5 álbuns injustiçados

5 álbuns injustiçados

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Grandes discos que merecem uma nova audição

Algumas pessoas têm me questionado sobre a forma como escolho e falo sobre as bandas e os álbuns que aparecem nesta série. Na verdade, nem considero essas publicações propriamente indicações. Elas são uma mistura de memórias afetivas, lembranças de discussões com amigos e impressões obtidas em críticas de revistas e sites especializados.

Para escrever sobre cada disco, faço algumas recapitulações e procuro ouvir atentamente os trabalhos novamente. Não faço uma descrição faixa a faixa nem pretendo realizar uma análise técnica aprofundada. Limito-me a contextualizar o momento da banda, mencionar a data de lançamento e destacar alguns aspectos que considero interessantes para estimular a curiosidade de quem pretende ouvir o álbum. A ideia é justificar uma possível audição e apresentar ao leitor uma espécie de receita musical que pode agradar — ou não — ao seu “paladar” auditivo.

O mais importante é que a pessoa pare e ouça com atenção, principalmente quando não conhece o trabalho, deixando de lado preconceitos e ideias preconcebidas.

Outra questão frequente diz respeito ao meu gosto musical. Afinal, como alguém que fala de black metal norueguês, punk rock, hard rock, thrash metal, death metal e tantos outros estilos pode fazer essas escolhas? Na verdade, tenho preferência por determinados gêneros, mas isso não significa que ignore bons trabalhos de origens e estilos variados. Também não sou do tipo que segue uma cartilha de gosto musical ou politicamente correta: uso meu próprio ouvido e minhas experiências como guia. Vez ou outra, faço concessões a trabalhos que não fazem muito o meu gosto, mas reconheço sua importância histórica ou artística.

Depois dessa explicação, vamos aos cinco álbuns injustiçados desta semana. Em comum, eles tiveram algum tipo de reconhecimento posterior, foram parcialmente esquecidos ou acabaram sendo ofuscados pelas expectativas criadas em torno das respectivas bandas.

Também existem alguns elementos recorrentes: mudanças importantes na formação, substituição de integrantes fundamentais, expectativas enormes por parte dos fãs e, consequentemente, frustração quando o resultado não correspondia ao que o público esperava.


1. Eternal Idol — Black Sabbath

Eternal Idol é quase um álbum acidental do Black Sabbath. Sua produção começou logo após o término da turnê de Seventh Star, mas a formação sofreu diversas mudanças durante o processo. Glenn Hughes foi substituído por Ray Gillen, que chegou a gravar os vocais, mas deixou a banda pouco depois. Dave Spitz, no baixo, e Eric Singer, na bateria, também acabaram deixando o grupo.

Depois de todas essas idas e vindas, Tony Martin assumiu os vocais, gravou o álbum e posteriormente seguiu com a banda em turnê.

Lançado em 1º de novembro de 1987, Eternal Idol pertence a uma fase nebulosa da carreira do Black Sabbath. Tony Iommi era o único integrante remanescente da formação original, sem Ozzy Osbourne ou Ronnie James Dio nos vocais.

Apesar de todas essas controvérsias, o disco apresenta boas músicas, como “The Shining”, “Glory Ride” e “Born to Lose”. Evidentemente, está muito distante de obras como Black Sabbath, Paranoid e Vol. 4, mas também não considero que seja inferior a trabalhos como Technical Ecstasy, Never Say Die! ou mesmo Seventh Star.

Já ouvi pessoas dizerem que Eternal Idol é o pior álbum do Black Sabbath. Particularmente, consigo citar pelo menos cinco trabalhos da banda que colocaria abaixo dele. Analisado isoladamente, é um disco bastante interessante e que merece uma nova audição.

Há, inclusive, diferentes versões disponíveis na internet, algumas delas contendo material originalmente gravado por Ray Gillen.


2. Native Tongue — Poison

Native Tongue é um álbum que mistura gospel, rhythm and blues e hard rock de uma maneira que poderia surpreender os fãs acostumados ao Poison dos anos 1980.

Richie Kotzen havia entrado para a banda ainda jovem, mas já carregava prestígio por seu trabalho solo e como guitarrista. Sua contribuição para as composições do álbum é enorme. Além das guitarras, seus vocais aparecem em diversas faixas.

E é justamente aí que está uma das grandes diferenças em relação aos trabalhos anteriores. Enquanto C.C. DeVille apostava em arranjos e solos mais diretos, além de timbres bastante extravagantes, Kotzen trouxe uma abordagem mais minuciosa, incorporando groove, swing e uma linguagem mais sofisticada às músicas.

Mesmo provocando rejeição entre parte dos fãs, o disco passou a ser respeitado por críticos e por ouvintes que jamais tiveram grande simpatia pelo glam metal do quarteto.

Lançado em 8 de fevereiro de 1993, Native Tongue acabou se tornando um dos trabalhos mais interessantes da discografia do Poison. Para mim, é justamente um daqueles casos em que vale a pena deixar de lado o visual, a fama e os exageros associados à banda e simplesmente ouvir a música.

O resultado pode surpreender.


3. Mötley Crüe — Mötley Crüe

Outro álbum extremamente injustiçado é o Mötley Crüe, lançado em 15 de março de 1994.

Sexto álbum de estúdio da banda, é também o único sem Vince Neil nos vocais. Naquele momento, Neil havia seguido carreira solo, e John Corabi assumiu a posição de vocalista.

O que encontramos nesse disco vai muito além do que boa parte dos fãs do Mötley Crüe esperava — e talvez esse tenha sido justamente o seu maior problema.

