Recordando os tempos do vinil
Recordar é reviver situações e voltar a sentir sensações esquecidas. Normalmente, o que mais nos marca são as experiências vividas e os sentimentos da juventude. Quando jovem, eu era daqueles caras que trabalhavam em qualquer emprego apenas para juntar dinheiro e investir em discos, camisas de bandas, pedais de guitarra, fitas cassete e tudo o que orbitava o universo musical. As lojas eram o nosso ponto de encontro com as novidades: era lá que descobríamos lançamentos, trocávamos informações e alimentávamos nossa paixão.
Inúmeras vezes saí de casa com ressaca em um sábado de manhã para ir ao centro de Porto Alegre comprar alguma coisa. Isso fazia parte da rotina, era quase um ritual. Reservar tempo para essa busca era essencial, e cada compra trazia um prazer imenso. Ao adquirir um disco, eu passava horas explorando a capa, o encarte, imaginando o momento de chegar em casa e colocar a “bolacha” para rodar.
Na semana passada, tive a oportunidade de reviver esse hábito que tanto amava, mas que há muito tempo não praticava. Fui a uma loja de CDs para comprar discos de vinil — exatamente como fazia vinte anos atrás. Sempre gostei de entrar nas lojas e “sujar os dedos”, como dizem os mais antigos, vasculhando pilhas de discos em busca daquele exemplar escondido, esperando para ser descoberto. Ali, em meio a tantos títulos, o tempo parece recuar, nos levando a diferentes épocas e memórias.
Lembrei da primeira vez que comprei vinis, por volta de 1992 ou 1993, em uma loja de Cachoeirinha que vendia discos usados. Saí de lá com quatro clássicos: Paranoid do Black Sabbath, British Steel do Judas Priest, Don’t Break the Oath do Mercyful Fate e Abigail do King Diamond. Escutei-os em uma vitrola da minha irmã, que tinha um som baixo por causa dos pequenos alto-falantes. O aparelho era curioso: menor que o próprio disco, que ficava girando com parte para fora, e quando não estava em uso se transformava em uma maletinha. Para completar, veio junto um single de demonstração do Roberto Carlos, feito em papelão com uma fina camada de vinil.
Com o tempo, comprei meu primeiro 4 em 1 da Gradiente, com CD, duplo deck, rádio e vinil. A partir daí, passei a comprar discos e CDs rotineiramente. Já tinha alguns LPs do Pantera, presentes que ganhei quando morava com minha avó, além de fitas cassete gravadas diretamente do rádio ou copiadas de amigos. Foi na casa dela que decorei todas as letras de Cowboys From Hell e Vulgar Display of Power. Passava horas ouvindo e lendo os encartes. Hoje, percebo que muitos já não se interessam por esses detalhes: quem compôs, quem produziu, onde foi gravado. É mais fácil baixar músicas da internet e ler uma resenha superficial do que mergulhar no significado de uma obra.
O que mais me fez recordar, porém, foi o cheiro característico dos vinis. As capas plásticas gastas, as marcas do tempo, tudo isso remete a uma era em que os discos eram populares e depois se tornaram raros. Lembro que, há pouco mais de dez anos, qualquer vinil custava em torno de R$ 100,00. Hoje, é possível encontrar por R$ 30,00. CDs estão ainda mais baratos, empilhados nas prateleiras das lojas vintage. Na minha última visita, separei uns vinte LPs e levei nove. Não havia tantos que me empolgassem, mas certamente voltarei para buscar os que ficaram para trás.
Com a internet, plataformas como Mercado Livre e lojas virtuais tornaram mais fácil encontrar títulos raros, acessórios para aparelhos antigos e relançamentos de clássicos. Muitos discos voltaram em edições duplas, com qualidade superior e capas elaboradas. Há também aparelhos modernos que reproduzem vinil e ainda convertem para MP3.
Comprei esses discos por três motivos. Primeiro, porque no fim do ano passado adquiri um 3 em 1 antigo da Gradiente, e isso reacendeu meu gosto por objetos dos anos 80, junto com minha coleção de Action Heroes da infância. Segundo, porque gosto das bandas que gravaram esses álbuns e eles foram pensados para essa mídia, desde a gravação até a prensagem. Como entusiasta e estudioso de produção musical, nada melhor do que ouvir as gravações originais da época. Terceiro, porque essa prática me remete à juventude, quando comprar vinis e escutá-los preenchia meu tempo e me dava prazer. Foi assim que desenvolvi meu gosto musical, aprendi inglês, formei conceitos e moldar minha identidade.
Para encerrar, cito os discos que comprei: Pride do White Lion, Slide It In do Whitesnake, Operation: Mindcrime do Queensrÿche, Hey Stoopid do Alice Cooper, 90125 do Yes, Appetite for Destruction do Guns N’ Roses, Live do Mr. Big, Lovedrive do Scorpions e W.A.S.P. do W.A.S.P. Todos ótimos, na veia do hard rock dos anos 80. Pude ouvir clássicos como I Wanna Be Somebody, Feed My Frankenstein, Love Ain’t No Stranger e Welcome to the Jungle em sua forma original.
Infelizmente, minha agulha está gasta, mas em breve vou substituí-la ou adquirir um aparelho mais moderno. Fica a dica: ouvir um vinil em um bom equipamento é uma experiência que o MP3 jamais substituiu, seja pelo charme de virar o disco, seja pela sonoridade única. É verdade que hoje temos produções de alta qualidade em estúdios caseiros e equipamentos acessíveis, mas acredito que o talento, o envolvimento e o profissionalismo das pessoas que criavam aquelas obras se perderam com o tempo. Por isso, será difícil encontrar trabalhos tão grandiosos quanto os que marcaram gerações.

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