Fundamentos e motivações de um músico

 

Gostaria de comentar a respeito de algo que, ao menos a meu ver, está sendo deixado em segundo plano: a fundamentação musical. É incrível como o fácil acesso à informação tem mudado os conceitos das pessoas. Em alguns aspectos, isso tem trazido melhorias; em outros, tem piorado bastante.

Quando comecei a estudar música, no final dos anos oitenta, minhas ambições eram muito modestas. Por exemplo, queria aprender a tocar a introdução de “One”, do Metallica, no violão — e, com muita sorte, trechos curtos e riffs de outras músicas. Para isso, estudei os fundamentos do violão: suas técnicas, escalas musicais, acordes, andamentos e divisões rítmicas. Todos esses conceitos levam tempo para serem absorvidos e aperfeiçoados — mais para uns do que para outros — mas levam tempo. Depois vem a prática em conjunto, a colocação de texturas, arranjos, vozes e outras variáveis de cada estilo musical, para quem pretende seguir tocando e estudando. Porém, apenas tocar um riff, um trecho de solo ou uma cifra de uma música que eu gostava já me dava um prazer enorme — e isso me motivava a estudar para fazer aquilo ainda melhor.

Hoje, vejo músicos preocupados com outras coisas, como se já soubessem tocar tudo. Criticam clássicos e excelentes músicos, chamando-os de medíocres. Concordo que gosto é gosto, mas minha geração via esses músicos quase como deuses. Nós os respeitávamos e venerávamos porque eles faziam aquilo que nos dava prazer em apreciar. Atualmente, as pessoas já não cultivam esse amor e essa devoção aos artistas. Parece que cada fã fica sentado num trono, esperando a próxima gracinha do bobo da corte. Chegamos ao cúmulo de ver pessoas debochando de quem compra um CD — tamanho o descaso com o trabalho do artista.

Eu ainda gosto de comprar CDs e vinis. Claro que não compro todos os álbuns ou bandas que conheço. Acho que existe uma seleta lista de uns 300 trabalhos que valem a pena ter em casa, em exemplar original. Mesmo conhecendo muitos trabalhos e já tendo desenvolvido minhas preferências pessoais, sempre tento ouvir coisas novas, em busca de satisfazer minha audição. As próprias bandas divulgam seus trabalhos nos mais diversos meios. E outra: eu sou apaixonado por música.

Na realidade atual, temos muitas bandas, fórmulas saturadas, superproduções que não emplacam, músicos que se julgam semideuses, uma grande quantidade de projetos egocêntricos e uma massa de fãs que se contenta em baixar a discografia da banda em MP3, sem que a banda veja um centavo. Acho que o conjunto desses fatores faz com que não surjam trabalhos com tanta qualidade. Mesmo assim, concordo que existam músicos tão bons — ou até melhores — do que os das gerações anteriores. Entretanto, o foco nos trabalhos, o público e o mercado musical não oferecem as condições ideais para que esses artistas possam produzir obras maravilhosas ou se tornarem ícones para o público que consome sua música.

Talvez o excesso de informações e a facilidade de acesso aos músicos e seus trabalhos tenham banalizado o cenário. Antigamente, tínhamos as gravadoras que investiam milhões em seus artistas. Muita gente comprava um disco pelo selo, às vezes sem nem conhecer o artista. Isso garantia, de certa forma, um grau de qualidade e profissionalismo, onde dificilmente um amador se mantinha no mercado. Hoje, com um computador e um pouco de conhecimento, dá para produzir a própria música sem sair de casa, a um custo muito baixo — e mostrá-la ao mundo todo.

Voltando ao início desta postagem, vejo mais debates sobre como as coisas são feitas — os equipamentos utilizados, as técnicas aplicadas — do que sobre a qualidade de uma obra em si. Essa preocupação tem contaminado os músicos, que se concentram em produzir em seus estúdios da forma que querem, envolvendo-se em diversos projetos de todo tipo, apenas para se manterem ativos no mercado.

Marcas como Metallica, Iron Maiden, Black Sabbath, Led Zeppelin, Deep Purple, entre muitas outras, sempre terão seus seguidores e dificilmente serão superadas por bandas novas — até por uma exigência de mercado.

Hoje as coisas estão assim; amanhã podem mudar radicalmente. Contudo, a única certeza que fica é que a tecnologia e o acesso à informação mudaram tudo. Não sei se melhoraram ou pioraram — apenas mudaram. O melhor de tudo é saber que o que está feito não pode ser desfeito e ficará para sempre. Ao menos para mim. O resto deixamos para discutir daqui a vinte ou trinta anos, para ver no que deu.

Para finalizar, ressalto o fato de que essa paixão esfriou. A motivação para ter uma banda e conhecer a fundo uma obra diminuiu bastante. Isso influenciou diretamente na forma como músicos e produtores trabalham, estudam e produzem. Como resultado, a música tem perdido sua magia e sua alma, tornando-se apenas um produto descartável no mercado.

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