografia com mentiras e acaba colecionando tragédias em vez de paz e prosperidade, é o preço a pagar para me libertar definitivamente e viver algo verdadeiro e valioso, eu fico feliz em pagar cada moeda.
Eu não preciso cortar minha carne para sentir algo verdadeiro e deixar marcas horríveis no corpo para me lembrar de que estou vivo.
Enquanto estavam gozando dos frutos do meu trabalho e desperdiçando tudo o que adquiri, eu estava lendo, estudando, produzindo, planejando e vivendo uma nova vida.
Eu não preciso imitar ninguém para parecer inteligente, nem necessito que alguém pague pelos meus treinamentos, bens e status para que eu produza e viva aquilo que ambiciono.
Independentemente dos desfechos judiciais, financeiros e emocionais, meu verdadeiro patrimônio eu carrego comigo.
O tempo é um adversário justo
Mesmo sendo o oponente mais ferrenho do tempo, tenho que admitir que ele sempre se mostrou um adversário digno e honesto.
Ele colocou desafios realmente difíceis em minha jornada, mas sempre forneceu meios para que a batalha fosse justa.
Quando nasci filho de pais despreparados, ele me deu a opção de ser acolhido pelos meus avós e viver a melhor infância possível.
Quando me senti deslocado na escola e nos esportes, ele me deu a música como companheira.
Quando me vi aquém das oportunidades de trabalho da época, ele abriu uma porta para que eu voltasse a estudar e arrumasse um emprego digno.
Quando passei anos sem poder adquirir brinquedos, revistas e instrumentos, ele providenciou a internet para que eu resgatasse tudo isso.
Além disso, quando precisei enfrentar horas de viagem para me deslocar diariamente para o trabalho, ele despertou em mim o amor pela leitura.
Quando perdi meu avô, ele me fez escrever para a internet.
Quando não consegui mais reunir músicos para tocar comigo, ele criou ferramentas que possibilitaram que eu produzisse tudo sozinho.
Quando saí totalmente destruído de um relacionamento tóxico com uma narcisista e seus rebentos ingratos, ele permitiu que eu vivesse meu amor de adolescência.
Deve ser bem legal ter uma vida padrão, com pais amorosos e presentes, escolher uma carreira com bom retorno financeiro, casar e formar uma família com uma pessoa de caráter, passar anos construindo uma história que permita envelhecer sem muitos percalços ao longo da jornada e deixar um legado familiar enxuto.
Mas, se eu parar para analisar tudo com a devida atenção, por mais que haja dor e sofrimento, não sei se prefiro uma vida ordinária a esta que estou vivendo há quase 50 anos.
Porque, no fim das contas, talvez o tempo nunca tenha sido realmente meu inimigo.
Talvez ele apenas estivesse preparando o momento em que eu finalmente descobriria que, às vezes, o amor vence o tempo.
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