5 álbuns essenciais do black metal
5 álbuns essenciais do black metal
Decidi fazer esta postagem depois de conversar com alguns amigos sobre o black metal norueguês, mais especificamente sobre as bandas associadas à cena conhecida como Inner Circle. Esse fenômeno cultural ganhou força principalmente na primeira metade dos anos 1990 e marcou profundamente a história do heavy metal extremo.
Existe bastante material sobre esse período, incluindo documentários nos quais pessoas diretamente envolvidas apresentam suas próprias versões dos acontecimentos. Não pretendo, porém, entrar profundamente nos aspectos históricos, políticos ou criminais daquela cena. O objetivo aqui é falar sobre a música e sobre os álbuns que considero fundamentais para compreender o black metal norueguês.
Os cinco discos escolhidos têm algumas características em comum. Em diferentes graus, todos representam a estética e a sonoridade que ajudaram a definir o black metal escandinavo: produção propositalmente crua, atmosferas sombrias, corpse paint, guitarras agressivas, vocais extremos e uma forte preocupação em criar uma identidade própria.
Mais do que a polêmica que cercou algumas dessas bandas, o que realmente me interessa é a originalidade musical. Eram jovens músicos influenciados pela cultura nórdica e reunidos em torno de uma linguagem musical que ainda estava em formação. Para uma geração que buscava se afastar do universo doméstico e escolar, aquela música representava também a possibilidade de pertencer a um universo cultural próprio.
Portanto, vamos nos concentrar nos discos.
1. A Blaze in the Northern Sky — Darkthrone
Se existe um álbum que pode ser apontado como um dos grandes responsáveis pela definição da sonoridade do black metal norueguês, é A Blaze in the Northern Sky, do Darkthrone.
Segundo álbum de estúdio da banda, o disco foi gravado em agosto de 1991, no Creative Studios, em Kolbotn, na Noruega, e lançado pela Peaceville Records em 26 de fevereiro de 1992. O estúdio também havia sido utilizado pelo Mayhem para a gravação de Deathcrush, em 1987.
O mais interessante é que o Darkthrone havia iniciado sua carreira tocando death metal. Depois de Soulside Journey, porém, Fenriz, Nocturno Culto e Zephyrous decidiram direcionar a banda para uma sonoridade muito mais crua e sombria. O resultado foi praticamente uma ruptura com o que haviam feito anteriormente.
A produção deliberadamente rudimentar tornou-se parte fundamental da identidade do álbum. Guitarras, baixo, bateria e vocais aparecem de maneira seca e agressiva, sem o acabamento que normalmente se esperaria de uma produção de estúdio. Em vez de esconder as limitações técnicas, a banda transformou essas características em estética.
O álbum conta com seis faixas e apresenta músicas como Kathaarian Life Code, In the Shadow of Our Pale Companion e Under a Funeral Moon, que ajudaram a estabelecer uma linguagem posteriormente reproduzida por inúmeras bandas de black metal.
Na gravação, Fenriz ficou responsável pela bateria, Nocturno Culto pelas guitarras e vocais, Zephyrous pela guitarra e Dag Nilsen pelo baixo. Nilsen participou como músico de sessão, pois já estava se afastando da banda.
A fotografia de Zephyrous usando corpse paint na capa também ajudou a consolidar uma estética que se tornaria característica do gênero.
A Blaze in the Northern Sky não foi simplesmente mais um álbum de black metal. Foi um dos registros que ajudaram a estabelecer como o black metal norueguês deveria soar e parecer.
2. Burzum — Burzum
O álbum de estreia do Burzum foi lançado em março de 1992 pela Deathlike Silence Productions. As gravações aconteceram no Grieghallen, em Bergen, durante o inverno de 1992, e tiveram Pytten (Eirik Hundvin) como responsável pela engenharia e masterização. A produção ficou a cargo de Pytten e Count Grishnackh, com coprodução de Euronymous.
Aqui temos uma característica que diferencia bastante o Burzum de outras bandas da mesma cena: Varg Vikernes gravou praticamente todo o álbum sozinho, tocando os instrumentos e fazendo os vocais. Euronymous participa do solo de guitarra de War e do gongue em Dungeons of Darkness.
