Metal, fitas e discos de vinil

 

Em uma postagem anterior falei sobre minha primeira experiência com o heavy metal ao conhecer One, do Metallica. Naquela época, era bem mais difícil ter acesso ao material das bandas, especialmente para um pré-adolescente. Poucos conhecidos gostavam de metal ou mesmo de rock’n’roll em geral. De vez em quando eu conseguia pescar alguma música interessante no rádio, mas não era frequente. Havia alguns programas nas rádios locais que tocavam Led Zeppelin, Black Sabbath, Rush, Ramones, Alice in Chains, Megadeth, entre outros.

Foi apenas mais tarde, quando comecei a gravar discos de vinil em fitas cassete para ouvir em um pequeno rádio com apenas um deck, que pude apreciar verdadeiramente o som dessas bandas. Ainda tínhamos aparelhos que tocavam vinil em três rotações, com caixas próprias. O volume era extremamente baixo, mas mesmo assim dava para curtir cada nuance das músicas. Lembro que os primeiros vinis que comprei foram Cowboys From Hell e Vulgar Display of Power, do Pantera. Eu os ouvia quatro vezes por dia, acompanhando as letras pelo encarte. Aquilo era a maior diversão que eu tinha.

Aos poucos, começaram a surgir revistas falando sobre diversas bandas de rock. Alguns amigos passaram a andar com skatistas e punks, e materiais de várias bandas começaram a chegar às minhas mãos. Há coisas daquela época que ainda hoje escuto para matar a saudade: Body Count, Red Hot Chili Peppers, Dead Kennedys, The Exploited, Ramones, Biohazard.

Um movimento crescia com força na primeira metade da década de 90. Nevermind, do Nirvana, era o disco mais popular, mas Seattle mostrava ao mundo bandas como Alice in Chains, Soundgarden e Pearl Jam. O Metallica havia lançado o famoso “álbum preto”, enquanto o mundo pop concentrava suas atenções no Guns N’ Roses. Era um cenário musical vibrante. No underground, o death metal revelava bandas importantes; no Brasil, o Sepultura estava em alta; e o new metal começava a nascer.

Nessa época, comprei quatro vinis de uma só vez em uma lojinha de discos que durou pouco tempo: British Steel, do Judas Priest; Don’t Break the Oath, do Mercyful Fate; Abigail, do King Diamond; e Paranoid, do Black Sabbath. Minha prateleira de fitas já abrigava nomes como Dio, Accept, Anthrax, Testament, Skid Row, Morbid Angel, Deicide, Obituary, Carcass, Death e muitos outros.

Também tínhamos nossos preconceitos em relação a certos estilos e bandas. Éramos engajados socialmente sem sequer saber o que isso significava. Vestíamos coturnos ou tênis velhos, calças jeans ou camufladas, camisetas de bandas — muitas vezes da marca Pirata Urbano — ou aquelas vendidas nas lojas de discos em Porto Alegre, como a Megaforce, que eram mais caras.

Algo que hoje parece estranho, mas era nossa realidade, era a comunicação por cartas. Hoje temos celulares, redes sociais, chamadas de vídeo e mensagens instantâneas. Naquele tempo, muita coisa só existia fora do país, e não havia eBay ou Mercado Livre. Quem tinha dinheiro se beneficiava, os demais improvisavam.

Depois veio a era do CD, e tudo começou a mudar. Os vinis saíram do mercado e viraram coisa de saudosista. Por um tempo, manteve-se a tradição de ir aos sebos comprar discos, mas como as agulhas ficaram raras e caras, tornou-se inviável ouvir apenas vinil. A magia de andar com as grandes capas de discos debaixo do braço foi se perdendo.

Hoje tenho quase todo o material que poderia ter reunido naquela época em arquivos digitais, além de muitas coisas que talvez nunca tivesse conhecido sem a internet. Não vou tentar argumentar qual época foi melhor — isso seria inútil. Apenas ressalto que as coisas mudaram bastante e que o que ficou foi a saudade.


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