5 álbuns importantíssimos para o punk rock
5 álbuns importantíssimos para o punk rock
Antes de escrever qualquer coisa a respeito dos álbuns que vou citar, quero deixar claro que não sou um profundo conhecedor do punk rock e tampouco defendo esta ou aquela tendência dentro do movimento — se é que ainda existem punks engajados em alguma delas. Também não sou contra nem a favor dos diferentes movimentos que surgiram no Brasil ou no exterior. O objetivo desta postagem é falar principalmente sobre a música produzida por algumas bandas que considero fundamentais para a história do punk rock.
Como qualquer outra vertente musical que marcou época, o punk trouxe uma contribuição valiosa, tanto musical quanto estética, para as gerações posteriores aos anos 1970. Atitude rebelde, letras que refletiam o cenário político e social, drogas, conflitos de gangues e contestação sempre estiveram presentes em diferentes momentos da cultura punk.
Existe uma literatura bastante rica sobre o movimento, além de documentários que conseguem contextualizar essa história muito melhor do que qualquer texto que eu pudesse escrever aqui. Portanto, não pretendo fazer uma análise histórica do punk rock, mas apenas registrar cinco álbuns que considero importantíssimos para o gênero e que, de alguma maneira, fizeram parte da minha formação musical.
Não posso — e nem quero — esconder minha preferência pelo heavy metal. Talvez justamente por isso seja interessante observar o trabalho dessas bandas: apesar das diferenças estéticas e musicais, o punk rock influenciou inúmeros artistas e estilos que vieram depois.
Vamos nos concentrar na música.
1. Fresh Fruit for Rotting Vegetables — Dead Kennedys
Fresh Fruit for Rotting Vegetables, primeiro álbum de estúdio do Dead Kennedys, foi lançado em 2 de setembro de 1980. As gravações aconteceram entre maio e junho daquele ano, no Möbius Music, em San Francisco, com produção de Norm e East Bay Ray e engenharia de som de Oliver DiCicco. A formação reunia Jello Biafra nos vocais, East Bay Ray na guitarra, Klaus Flouride no baixo e Ted (Bruce Slesinger) na bateria.
A capa do álbum utiliza uma fotografia de carros de polícia em chamas registrada durante os chamados White Night Riots, ocorridos em San Francisco em 21 de maio de 1979, após a sentença considerada branda dada a Dan White pelo assassinato do prefeito George Moscone e do supervisor Harvey Milk. Portanto, a referência original a 1978 precisava ser corrigida.
Talvez a banda não tivesse alcançado a mesma relevância no cenário punk se, à frente dos músicos, não estivesse Eric Reed Boucher, o Jello Biafra. Não vou entrar aqui em detalhes sobre a vida e a obra do controverso vocalista — isso mereceria um capítulo à parte. Para o momento, basta dizer que sua voz e suas ideias estão presentes em músicas como Kill the Poor, California Über Alles e o clássico Holiday in Cambodia.
Jello Biafra sempre foi uma figura polêmica, com opiniões fortes sobre política e sociedade, e o Dead Kennedys acabou se transformando em uma plataforma perfeita para essas ideias. Musicalmente, o álbum apresenta uma sonoridade surpreendentemente coesa para um disco de punk/hardcore daquele período.
Além das três faixas já mencionadas, Drug Me, Your Emotions, Chemical Warfare e Viva Las Vegas ajudam a construir um álbum extremamente consistente.
Tive alguns amigos profundamente ligados ao punk e, naquela época, o Dead Kennedys era uma referência praticamente obrigatória. Hoje, Fresh Fruit for Rotting Vegetables continua sendo considerado um dos discos fundamentais da história do punk rock e do hardcore.
2. Never Mind the Bollocks, Here's the Sex Pistols — Sex Pistols
Primeiro, uma correção importante no título: o nome correto é Never Mind the Bollocks, Here's the Sex Pistols, e não "Never Mind On The Bollocks".
Lançado originalmente no Reino Unido em 28 de outubro de 1977 e nos Estados Unidos em novembro daquele ano, o único álbum de estúdio dos Sex Pistols poderia facilmente ser colocado ao lado de trabalhos de bandas clássicas do rock pela importância que alcançou para diversas gerações — não apenas para o punk rock.
Johnny Rotten ficou responsável pelos vocais, Steve Jones pelas guitarras, Paul Cook pela bateria e Sid Vicious era o baixista da formação naquele período. Entretanto, há uma particularidade importante nas gravações: grande parte das linhas de baixo do álbum foi executada por Steve Jones, enquanto Sid Vicious participou efetivamente da gravação de baixo de "Bodies", cuja parte acabou recebendo posteriormente um overdub de Jones. Algumas faixas também utilizam material gravado anteriormente com Glen Matlock, baixista original da banda.
