O início de uma paixão

Em um post anterior falei sobre como as coisas tendem a se degenerar com o passar do tempo e, por isso, só nos resta aproveitar cada momento. Entretanto, algumas dessas coisas parecem eternas e nos acompanham ao longo da vida. Um grande exemplo é a importância de nossas paixões — aquilo que nos diferencia como seres humanos e, muitas vezes, também nos aproxima.

Recentemente, alguém me perguntou por que gosto tanto de música. Não sei se essa relação acontece da mesma forma para todos. Estou quase certo de que não. Eu gosto de música como muitas outras pessoas também gostam, mas costumo olhar com desconfiança quem afirma não gostar de música. Isso me parece quase incompreensível.

Minha relação com a música começou cedo. Como em muitas famílias pobres e numerosas, havia sempre alguém com um violão em casa. Uma tia minha chegou a ganhar um, mas nunca se dedicou a aprender. E, sejamos sinceros, ninguém naquela família sabia tocar de verdade.

Já em idade escolar, aprender violão era uma das atividades que meus avós haviam recomendado. Como grande parte dos meninos da minha rua, eu também adorava jogar futebol, desenhar, assistir Chaves e Bozo, além de colecionar bonecos de super-heróis. Nos finais de semana, era rotina dormir na casa da minha mãe. Foi numa dessas noites que tive meu verdadeiro despertar.

Em 1989, assistindo ao Grammy pela televisão, minha vida mudou ao ver a apresentação do Metallica. Foi simplesmente a coisa mais maravilhosa que já havia visto e ouvido. One, do Metallica, tornou-se a descoberta mais importante para mim até aquele momento. Aquele vídeo me fez gostar de heavy metal. É difícil descrever a sensação: imagine um menino de 10 ou 11 anos, hipnotizado diante de uma TV de 14 polegadas, em preto e branco, com som mono, assistindo a uma premiação em que a banda sequer ganhou. Mesmo assim, aquela performance aparentemente simples me fez amar música ainda mais.

Tudo começava com uma tela escura, vultos se movendo em meio à fumaça, fogos de artifício e sombras. Aos poucos, a música surgia discreta, misturada a ruídos de guerra. Com o tempo, ficava mais nítida, e a silhueta dos músicos revelava seus rostos. Em menos de um minuto, já era possível ver barris, caixas de madeira e uma cerca de tela, criando um cenário que remetia a um campo de batalha.

One foi a música perfeita para aquela fase da minha vida, quando eu começava a sair da segurança do lar dos meus avós e descobrir o mundo lá fora. A canção inicia com um belo arranjo de guitarras limpas: uma sustentando a base, outra desenhando fraseados delicados, até dar lugar aos vocais. Após uma mudança rítmica, James Hetfield canta a sensação de alguém que desperta após ser abatido na guerra.

O resultado daqueles pouco mais de cinco minutos de vídeo foi uma transformação definitiva no meu gosto musical. Um violão já não era suficiente. Eu queria reproduzir aquela agressividade, aquele sentimento bruto e, ao mesmo tempo, tão belo. Passei a ouvir programas de rádio dedicados ao rock, comprar revistas sobre bandas, adquirir discos de vinil, fitas K7, pôsteres, camisetas e tudo que tivesse alguma ligação com o heavy metal.

É importante lembrar que estamos falando do final dos anos 80 e início dos 90. Não havia internet, nem a avalanche de informações que temos hoje. Mas isso é assunto para outro post. Por enquanto, quero compartilhar com todos que já me viram tocar, ouviram minhas músicas e me apoiaram ao longo dos anos como tudo começou: de onde vem essa paixão, esse visual que mantenho há tanto tempo e o motivo de eu estar cada vez mais apaixonado por música.

Foi assistindo à apresentação do Metallica no Grammy de 1989 que tudo aconteceu. Se você acha isso bobagem e não gosta de música como eu gosto, só posso lamentar. Afinal, talvez você nunca tenha vivido uma experiência tão transformadora quanto essa.

 

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