Por uma vida mais simples
Por uma vida mais simples
Para quem desenvolve centenas de teses sobre diversos assuntos políticos e sociais diariamente, tem opinião sobre tudo e defende ferrenhamente alguma corrente de pensamento, tentarei dar minha humilde contribuição para inserir alguns elementos nessa discussão interminável e normalmente inútil. Creio que, por trás desses “especialistas”, existe uma máquina de propaganda empenhada em viralizar conteúdos na internet para poder vender alguma coisa: seja uma ideia, uma eleição, uma corrente de pensamento e, principalmente, uma nova realidade controlada e fútil.
Enquanto há uma falsa preocupação com a saúde, a infraestrutura, a segurança e a economia, o poder estabelecido quer apenas desviar nossa atenção do que realmente ocorre: corrupção e controle das massas. Existe uma aliança entre esse tipo de governo consolidado e as empresas que o patrocinam.
Quando falo de governo, não estou me referindo apenas ao poder transitório de um partido político, mas também a um poder real que pode ser uma facção criminosa — como se houvesse diferença entre um e outro —, uma grande empresa de mídia ou um expoente religioso. Essa estrutura público-privada garante que a maioria dos recursos econômicos fique à disposição de pequenos grupos, para serem utilizados como bem entenderem.
Governo, grandes empresas e uma massa de manobra desmiolada e volátil formam um ambiente de corrupção, exploração e desigualdade de poderes. Há quem se iluda e acredite que as melhorias necessárias se darão pelas mãos dos políticos e que temos poder para decidir nosso futuro porque possuímos um documento que nos possibilita votar a cada dois anos.
Sim, somos obrigados por lei a votar e exercer nossa cidadania, para legitimar o poder constitucional daqueles que merecem governar pela “vontade popular”.
Ledo engano
Políticos são pessoas que se concentraram em conseguir popularidade e apoio para galgar degraus dentro de um partido político e, assim, concorrer a cargos públicos dentro de uma estrutura consolidada e seletiva. Ou seja, o foco de um político iniciante é fazer alianças e conseguir a permissão de quem já faz parte de todo o processo e possui influência dentro desse contexto, para poder entrar nessa bolha e permanecer nela.
Por esse motivo, na minha visão, um político dificilmente conseguirá apoio para resolver os verdadeiros problemas sociais, pois isso poderia desmontar a estrutura existente. Ele só chegará ao poder de fato se conseguir apoio das pessoas certas, e essas pessoas só apoiam quem pode oferecer algum retorno financeiro.
Resumindo: o jogo político tem como principal objetivo promover quem deve chegar ou se manter no poder. É isso que realmente está em disputa: alcançar o poder e permanecer nele, custe o que custar, para ter acesso ao verdadeiro poder financeiro.
Mesmo se quisessem, muitos desses políticos não teriam a menor condição de administrar uma empresa simples, quanto mais um município, um estado ou um país.
Uma sociedade baseada no consumo descartável
Como se não bastasse esse cenário decepcionante para quem acaba dependendo da boa vontade dessas pessoas e não se beneficia de nenhum esquema proposto por elas, ainda existe, na minha visão, uma forte opressão cultural promovida pelos meios de comunicação e por artistas vinculados a interesses comerciais.
Esses agentes, além de demonstrarem uma necessidade constante de autopromoção, servem como ferramentas para que as empresas que os patrocinam bombardeiem nossa atenção com propagandas de seus produtos.
E como se dá essa oferta?
Tentam nos convencer a adquirir produtos que, além de nem sempre apresentarem a qualidade oferecida, muitas vezes são substituídos em curto prazo: smartphones, computadores, veículos, softwares, eletrodomésticos, entre outros.
Assim sendo, investem em mão de obra de baixo custo e deixam em segundo plano questões como durabilidade e eficiência esperadas pelo consumidor. Na minha interpretação, trata-se de uma estratégia evidente para continuar vendendo e se manter no mercado.
Quando a ideia de livre concorrência se transforma em uma saturação de produtos semelhantes de marcas diferentes, quem padece é o consumidor final, normalmente o menos privilegiado. Para ele, restam os modelos de menor custo e, muitas vezes, de qualidade inferior, destinados a atender aos impulsos de consumo estimulados pela publicidade e pelas pressões sociais.
Há uma superficialidade nunca antes vista na maneira como as pessoas consomem o que quer que seja.
Hoje se compra um eletrodoméstico e, se ele apresentar problemas após o período de garantia — e isso é o que muitas pessoas percebem acontecer —, compra-se um modelo mais atual e joga-se o anterior fora.
Tudo parece ter se tornado descartável: produtos, relacionamentos, amizades, planos, sonhos.
Vivemos em um mundo em que a descartabilidade parece ter se consolidado como estilo de vida.
Informação demais, conhecimento de menos
E qual é a consequência de tudo isso?
Ela é visível. Só não consegue enxergá-la quem não quer.