As sessões principais aconteceram no Wessex Sound Studios, em Londres, em diferentes períodos de 1977. A produção ficou a cargo de Chris Thomas, com Bill Price como engenheiro de gravação.
Musicalmente, o álbum reúne Liar, Problems, Submission, Bodies e os clássicos God Save the Queen e Anarchy in the U.K., músicas que foram posteriormente regravadas, reinterpretadas e copiadas por artistas dos mais variados estilos.
As polêmicas envolvendo a formação da banda, a figura mitológica de Sid Vicious e a devoção de boa parte dos punks ao álbum contribuíram para transformar Never Mind the Bollocks em uma obra emblemática do movimento.
Independentemente de toda a mitologia criada em torno dos Sex Pistols, existe algo que não pode ser ignorado: o álbum é musicalmente forte e se tornou um dos grandes clássicos do rock.
Assim como no caso dos Dead Kennedys, há fontes muito melhores do que eu para contar a história da banda. Aqui, quero apenas destacar este grande disco, que continua entre os meus favoritos.
3. Rocket to Russia — Ramones
Rocket to Russia, terceiro álbum de estúdio dos Ramones, foi lançado em 4 de novembro de 1977 pela Sire Records. As gravações aconteceram principalmente entre agosto e setembro daquele ano, no Mediasound Studios, em Nova York, com produção de Tony Bongiovi e Tommy Ramone, creditado como T. Erdelyi. Ed Stasium foi o engenheiro de som e também teve participação importante na mixagem.
A formação era aquela que se tornaria histórica: Joey Ramone nos vocais, Johnny Ramone na guitarra, Dee Dee Ramone no baixo e Tommy Ramone na bateria. O álbum ainda contou com participações adicionais de Ed Stasium e vocais de apoio em algumas faixas.
Vou ser sincero: eu não gosto tanto de Rocket to Russia. Parece estranho dizer isso em uma lista de álbuns indispensáveis, mas estas listas são particulares e representam principalmente a minha opinião.
E explico o motivo.
Os Ramones já apresentavam uma sonoridade que, embora seja frequentemente associada ao punk, possuía características muito particulares: músicas extremamente simples, diretas, curtas e construídas sobre estruturas que ajudaram a estabelecer uma nova linguagem para o rock.
Entretanto, algumas músicas de Rocket to Russia são tão importantes para tudo o que aconteceu musicalmente nos anos seguintes que é impossível negar a relevância do álbum.
Rockaway Beach, Cretin Hop, Sheena Is a Punk Rocker, Teenage Lobotomy e Surfin' Bird são exemplos evidentes.
Mais do que isso, este disco foi fundamental para consolidar a popularidade dos Ramones e sua influência sobre gerações posteriores de roqueiros e punks.
É também um registro histórico de uma formação original que desapareceria progressivamente. Tommy Ramone deixou a bateria após este ciclo, e Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy acabaram se tornando personagens fundamentais na história do punk rock.
Por isso mesmo, fica aqui minha homenagem a esses quatro músicos que ajudaram a romper com os excessos do rock dos anos 1970 para fazer um som simples, direto, intimista e inteligente, capaz de conquistar diferentes gerações.
4. Brasil — Ratos de Porão
Brasil, lançado em 1989, é um dos discos brasileiros que mais me impressionaram dentro do punk, hardcore e crossover. O álbum foi gravado em junho de 1989 no Music Lab Studio, em Berlim, Alemanha, durante a passagem da banda pela Europa, e produzido por Harris Johns, conhecido por seu trabalho com diversas bandas de metal alemãs.
A formação reunia João Gordo nos vocais, Jão na guitarra, Jabá no baixo e Spaghetti na bateria. O disco também contou com vocais de apoio de David Pollack, Archi e Frank Preece.
O álbum surgiu depois da repercussão internacional de Cada Dia Mais Sujo e Agressivo e foi registrado em duas versões, em português e em inglês, como parte da estratégia de lançamento internacional da Roadrunner Records. A versão em português acabou se tornando a mais duradoura e emblemática.
Podem falar mal de João Gordo por vários motivos, questionar a classificação da banda ou discutir se Ratos de Porão é punk, hardcore ou crossover. Isso faz parte das intermináveis discussões de quem gosta de música pesada.
Mas, quando se escuta Brasil, essas classificações começam a importar menos.
O que encontramos é uma banda extremamente agressiva, com produção muito mais refinada do que a de muitos trabalhos anteriores do grupo e uma temática profundamente ligada ao cenário político e social brasileiro do final dos anos 1980.
A produção de Harris Johns teve papel importante nesse resultado. O produtor, acostumado a trabalhar com bandas de metal, ajudou o Ratos de Porão a explorar uma sonoridade mais definida e adequada ao impacto que aquelas músicas poderiam causar.
Para mim, Brasil continua sendo uma referência em termos de sonoridade e composição. O mais interessante é que suas letras permanecem capazes de provocar reflexão décadas depois de seu lançamento.
