Sai do ar a Rádio Rock de Porto Alegre

Sai do ar a Rádio Rock de Porto Alegre: o fim da Ipanema FM

Clique na imagem e conheça KRP Livros

Nesta segunda-feira, foi anunciado na mídia que a Ipanema FM, de Porto Alegre, depois de mais de 30 anos, deixaria seu tradicional prefixo 94.9 FM e passaria a atuar como uma rádio digital.

Isso não chega a me afetar diretamente ou causar algum desconforto. Entretanto, quando penso que acordava nas manhãs de sábado para escutar bandas como Metallica, Alice in Chains, Led Zeppelin, entre muitas outras, há mais de 20 anos, é inevitável parar para refletir.

Naquela época, o rádio era praticamente a única fonte gratuita de informação sobre as bandas de que eu gostava. As outras opções eram as revistas, de credibilidade bastante discutível, vendidas nas bancas.

Ipanema FM e a divulgação do rock em Porto Alegre

Conheci muitas bandas através dos comunicadores da Ipanema FM, assim como recebi informações sobre eventos, lojas de discos e lançamentos. Naquela época, a rádio tinha uma importância enorme para as gravadoras que, por sua vez, eram responsáveis por comercializar o produto chamado música.

Então apareceu a internet. O pensamento e os hábitos coletivos mudaram e, com isso, algumas ferramentas passaram a ser consideradas obsoletas.

Acho que foi isso que aconteceu com a Ipanema.

Ela deixou de ser um canal de comunicação tão diretamente ligado aos roqueiros para tentar sobreviver o maior tempo possível dentro da cultura pop. A música começou a disputar espaço com outros assuntos mais direcionados à notícia cotidiana e ao esporte e, ao que tudo indica, o prefixo 94.9 FM passa a ser uma extensão da Band AM e da BandNews.

O rock perdeu espaço no rádio?

Muitos pensam que os roqueiros são uma classe envelhecida e muito mais flexível do que eram no passado. Outros já consideram o desaparecimento da Ipanema FM como uma espécie de boicote ao rock.

Como disse no início, atualmente o ocorrido tem pouca influência no meu dia a dia, pois eu já não acompanhava o conteúdo da rádio cotidianamente.

No final da década de 1990, a rádio começou a flertar com o samba e a MPB, e isso fez com que eu me preocupasse mais em adquirir discos e fitas — depois, CDs — do que esperar que tocasse no rádio alguma música de que eu gostasse.

Algumas bandas criaram um vínculo muito forte com a rádio, mas acredito que a diversidade de mídias e as novas opções de divulgação fizeram com que os próprios artistas também se desinteressassem gradualmente desse modelo.

Agora fica um pouco de saudosismo e nostalgia.

Ipanema FM, MTV Brasil e o fim de uma era

Assim como aconteceu com a MTV Brasil, que algum tempo atrás também teve seu fim anunciado, talvez as duas emissoras se encaixem no mesmo contexto.

Assim como a Ipanema, a MTV também já não me agradava tanto quanto nos anos 1990, quando era uma grande fonte de divulgação musical.

Em outros tempos, tanto a Ipanema quanto a MTV fariam muita falta. Hoje, com o advento da internet, ficou muito mais fácil ter acesso a vídeos, músicas e notícias dos nossos artistas favoritos. Também é possível manter contato direto com os próprios músicos, algo que seria muito difícil de imaginar alguns anos atrás.

A internet mudou completamente a maneira como descobrimos bandas, ouvimos música e acompanhamos artistas.

O que perdemos com o fim do rádio como referência musical?

Os tempos mudaram e algumas coisas ficaram para trás, deixando apenas suas histórias na lembrança daqueles que, em algum momento, tiveram essas marcas muito próximas.

Confesso que algumas coisas desse "novo mundo" me incomodam.

Por exemplo, quando alguém vai falar sobre determinado assunto e para a conversa para pesquisar na internet do celular alguma informação que possa apoiar seu argumento.

Ou então quando um jovem, com um celular equipado com GPS, internet e mapas, pergunta para um senhor de idade onde fica determinado endereço.

Conheço gente que tem 10 mil horas de música armazenadas em um HD externo e diz conhecer algumas centenas de bandas, mas não ouviu sequer um décimo dos trabalhos que possui.

Quando comecei a gostar de heavy metal, eu sabia de cor o nome dos músicos das bandas, onde, quando e quem havia gravado cada álbum. Decorava as letras de tanto cantar junto com o disco, acompanhando tudo pelo encarte.

Esse é o tipo de experiência difícil de transmitir para alguém que nunca teve o hábito de colocar um disco de vinil no aparelho, sentar e simplesmente ouvir o mesmo álbum várias vezes.

O hábito de ouvir música também mudou

Criou-se o hábito de escutar música enquanto fazemos outra coisa.

A música passou a ser trilha sonora de outras atividades, muitas vezes deixando de ser o centro da experiência.

Talvez seja apenas sinal dos tempos.

O fim da Ipanema FM e da MTV Brasil representa, para mim, muito mais do que o desaparecimento de duas marcas. É o encerramento de uma determinada maneira de consumir música, descobrir bandas e acompanhar a cultura musical.

Hoje temos acesso praticamente ilimitado a músicas, vídeos, entrevistas, notícias e informações sobre artistas de qualquer lugar do mundo.

Mas, para quem viveu aquela época, existe algo que a tecnologia não consegue substituir completamente: a expectativa de ouvir uma música no rádio, descobrir uma banda por acaso e correr atrás de informações sobre ela.

Talvez seja justamente isso que esteja ficando para trás.

No fim das contas, a Ipanema e a MTV são apenas mais dois sinais de que o tempo está passando.

Assista todos os episódios de KRPCast clicando aqui;

Conheça o ecossistema KRP clicando aqui;

Ouça a Heavinna no Spotify clicando aqui;

Para mais informações entre em contato clicando aqui;


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

5 álbuns indispensáveis do thrash metal

O que realmente importa?

El Diablo

Um conto de inverno

Luthieria

O amor vence o tempo

A parte deslocada

Ecossistema KRP

Começando a estudar música

Noite de hard rock em Porto Alegre/RS