Musicalmente, o disco apresenta muitas das características que estavam se tornando associadas ao black metal norueguês: produção extremamente simples, guitarras ásperas, bateria direta e vocais agressivos.
Entretanto, existe algo diferente na composição de Vikernes. Mesmo com a precariedade deliberada da gravação, há uma dimensão melódica, melancólica e atmosférica muito forte. Essa característica se tornaria ainda mais evidente nos trabalhos posteriores do projeto.
Particularmente, sempre achei curioso o resultado obtido por alguém trabalhando praticamente sozinho, com recursos extremamente limitados. Para quem gosta de gravar todos os instrumentos em um home studio, como eu, existe uma perspectiva interessante nisso. Hoje temos computadores, correção de afinação, edições digitais e inúmeras ferramentas de produção. Em 1992, nada disso estava disponível.
Independentemente das controvérsias envolvendo seu autor, Burzum permanece como um registro importante para compreender a formação do black metal norueguês e a maneira como a limitação técnica poderia ser transformada em linguagem artística.
3. Diabolical Fullmoon Mysticism — Immortal
O álbum de estreia do Immortal foi gravado em abril de 1992, no Grieghallen Studios, em Bergen, e lançado em 1º de julho de 1992 pela Osmose Productions. A produção e a engenharia ficaram a cargo de Eirik Hundvin, enquanto a própria banda também aparece creditada na produção.
A formação era composta por Demonaz Doom Occulta nas guitarras, Abbath Doom Occulta nos vocais e baixo e Armagedda na bateria. Foi o único álbum do Immortal com Armagedda como baterista.
Diabolical Fullmoon Mysticism não é meu disco favorito do Immortal, mas apresenta aquela sonoridade característica da primeira geração do black metal norueguês. A gravação é áspera, as guitarras possuem uma textura bastante particular e as composições transitam entre velocidade, atmosfera e melodias sombrias.
The Call of the Wintermoon é provavelmente a faixa mais conhecida do disco e também ganhou notoriedade por causa de seu videoclipe, que acabou se tornando quase uma peça involuntariamente cômica dentro da estética da cena.
Apesar de ter surgido no mesmo ambiente musical que Darkthrone, Burzum e Mayhem, o Immortal desenvolveu uma identidade própria. A banda também ficou relativamente afastada das principais controvérsias que marcaram aquela cena e construiu sua reputação principalmente por meio da música e de sua estética.
Em termos históricos, Diabolical Fullmoon Mysticism representa um dos primeiros registros importantes de uma banda que posteriormente ajudaria a ampliar as possibilidades do black metal.
4. De Mysteriis Dom Sathanas — Mayhem
De Mysteriis Dom Sathanas é um dos álbuns mais importantes e controversos da história do black metal norueguês. Seu processo de composição e gravação atravessou um período extremamente conturbado para o Mayhem.
As gravações ocorreram entre 1992 e 1993, no Grieghallen Memorial Hall, em Bergen. A produção ficou a cargo de Pytten, com coprodução de Euronymous e Hellhammer. O álbum finalmente foi lançado em 24 de maio de 1994 pela Deathlike Silence Productions.
A formação registrada no álbum reuniu Euronymous nas guitarras, Snorre Ruch (Blackthorn) na segunda guitarra, Varg Vikernes no baixo, Hellhammer na bateria e Attila Csihar nos vocais.
O disco começou a ser concebido antes de sua gravação. Algumas letras haviam sido escritas por Dead, vocalista que morreu em 1991, e posteriormente Attila Csihar assumiu os vocais.
A história do álbum acabou inevitavelmente ligada aos acontecimentos trágicos que envolveram a cena norueguesa. Euronymous foi assassinado em 1993 por Varg Vikernes, que havia participado das gravações como baixista. Por isso, o disco acabou se tornando um documento particularmente sombrio daquele período.
Mas reduzir De Mysteriis Dom Sathanas à sua história seria um erro.