Temos um bombardeio de ofertas de produtos e ideias durante todo o tempo em que estamos diante de uma televisão, usando um computador ou um telefone conectado à internet.
Há uma juventude sendo rigorosamente instruída a se adequar a essa nova realidade e a acreditar que todo conhecimento está disponível na internet para ser consultado quando necessário. Entretanto, muitas vezes se ignora completamente o valor do conhecimento realmente adquirido.
Tornou-se quase uma obrigação para um adolescente de 12 anos, ou até menos, ter um smartphone com conexão à internet para utilizar WhatsApp, YouTube, Facebook e tantas outras plataformas que estão na moda.
Esse mesmo adolescente precisa ter roupas e acessórios que garantam sua inclusão em determinado grupo, para não se sentir excluído e sofrer as consequências psicológicas dessa exclusão.
A ele parece ser permitido até mesmo agredir e ofender professores e pais, enquanto estes enfrentam cada vez mais dificuldades para estabelecer limites e exercer sua autoridade.
Esse é um dos aspectos mais sérios e problemáticos da sociedade atual.
Nossas crianças estão crescendo, na minha percepção, sem referências suficientemente sólidas de valores morais e éticos, disciplina e respeito. Vemos professores sendo agredidos em salas de aula e pais enfrentando filhos sem limites claros de convivência.
Então entra em cena um governo que alega defender o bem-estar dessas crianças. Entretanto, muitas vezes não possui estrutura, pessoal qualificado ou recursos suficientes para acolher aqueles adolescentes que realmente são oriundos de lares violentos e abusivos.
Quando um assistente social interfere em uma situação familiar problemática, sabe que nem sempre existem condições para que esse menor seja amparado em uma instituição capaz de realmente atendê-lo.
Uma pessoa que agride um filho, expondo-o à violência física e psicológica, poderá continuar fazendo isso independentemente da existência de uma lei. Na minha visão, leis, por si só, não são capazes de impedir todos os crimes.
O próprio sistema carcerário impõe limites que dificultam a aplicação integral das punições previstas em lei para agressores e outros criminosos.
Enquanto isso, crianças que não sofrem abusos em casa podem ser vítimas de ladrões que procuram roubar seus telefones e acessórios quando elas saem às ruas para ir à escola, brincar ou realizar qualquer outra atividade que as exponha.
Esses produtos podem acabar sendo vendidos por preços muito abaixo do mercado para outras pessoas que não têm condições de adquirir aparelhos novos, mas que, mesmo assim, se esforçam para satisfazer a necessidade de não ficar para trás na “modinha de consumo” imposta pela sociedade.
A influência do governo, da mídia e do mercado
Se formos levantando assuntos triviais da nossa realidade, veremos que, em praticamente todos os aspectos da nossa vida, existe alguma influência do governo e/ou da mídia.
Ambos, na minha interpretação, trabalham frequentemente em estreita relação com grandes empresas e procuram garantir sua própria subsistência dentro de seus respectivos meios.
Esses conglomerados promovem artistas de qualidade e intenções discutíveis e deixam de lado uma cultura que considero mais verdadeira, feita por quem realmente vive a arte que produz.
É quase impossível, para alguém que nasceu depois dos anos 1980, pensar de forma completamente isenta sobre qualquer assunto. Sempre haverá a pressão de um grupo, da mídia ou de uma moda passageira pautando determinado tema.
O mundo como o conhecemos parece ter se rendido ao consumismo barato e à futilidade do pensamento.
A população em geral parece ter dificuldade para agir em defesa do bem comum e, muitas vezes, sequer consegue definir o que seria esse bem comum.
Para ajudar, quando decidiram realizar uma Copa do Mundo no Brasil, vendeu-se a ideia de que o país era uma economia emergente, que os empregos estavam garantidos e que haveria grande progresso econômico e social.
Toda essa propaganda, na minha interpretação, serviu para atrair investimentos que acabaram direcionados aos interesses de determinados grupos políticos e empresariais.
O resultado foi uma continuidade do poder político existente naquele período. Menos de um ano depois das eleições, o país mergulhou em uma crise que, naquele momento, parecia só tender a piorar com o passar do tempo.
Até nossa alimentação entrou nessa lógica
Até nossa alimentação sofre com todas essas ações político-empresariais.
Temos uma enorme concentração de pessoas nos grandes centros urbanos, enquanto a produção de alimentos passa por processos industriais cada vez mais complexos.
A produção começa a ser alterada já em suas etapas mais primárias. Animais são submetidos a processos destinados a acelerar seu crescimento e aumentar a produtividade. Frutas, verduras e outros produtos agrícolas podem receber tratamentos químicos e passar por processos de conservação que modificam suas características originais.
Isso sem contar a forma como esses produtos são armazenados, transportados e oferecidos nos grandes mercados.
