As picaretagens do show business
As picaretagens do show business
Esta postagem é dedicada a todas as pessoas que baseiam suas opiniões em frases como “não se faz mais música como antigamente!”, tomando como referência não os artistas e suas obras, mas os produtos fabricados pela indústria do entretenimento e exibidos principalmente nas rádios e na televisão.
Para ilustrar o que quero dizer, vou contar uma historinha das antigas.
Era uma vez, no final da década de 1980, uma dupla de rapazes bonitões que, aproveitando um cenário extremamente favorável da música pop, resolveu ingressar no mundo do show business. Encontraram investidores dispostos a bancar a empreitada, construíram uma imagem, contrataram profissionais para gravar as supostas vozes dos integrantes e mergulharam de cabeça no mercado.
Acontece que muita gente comprou aquela farsa e a dupla fez enorme sucesso, chegando inclusive a receber prêmios por sua música. Até que, durante uma apresentação diante de aproximadamente 80 mil pessoas, o playback apresentou problemas em uma das músicas e a farsa veio à tona. A dupla foi ridicularizada, perdeu seus prêmios e ainda enfrentou processos judiciais. Resultado: os envolvidos foram jogados no ostracismo e passaram a ser lembrados principalmente como motivo de chacota.
O pior de tudo é que esse fenômeno da picaretagem realmente existiu e tinha nome: Milli Vanilli.
A dupla era formada por Fab Morvan e Rob Pilatus. O caso do playback é real e se tornou um dos maiores escândalos da história da música pop. Pilatus morreu em 1998, aos 32 anos, em decorrência de uma combinação de álcool e medicamentos.
O playback na música
Mas qual é a relevância dessa história hoje, a ponto de eu dedicar uma postagem inteira ao assunto?
Simples.
Com o passar dos anos, o playback e as bases pré-gravadas foram sendo incorporados gradualmente às apresentações musicais. Primeiro apareceram bases instrumentais e vocais adicionais. Depois, partes dos instrumentos passaram a ser pré-gravadas e, em determinados estilos, a presença de DJs e recursos eletrônicos tornou esse procedimento ainda mais comum.
Até certo ponto, parecia aceitável. Era apenas mais um recurso para aprimorar uma apresentação.
Faço aqui uma ressalva em relação aos artistas que apareciam em programas de televisão, principalmente cantores. Muitas vezes, eles utilizavam playback da parte instrumental para facilitar a produção do programa, já que poderiam apresentar apenas uma música e não havia espaço ou estrutura para montar uma banda completa.
Também existem músicos que levam bases pré-gravadas para workshops de guitarra, baixo ou bateria, permitindo demonstrar suas habilidades sem precisar transportar outros músicos para cada evento. Tudo bem. É um recurso compreensível.
O ideal, evidentemente, seria que tudo fosse executado ao vivo, dando mais espaço para músicos profissionais trabalharem. Mas, nesse contexto específico, ainda considero razoável.
O problema começa quando o recurso deixa de ser um complemento e passa a substituir a própria performance do artista.
Quando o playback vira uma fraude
Então, o premiado astro juvenil Justin Bieber vomita no palco durante um show e sua voz continua sendo ouvida exatamente como estava na gravação, cantando a música como se nada tivesse acontecido.
É o tipo de situação que transforma o playback de recurso técnico em motivo de desconfiança.
Depois vêm Madonna, Britney Spears e tantos outros artistas que foram acusados ou admitiram utilizar playback em determinadas situações. A justificativa costuma ser que um artista não conseguiria cantar e dançar durante todo um espetáculo mantendo o mesmo desempenho vocal.
Pode até haver uma explicação técnica para isso. O que me incomoda é outra coisa.
Estamos pagando por um show ao vivo.
Se uma parte significativa daquilo que deveria estar acontecendo naquele momento já foi gravada anteriormente, até onde podemos chamar aquilo de apresentação ao vivo?