A sonoridade transita pelo hardcore e pelo thrash metal, criando aquele crossover que tornou o Ratos de Porão uma das bandas brasileiras mais importantes da música pesada internacional.
Quem conseguir deixar de lado preconceitos de qualquer natureza e simplesmente ouvir o álbum encontrará cerca de meia hora de música intensa, agressiva e carregada de informação.
5. Canções para Ninar — Garotos Podres
O que esperar de um álbum gravado e lançado em 1993, produzido por Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, e chamado Canções para Ninar?
Bomba!
Mas, neste caso, estou falando de bomba no bom sentido.
Canções para Ninar é o terceiro álbum de estúdio dos Garotos Podres e foi lançado pelo selo Radical Records. O disco foi gravado no estúdio R.A.C., em São Paulo, utilizando uma mesa de 24 canais, e teve produção de Roger Moreira.
A formação apresentada no álbum era composta por Mao nos vocais, Mauro na guitarra e vocais, Sukata no baixo e Português na bateria.
Com letras contestadoras, humor ácido e uma sonoridade mais polida do que a dos primeiros trabalhos, este álbum não precisa representar necessariamente um movimento específico. Ele funciona também como um registro musical de parte do sentimento que permeava o imaginário de muitos brasileiros no início dos anos 1990.
Oi, Tudo Bem?, Fernandinho Veadinho, Saddam Hussein Is Rock 'N' Roll, Rock de Subúrbio, Censura Idiota, Mordomia, Surfista de Pinico e Aos Fuzilados da CSN formam um repertório extremamente característico da banda.
"Rock de Subúrbio" ganhou o primeiro videoclipe do grupo, enquanto "Aos Fuzilados da CSN" marcou uma aproximação com o ska. A música aborda a violência ocorrida durante a greve da Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, em 1988.
Juntamente com Brasil, do Ratos de Porão, este disco pode ser encarado como um registro histórico de uma determinada realidade social brasileira do período.
Não tem como ouvir Fernandinho Veadinho sem entrar em um túnel do tempo e voltar ao início dos anos 1990. Surfista de Pinico também retrata muito bem determinados personagens daquela geração, enquanto Oi, Tudo Bem? mostra a capacidade da banda de produzir músicas curtas, diretas e memoráveis.
É um daqueles discos que conseguem ser contestadores sem abrir mão do humor.
Cinco discos, cinco visões do punk rock
Não busquei aqui contar a história completa do punk rock nem ser absolutamente justo ao avaliar cada uma dessas obras. A proposta foi muito mais simples: citar cinco álbuns que tiveram impacto sobre mim e que considero fundamentais para compreender diferentes faces do punk rock.
Bandas como Cólera, Inocentes, Olho Seco, The Clash, Misfits, GBH, Rattus, The Exploited, The Stooges e tantas outras poderiam facilmente aparecer em uma lista como esta. No cenário brasileiro, inclusive, existem trabalhos que representam de maneira muito mais abrangente determinadas vertentes do movimento punk nacional.
Mas esta é uma lista pessoal.
No cenário internacional, eu poderia ter citado The Massacre, do The Exploited, no lugar de Rocket to Russia. Entretanto, seria incoerente com meu próprio critério, pois considero aquele trabalho muito mais próximo do metal do que do punk e ele sequer representa tão bem a trajetória da banda. Gosto da sonoridade, mas isso seria uma escolha muito particular e não necessariamente acrescentaria algo ao leitor.
Por isso, ficam também as menções honrosas a GBH, Rattus, The Clash, Misfits, The Stooges, The Exploited e a tantas outras bandas que tiveram importância enorme na construção do punk rock e influenciaram diferentes gerações.
Como a ideia era apresentar as minhas cinco indicações, aí estão elas.
Bom proveito.
Punk rock além da ideologia
Para finalizar, embora eu não concorde necessariamente com o direcionamento político presente em muitas das bandas citadas, especialmente nas brasileiras, existe uma questão que considero fundamental quando analisamos uma obra artística: é preciso compreender o contexto histórico em que ela foi criada.
Sou contemporâneo de boa parte desses acontecimentos e conheci diretamente o ambiente cultural em que muitos desses discos surgiram. Por isso, não posso simplesmente ignorar a veracidade dos relatos presentes nessas músicas ou a honestidade com que muitos artistas expressaram suas ideias.
As letras refletem uma determinada realidade temporal e social. Podem ser contestadas hoje, assim como eram contestadas na época, mas isso não elimina sua importância artística e histórica.
Afinal, naquele período, essas eram algumas das ideias que circulavam nas conversas do meu grupo, nas rodas de amigos e nos botecos.
E talvez seja justamente por isso que esses cinco álbuns continuem sendo tão interessantes: eles não apenas representam o punk rock. Eles registram uma época.
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