O produtor recebe pouco por aquilo que fornece, enquanto o consumidor paga caro por um produto que pode chegar às prateleiras depois de passar por diversos processos de transformação e distribuição.
Quem mais lucra, na visão apresentada neste texto, é o governo, que arrecada impostos ao longo da cadeia produtiva e comercial, enquanto o consumidor final acaba arcando com uma grande parte dos custos.
O preço da vida moderna
Como visto nos simples e triviais relatos acima, temos que pagar caro por produtos que considero de baixa qualidade, recebemos informação descartável e cultura superficial o tempo todo e ainda financiamos tudo isso com o fruto do nosso trabalho.
Servimos de gado para quem realmente controla o dinheiro e, por consequência, exerce grande influência sobre a sociedade.
Financiamos toda a corrupção do governo e apoiamos decisões políticas por meio do nosso “sagrado” direito ao voto.
A contrapartida que recebemos, segundo a minha percepção, é violência, saúde precária, escolas com problemas estruturais e pedagógicos e milhões de promessas para que tudo continue assim e pouco seja efetivamente transformado.
Nossa cultura acaba reduzida à boa vontade do mercado, como se tivesse pouco ou nada a ver com música, literatura, folclore ou herança familiar.
Nossas escolas nem sempre ensinam a pensar como deveriam.
Nossos hospitais e postos de saúde enfrentam dificuldades para tratar doenças e prevenir epidemias.
Nosso transporte público, em muitos lugares, é uma piada sem graça, cujo objetivo parece ser colocar o maior número possível de pessoas em veículos cada vez menores e mais precários.
Não estamos seguros em casa, nas ruas ou em qualquer outro lugar. Mesmo assim, enchemos nossas janelas e portas de grades e nossas casas e estabelecimentos comerciais de câmeras de segurança e, ainda assim, continuamos sujeitos a assaltos e outras formas de violência.
Viver de forma mais simples
Só existe uma forma realmente poderosa e eficaz contra tudo isso, na minha visão: viver de forma mais simples, gastando pouco e se desprendendo da futilidade cotidiana.
Talvez seja possível fugir dos grandes centros, plantar temperos e frutas no quintal, deslocar-se a pé ou de bicicleta, visitar parentes e amigos em vez de ficar apenas trocando mensagens pelo celular, desligar a televisão e ler um bom livro, assistir a filmes antigos e brincar com as crianças.
Podemos acampar no quintal de casa durante o verão e contar histórias aos mais jovens.
Isso pode fazer com que muitos conceitos mudem e que nossos valores também sejam repensados.
Enquanto ficarmos espremidos em apartamentos, ônibus ou calçadas, continuaremos sujeitos à violência, à exploração e às estruturas de poder que influenciam nossa vida.
Tudo passa por uma reeducação que precisa abranger a totalidade dos nossos estilos de vida.
Não se trata de uma revolta total e radical contra a modernidade. Precisamos, porém, reaprender a viver em sociedade e utilizar nossos recursos de forma racional, controlando também nossos impulsos mais superficiais.
Computadores, smartphones e todas as demais tecnologias são apenas ferramentas. Nada mais do que isso.
Eles não deveriam definir um estilo de vida nem garantir status social. Podem facilitar nossa existência, mas também nos tornam dependentes de estruturas econômicas e tecnológicas que nem sempre controlamos.
Então fica a pergunta:
Vamos nos preparar para viver com o básico e deixar que todo esse império caia lenta e dolorosamente?
Seria isso possível?
Alguém realmente deseja que algo assim aconteça?
Ao longo da história, tantos reinos e impérios já ruíram por não saberem administrar e distribuir seus recursos para garantir a própria subsistência. Ainda assim, o povo continuou existindo, carregando sua história e sua cultura e adaptando-se ao que acontecia ao seu redor.
Muitas vezes, as próprias pessoas foram protagonistas dessas mudanças.
O grande receio é que, desta geração, não sobre nada além de lixo tecnológico.
Por uma vida mais simples
Por uma vida mais simples, em que crianças possam brincar, aprender a ler e escrever corretamente, discutir sobre suas realidades e viver sua cultura sem violência e corrupção.
Uma vida em que os mais velhos multipliquem histórias e conhecimentos, em vez de apenas compartilhar memórias.
Em que adolescentes pratiquem esportes, namorem, estudem e desenvolvam senso crítico e coletivo, em vez de viverem permanentemente submetidos à exposição e às futilidades das redes sociais.
Eu sei que é possível porque eu vivi isso.
Estamos muito defasados porque não formamos bons médicos, bons professores e bons profissionais em quantidade suficiente. Portanto, precisamos correr atrás de tudo isso hoje para poder colher algum benefício amanhã.
Só uma volta ao convívio familiar, uma disciplina reformulada a partir de bases sólidas e uma vida mais simples poderão, na minha visão, nos reconduzir ao caminho da virtude e possibilitar a queda do império da futilidade e do consumo descartável.

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