Contribuição solidária

 

Aprender algo e sentir satisfação apenas pelo ato de saber pode ser visto como um estado raro: talvez uma patologia psicológica desconhecida ou, quem sabe, um estágio evoluído da existência. Conheci pessoas que praticam esportes apenas pelo prazer de fazê-lo, sem buscar vitória ou reconhecimento. Da mesma forma, há quem compartilhe conhecimento livremente, mesmo sabendo que sua atitude pode fortalecer concorrentes com informações valiosas. E, claro, existem aqueles que dividem suas poucas posses com outros, mesmo tendo quase nada. Todas essas atitudes se conectam ao tema da solidariedade.
Em uma reflexão anterior falei sobre o ego e sua importância como motor da vaidade humana. Agora, proponho analisar brevemente os exemplos citados para iluminar possíveis explicações.
Quem pratica esportes e se sente realizado apenas em competir pode ser visto como um desportista “mediano”. Mas, ao mesmo tempo, pode estar cuidando da saúde, mantendo o corpo em forma ou simplesmente buscando pertencimento em um grupo. Há também os apaixonados por determinada modalidade, os que perseguem recordes pessoais ou os que vivem do esporte para sustentar suas famílias. Em todos os casos, existe uma motivação — pessoal ou coletiva — que dá sentido ao esforço.
No segundo exemplo, temos aqueles que difundem conhecimento livremente. Isso se manifesta em professores que lecionam, profissionais que palestram, escritores que publicam livros técnicos. Alguns o fazem por vocação, outros por salário, outros ainda por vaidade ou necessidade de projeção. O ato de ensinar pode ser movido por paixão genuína, mas também por desejo de reconhecimento.
O terceiro exemplo envolve pessoas que se dedicam a ONGs, mutirões solidários e obras sociais. Durante muito tempo questionei a real intenção por trás da filantropia e do voluntariado, suspeitando de segundas intenções como ganhos políticos ou poder de influência. Hoje, acredito que, mesmo quando há interesses indiretos, muitas dessas ações trazem benefícios concretos às comunidades. E, em alguns casos, são motivadas por genuíno desejo de ajudar.
Retomando a questão inicial, observo que a internet ampliou esse fenômeno. Blogs, canais de YouTube e páginas de artistas têm mostrado uma mudança de mentalidade: músicos e técnicos compartilham metodologias, participam de debates e trocam experiências. O público, muitas vezes, prefere ver o processo criativo do que apenas o resultado final. Muitos profissionais relatam sentir mais prazer em ensinar do que em executar sua própria atividade.
É verdade que a internet também abriga charlatães e informações distorcidas. Mas há uma quantidade imensa de pessoas interessadas em aprender e compartilhar. Eu mesmo aprendi muito com cursos online, fóruns e tutoriais. Hoje é hábito pesquisar soluções no Google e encontrar respostas rápidas. Esse ciclo de aprendizado e compartilhamento mantém o mercado vivo. Quem confia em seu trabalho não teme mostrar técnicas, equipamentos ou softwares que utiliza.
Por outro lado, há discursos padronizados, debates estéreis e ostentações desnecessárias. Discussões sobre qual software ou instrumento é “melhor” muitas vezes não levam a nada. Prefiro ouvir profissionais que mostram como trabalham e explicam suas escolhas. Antes de adquirir qualquer equipamento ou software, pesquiso pacientemente em diversas fontes, leio manuais, assisto tutoriais e analiso reviews. Essa prática garante melhor custo-benefício e evita desperdício.
Concluo que a verdadeira realização vem quando conseguimos extrair o máximo de um recurso — seja um equipamento, um software ou um conhecimento. Ao estudar e testar possibilidades, não apenas melhoramos em uma atividade específica, mas também adquirimos base para explorar novas ferramentas. Muitas vezes já temos tudo o que precisamos para produzir, mas nos escondemos atrás de desculpas e da busca por novidades. O resultado é a falta de produção.
E o que mais me preocupa é que, apesar da abundância de ferramentas e técnicas revolucionárias, nunca se produziu tanto com qualidade tão baixa. Por isso, mantenho como referência os trabalhos feitos há mais de vinte anos, que continuam sendo exemplos de excelência e autenticidade.


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