Musicalmente, o álbum é uma evolução natural do que o Mayhem havia apresentado em Deathcrush, combinada à atmosfera que estava sendo desenvolvida por outras bandas da cena. Freezing Moon, Funeral Fog, Pagan Fears e a faixa-título são exemplos de uma composição que consegue unir agressividade, repetição hipnótica e uma atmosfera extremamente obscura.
Freezing Moon talvez seja o ponto mais alto do álbum. O disco possui algumas irregularidades, mas sua importância histórica e musical é incontestável.
5. In the Nightside Eclipse — Emperor
Se os quatro discos anteriores representam diferentes aspectos da primeira fase do black metal norueguês, In the Nightside Eclipse mostra o caminho que o gênero poderia seguir a partir dali.
O álbum de estreia do Emperor foi gravado em julho de 1993, no Grieghallen, em Bergen, e lançado em 21 de fevereiro de 1994 pela Candlelight Records. A produção é creditada ao Emperor e a Pytten.
A formação que registrou o álbum contava com Ihsahn nos vocais e guitarras, Samoth nas guitarras, Tchort no baixo e Faust na bateria. O disco seria o único álbum de estúdio do Emperor com essa formação de baixista e baterista.
O Emperor apresentou uma abordagem muito mais complexa do black metal. As guitarras são densas, os teclados ampliam a atmosfera e os arranjos possuem uma dimensão quase sinfônica. Em vez de simplesmente reproduzir a estética minimalista de algumas bandas contemporâneas, o grupo começou a transformar o black metal em algo mais elaborado.
As letras exploram magia, fantasia e elementos associados à mitologia e à cultura nórdica, criando uma atmosfera bastante diferente daquela encontrada nos trabalhos mais crus de Darkthrone e Burzum.
I Am the Black Wizards e Inno a Satana estão entre os grandes destaques do álbum.
In the Nightside Eclipse representa, portanto, uma espécie de segundo estágio na evolução do black metal norueguês: mantém a agressividade e a atmosfera sombria, mas incorpora complexidade, teclados, camadas de guitarra e arranjos mais ambiciosos.
Cinco discos para entender o black metal norueguês
A ideia desta postagem não é afirmar que estes são simplesmente os cinco melhores álbuns de black metal de todos os tempos. A proposta é muito mais específica: apresentar cinco registros que considero fundamentais para compreender um dos períodos mais particulares da história do heavy metal.
Também é importante lembrar que o black metal não nasceu na Noruega. Bandas como Venom, Bathory, Celtic Frost e Hellhammer já haviam estabelecido elementos fundamentais para o desenvolvimento do gênero muito antes da cena norueguesa dos anos 1990.
O que aconteceu na Noruega foi uma combinação particularmente poderosa de sonoridade, estética, isolamento cultural, juventude e busca por identidade, que acabou dando origem àquilo que posteriormente ficou conhecido como a segunda onda do black metal.
Entre 1991 e 1994, aproximadamente, surgiram registros que ajudaram a estabelecer diferentes possibilidades para o gênero. O Darkthrone enfatizou a crueza; o Burzum explorou a melancolia e a atmosfera; o Immortal desenvolveu sua própria identidade; o Mayhem consolidou uma sonoridade extremamente sombria; e o Emperor mostrou que o black metal poderia ganhar uma dimensão muito mais complexa.
Naturalmente, existem muitos outros discos fundamentais. Under a Funeral Moon, Transilvanian Hunger, Pure Holocaust, Beneath the Remains, The Somberlain, Storm of the Light's Bane, entre muitos outros, poderiam facilmente aparecer em uma lista diferente.
Mas estes cinco representam bem aquilo que me interessa nessa fase específica do metal: originalidade, atmosfera, identidade e uma sonoridade que não dependia de grandes recursos de produção para causar impacto.
No fim das contas, talvez seja justamente isso que torne essa época tão interessante. Em um momento no qual quase tudo era gravado com recursos limitados, surgiram alguns dos discos mais influentes da história do metal extremo.
E, como sempre, esta é apenas uma seleção pessoal. A melhor maneira de descobrir se esses álbuns realmente merecem toda essa importância é simplesmente fazer o que eles foram feitos para provocar: colocar os discos para tocar e ouvir com atenção.
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