Evolução descartável
Não é segredo a minha paixão por música — especialmente pelo heavy metal. Dedico-me ao estudo musical desde os primeiros anos de escola, começando com violão popular e clássico, e mais tarde tocando guitarra e baixo em bandas de punk, metal e hard rock.
Escrevo este texto para iluminar um tema já comentado em uma postagem anterior, mas agora com foco em outro aspecto: como fazer música hoje é radicalmente diferente do que há vinte anos.
O leitor pode pensar: “Claro, as coisas evoluem.” E seria medíocre acreditar que tudo permaneceria estagnado. No entanto, quem poderia imaginar que as mudanças seriam tão profundas e aceleradas? Talvez algum visionário tenha previsto parte disso, mas o que se falava era sobre carros voadores, viagens interplanetárias, curas milagrosas — não sobre a transformação silenciosa e cotidiana que vivemos.
Focando diretamente no tema, ainda me surpreendo com a velocidade das mudanças tecnológicas e o impacto que elas têm em nossas vidas. Somos obrigados a aprender coisas novas constantemente. Por um lado, isso é positivo — sou entusiasta da ideia de que devemos evoluir até o fim da vida. Mas, na prática, essas mudanças são muitas vezes desagradáveis, não tanto pela tecnologia em si, mas pela forma como as pessoas reagem a ela. É aí que vejo o impacto mais nocivo.
Vamos a um exemplo: telefonia celular. Quem imaginaria, há vinte anos, que poderíamos falar com qualquer pessoa do país por míseros centavos, de onde estivermos? Uma grande evolução, sem dúvida. Mas o serviço é cada vez pior. Talvez, com mais tempo para estudo, implementação e expansão, essa revolução atingisse um nível aceitável e proporcional ao marketing das empresas.
O resultado prático é um descontrole. Mal aprendemos a usar um celular para fazer ligações, e já surge outro que envia mensagens, tem rádio FM, depois internet móvel, câmeras fotográficas, filmadoras, MP3... A cada curto intervalo, novas funções são adicionadas, os componentes evoluem, agregam valor — mas tornam o modelo anterior obsoleto e desvalorizado. Muitos smartphones nem chegam a se consolidar no mercado, e já são substituídos por versões mais avançadas.
E isso não acontece só com celulares. Vemos o mesmo fenômeno com carros, eletrodomésticos, roupas, calçados. Tudo se tornou passageiro, sem personalidade, descartável.
Na minha realidade como músico, hoje é possível montar um home studio moderno em casa, capaz de realizar o que grandes estúdios não conseguiam há dez anos. Temos acesso a toda a literatura necessária para estudar quase qualquer coisa com um clique. Isso é ótimo — na teoria.
Na prática, vemos pessoas cada vez mais confusas, debates inúteis sobre detalhes irrelevantes, e produções cada vez mais precárias e descartáveis. Se você discorda, pense em quantas vezes trocou de celular, televisão, player de música, quantos upgrades fez no computador, quantas mudanças enfrentou nos bancos, no transporte, nos veículos. Com certeza esse fenômeno te atingiu de alguma forma.
Tenho uma teoria: alguém lança um produto “inovador”, outro copia, e o mercado te convence de que você não pode viver sem aquilo. Mesmo que resista à tentação, a pressão social te empurra. Você paga, sabendo que em um ano o mesmo produto custará um terço do valor. E em doze meses, ninguém mais lembrará dele.
O fabricante sabe disso. Por isso, produz com qualidade inferior e custo baixo, apenas para sobreviver naquele ciclo. Mesmo que alguns equipamentos resistam ao teste do tempo, não temos como prever quais serão, diante da avalanche de ofertas e do curto tempo de uso.
Para encerrar, cito alguns equipamentos clássicos da música que resistem ao tempo: guitarras Gibson Les Paul, Fender Stratocaster e Telecaster, amplificadores Marshall JCM 800, microfones Shure SM57. Recomendo uma pesquisa para os apaixonados ou curiosos.
Alguns desses equipamentos têm mais de 40 anos e seguem funcionando perfeitamente. Além da durabilidade, fruto da qualidade dos materiais e da construção, há outro fator impressionante: se seu SM57 quebrar após anos de uso, você pode comprar um novo com a mesma qualidade do anterior.
Assustei-me ao saber que algumas grandes marcas, que antes ofereciam modelos acessíveis, hoje estão fabricando versões clássicas com menos cuidado e qualidade. Espero sinceramente que isso não se confirme.

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