As dores do mundo
Já passada a metade da década de 2020, a humanidade segue buscando resolver aqueles problemas antigos e que parecem já terem sido saturados, assim como se depara com novos desafios relacionados às rápidas mudanças tecnológicas que geram mais problemas. O dinheiro, o amor, a saúde, as realizações, os amigos, a família, a profissão e a diversão são elementos comuns nas listas de necessidade de qualquer pessoa e em qualquer época, qualquer discordância desta constatação seria uma forma de ver mundo deturpada, mutilada ou ficcional. Isso não é uma afirmação petulante de um escritor desconhecido deveras pretensioso, mas uma presença constante nos textos e tradições de grandes religiões como o cristianismo e suas vertentes, o islamismo, o budismo, o taoísmo e inúmeras outras culturas, isso sem contar teses e tratamentos elaborados e testados por psicólogos, psiquiatras, cientistas, filósofos, juízes, teólogos e, mais modernamente, influencers. Tais aspectos são fundamentais para que qualquer indivíduo em particular (eu, você, toda humanidade que existe, existiu e ainda está por existir) alcance a felicidade.
Não é de hoje que a busca por construir riqueza ou obter aumento de renda é uma das maiores preocupações das pessoas e encabeça a lista de problemas citados nas rodas de conversa, em terapias ou em manchetes na mídia. Aqueles que pouco dinheiro recebem em suas atividades profissionais sofrem todos os meses para equilibrar despesas e garantir o mínimo para a subsistência de si e de suas famílias. Aqueles que muito geram com seus negócios ou habilidades laborais, passam seus dias preocupados em defender o que já acumularam e continuar aumentando seus ganhos temendo desvalorização, decréscimo de receitas, roubos ou obsolescência no mercado. Diferentes condições que desencadeiam um mesmo sofrimento: a busca por mais dinheiro.
Logo a seguir, a preocupação com a saúde e bem-estar se apresenta como outro fantasma a assombrar a mente das pessoas. Comer adequadamente, se exercitar, se hidratar e ter noites de sono satisfatórias compõem a receita ideal para estar sempre pronto para os desafios do cotidiano. Não à toa, nas redes sociais podemos verificar que aqueles atores que tentam transmitir uma imagem de sucesso financeiro também dedicam tempo e recursos para exibir aparências saudáveis ou em evolução. Os próprios “guias de enriquecimento” atrelam a saúde física ao bom desempenho profissional e financeiro. Isso supõe que os cuidados com a saúde física e mental antecedem a preocupação com as finanças e outros aspectos da vida.
Isso abre espaço para um terceiro ponto de abordagem quando o assunto é dor: a baixa produtividade e a falta de foco. Em um mundo cheio de distrações, fica ainda mais difícil manter a atenção no que realmente importa e se sentir produtivo nas atividades do dia a dia. A baixa capacidade de priorizar aspectos importantes expõe as pessoas a muitos riscos além de limitar seus verdadeiros potenciais. Então, como focar em algo e ser produtivo? Focar no dinheiro para ter maior acesso à saúde ou focar na saúde para aumentar a produtividade e gerar mais dinheiro? Parece que há uma dispersão da atenção já neste ponto de nossa análise onde não há clareza no que trabalhar primeiro.
Com baixa renda, saúde debilitada e limitações de atenção para produzir mais, os indivíduos começam a questionar seus papeis na sociedade. Eles anseiam por pertencer, mas desconhecem seus verdadeiros propósitos. Sem a clareza de objetivo, ninguém consegue escolher com quem precisa andar e facilmente são artificialmente atrelados a grupos identificados por dores e não por objetivos comuns claros e definidos. Embora seja exagero afirmar que todos nós somos a média das cinco pessoas com quem mais nos relacionamos, não é mentira que o ambiente ao redor tem grande influência em quem nos tornamos. Facilmente justificamos esta condição ao tomarmos uma criança como exemplo: ela vai se alimentar com aquilo que o ambiente fornece, usará o mesmo tipo de roupa, falará o mesmo idioma e dialeto, terá até a aparência física dos demais por conta da genética. Em consequência, se não manter contato com uma realidade alternativa, dificilmente alcançará resultados diferentes daqueles com quem convive.
Em um cenário formado pelos aspectos acima, como se desenvolver para superar cada uma dessas dores sem precisar lançar mão de paliativos que somente ajudam a suportá-las? Isso que nem avançamos em nossa conversa para outros aspectos igualmente importantes que compõem o mundo no qual estamos inseridos e onde temos que agir. Será que os remédios ansiolíticos, os calmantes, os antidepressivos, as terapias e os livros de autoajuda podem realmente tratar os infortúnios que sentimos ou são uma espécie macabra de entretenimento adulto típico do século XXI?

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