Prenúncio

Acordei depois de um sonho que me deixou triste. Nele, eu já estava velho, e tudo que podia fazer por mim já havia sido feito. Cansado e doente, sentei-me em uma velha poltrona. Examinava algumas fotos do passado, tentando preencher a mente com boas lembranças.

Entre elas, encontrei uma em que estávamos juntos. Nesse instante, todos os nossos momentos passaram diante dos meus olhos com cores vivas — como um belo filme montado em ordem cronológica. Lá estavam o dia em que nos conhecemos, as conversas que tivemos, nossas brigas, tudo que compôs nossa história. Sorri com as bobagens que dissemos, com nossa juventude e com a esperança de que aquilo duraria por muito tempo.

Lembrei-me dos momentos difíceis que enfrentei e nos quais você me deu apoio. Prometemos estar sempre ali um para o outro. Quando você sofreu, eu sofri com você. Enxuguei suas lágrimas e fiz o que pude para transformá-las em sorrisos. Houve dias em que a simples lembrança do seu rosto me deu forças para acreditar que tudo ia passar. Cada vez que nos abraçávamos, eu sentia que não estava sozinho. Você me fez acreditar que havia algo muito bom nos esperando em algum lugar — algo que seria nosso, inevitavelmente.

Entretanto, os dias que se seguiram foram cruéis. Vi nossos laços se afrouxarem, sem saber o que fazer para impedir que se rompessem de vez. Tentei de todas as formas trazer você de volta ao lugar que ocupava, mas já não havia mais espaço para mim em sua vida. Achei que, se desse tempo, tudo se resolveria. Mas esse tempo foi justamente o que faltou para que você me esquecesse por completo.

Em seu lugar, ficou um vazio — um refúgio onde me escondo quando estou triste, talvez com a vã esperança de um dia encontrá-la de braços abertos, pronta para me consolar. Mas só encontrei o frio que aquele lugar passou a ter depois que você se foi.

Se um dia eu significava tanto para você, por que me deixou aqui para envelhecer e morrer sozinho? Será que a expressão “para sempre” tem significados tão distintos para nós? Foi nesse momento que o sorriso de poucos instantes atrás se transformou em uma solitária lágrima de tristeza. Ela escorreu pela minha face amarelada pelo tempo e caiu no chão empoeirado. Uma única lágrima, que em breve secaria, foi tudo o que restou da nossa história.

Despertei desse sonho com a consciência de que não posso decidir pelos outros, de que dependo deles para viver momentos felizes, de que minha vontade, às vezes, nada significa. Agora, faço minha parte da melhor maneira possível — para que esse sonho não se torne um prenúncio de um futuro de solidão.

 

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