Talvez isso me incomode porque venho de uma época em que o grande barato era justamente ver a coisa acontecendo diante dos nossos olhos: músicos tocando, cantores cantando, erros acontecendo, improvisos surgindo e aquele momento único sendo congelado no espaço.
Ou talvez eu simplesmente não tenha evoluído junto com o restante das coisas e esses conceitos que valorizo tenham ficado fora de moda.
A televisão e o espetáculo fabricado
Outra coisa que me incomodava era o programa Superstar, da Rede Globo, que se apresentava como uma oportunidade para revelar novas bandas de sucesso.
Na minha visão, entretanto, o programa frequentemente apresentava situações que colocavam em dúvida a autenticidade das performances. Houve episódios em que apresentações precisaram ser interrompidas por problemas técnicos ou em que determinados acontecimentos pareciam incompatíveis com aquilo que estava sendo transmitido como uma apresentação ao vivo.
Lembro de situações em que uma música começou de maneira equivocada e precisou ser interrompida, além de momentos em que cantores paravam de cantar ou se emocionavam enquanto a voz continuava sendo reproduzida.
E os jurados continuavam ali, como se estivéssemos diante de apresentações arrebatadoras e absolutamente espontâneas.
É justamente aí que entra a minha crítica: não se trata apenas de utilizar tecnologia. Trata-se de vender uma experiência como espontânea quando existe uma estrutura previamente construída para produzir determinado resultado.
Afinal, o problema é a música atual?
E então volto ao início desta postagem.
Essa é a sua referência para avaliar a música atual?
Você utiliza como parâmetro aquilo que a televisão, o rádio e os grandes veículos de comunicação decidiram colocar diante de você?
Se a resposta for sim, talvez esteja recebendo exatamente aquilo que o seu comodismo permite.
A indústria do entretenimento precisa de audiência. A televisão precisa vender publicidade. As grandes empresas precisam de produtos capazes de alcançar milhões de pessoas. Isso é perfeitamente compreensível do ponto de vista comercial.
O problema é imaginar que aquilo que recebe maior exposição necessariamente representa o melhor que a música tem a oferecer.
Não representa.
Se você realmente gosta de música, não precisa ficar preso ao pacote que os grandes meios de comunicação entregam. Existe uma quantidade enorme de artistas, bandas, compositores e músicos produzindo trabalhos interessantes fora desse circuito.
É preciso garimpar.
Frequentar os poucos bares que ainda oferecem música ao vivo. Conhecer bandas independentes. Ouvir discos completos. Conversar com músicos. Procurar festivais, pequenos eventos, estúdios e produtores independentes.
A internet, inclusive, tornou esse processo muito mais fácil.
Não confunda sucesso comercial com qualidade musical
Talvez a principal mensagem desta postagem seja justamente esta: não confunda exposição na mídia com qualidade artística.
Também não caia no erro contrário de acreditar que tudo aquilo que é produzido atualmente é ruim.
Existem excelentes músicos produzindo música hoje. Existem compositores talentosos, bandas criativas, produtores competentes e artistas independentes fazendo trabalhos que provavelmente jamais chegarão ao horário nobre da televisão.
E isso sempre aconteceu.
O problema é que, quando alguém afirma que “antigamente se fazia música de verdade”, normalmente está comparando aquilo que conheceu de melhor no passado com aquilo que a indústria apresenta de mais superficial no presente.
É uma comparação injusta.
Se você quer descobrir música de qualidade, precisa procurar além daquilo que é colocado diante de seus olhos.
Portanto, faça um favor a si mesmo: desconfie do pacote pronto.
Ouça música de verdade. Procure artistas novos. Dê uma chance às bandas desconhecidas. Vá a shows pequenos. Compre discos. Pesquise. Escute.
E, principalmente, não use os produtos mais comerciais da televisão como parâmetro para decretar que “a música de hoje não presta”.
Talvez o problema não esteja na música.
Talvez esteja naquilo que você escolheu ouvir.

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