As guitarras são pesadas, com arranjos bem elaborados, timbres cuidadosamente escolhidos e efeitos utilizados de maneira bastante eficiente. O baixo é encorpado e bem integrado às composições, enquanto a bateria apresenta o excelente timbre e a pegada característica de Tommy Lee.

Os vocais são mais intensos e versáteis do que aqueles apresentados pela banda em trabalhos anteriores.

Se analisarmos com atenção, é possível perceber algumas semelhanças entre esse Mötley Crüe e o Load, do Metallica. A relação não é tão absurda quanto poderia parecer: ambos representam bandas extremamente diferentes tentando se adaptar a um cenário musical que havia mudado radicalmente.

Essa aproximação também passa pela produção de Bob Rock, que naquele período trabalhava justamente com essa ideia de modernizar e ampliar a sonoridade de grandes bandas de rock e metal.

É curioso observar que, aproximadamente dez anos antes, o thrash metal de bandas como o Metallica havia surgido, em certa medida, como uma reação ao glam metal de Los Angeles. Na metade dos anos 1990, porém, essas duas vertentes acabaram se aproximando artisticamente.

Talvez isso ajude a explicar a recepção complicada de ambos os discos.

O álbum chegou à 7ª posição da Billboard 200, mas não correspondeu às expectativas comerciais da gravadora. Pouco tempo depois, Vince Neil retornaria à banda, que posteriormente lançaria Generation Swine.

Independentemente disso, o álbum com Corabi merece ser ouvido como uma obra própria, sem a obrigação de compará-lo permanentemente ao Mötley Crüe dos anos 1980.


4. Load — Metallica

Depois do enorme sucesso mundial do chamado Black Album, lançado em 1991, e de uma longa fase de divulgação, o Metallica precisou lidar com problemas internos, questões relacionadas à gravadora e uma expectativa gigantesca em torno do trabalho seguinte.

Seria impossível simplesmente lançar um novo Metallica ou retornar ao som cru e veloz dos primeiros discos. A banda havia mudado, conquistado novos públicos e alcançado uma dimensão que tornava qualquer tentativa de voltar ao passado potencialmente artificial.

Entre 1991 e 1994, especialmente, o Metallica mudou de patamar. O grunge havia tomado conta de boa parte da mídia, o metal underground concentrava atenção em gêneros como death metal e black metal, enquanto bandas tradicionais de heavy metal e hard rock enfrentavam dificuldades.

Nesse cenário, Pantera e Sepultura ganhavam destaque, enquanto o nu metal começava a deixar sua fase embrionária.

O que esperar do novo Metallica? Um segundo Black Album? Uma volta às origens? Uma aproximação com o nu metal?

A resposta foi completamente diferente.

Lançado em 4 de junho de 1996, Load apresentou uma banda visual e musicalmente transformada. Os integrantes apareceram de cabelos curtos, e a capa utilizou uma imagem produzida pelo artista Andres Serrano a partir da mistura de sangue e sêmen.

O título poderia sugerir algo mais moderno e tecnológico, mas é justamente isso que menos se percebe no álbum.

A sonoridade ficou mais amena, direta e alternativa. Olhando retrospectivamente, entretanto, esse caminho parece bastante natural. O próprio Black Album já apontava para uma abordagem mais acessível, pesada e menos preocupada com a velocidade dos primeiros trabalhos.

Em termos de produção, Bob Rock e a banda parecem retomar de onde haviam parado, mas com um processo mais cooperativo e relaxado.

Durante as sessões, realizadas entre maio de 1995 e fevereiro de 1996, o Metallica trabalhou com solos mais melódicos e abandonou parte das frases velozes em favor de novas texturas, incluindo slide guitar já em “Ain't My Bitch”.

“2x4” apresenta um groove que lembra o Pantera, porém com uma produção mais polida. A combinação entre melodia e peso aparece de maneira marcante em “The House Jack Built” e “Until It Sleeps”.

“King Nothing” é um dos momentos mais pesados do disco e poderia facilmente ser associado a trabalhos anteriores da banda. “Hero of the Day”, por sua vez, apresenta uma abordagem mais comercial, mas também explora ritmos e contrastes que não eram tão comuns no repertório do Metallica.

A partir de “Bleeding Me”, entretanto, o álbum começa a se repetir e, particularmente para mim, torna-se cansativo. São quase 80 minutos distribuídos em 14 faixas, e a duração acaba pesando contra o conjunto.

Ainda assim, Load passa muito longe de ser o desastre que muitos consideraram na época.

Outro aspecto importante é a evolução dos vocais de James Hetfield. Cantando de maneira mais moderada, ele apresenta uma afinação mais precisa e um timbre trabalhado de forma diferente.

Tudo isso precisa ser levado em consideração antes de simplesmente descartar o álbum por não ser parecido com Master of Puppets, Ride the Lightning ou ...And Justice for All.


5. Virtual XI — Iron Maiden

Lançado em 23 de março de 1998, Virtual XI é um álbum peculiar por diversos motivos.

Naquele período, Steve Harris havia passado por mudanças pessoais importantes, enquanto o Iron Maiden continuava trabalhando com o vocalista Blaze Bayley, cuja participação no álbum anterior, The X Factor, havia decepcionado parte dos fãs.

Ao mesmo tempo, o heavy metal atravessava um dos seus períodos mais difíceis. O cenário musical havia mudado profundamente, e o Iron Maiden precisava encontrar uma maneira de continuar produzindo em meio a esse novo contexto.

Virtual XI também carregava o peso de ser sucessor de The X Factor, um disco que já havia dividido opiniões.

Ainda assim, há aspectos interessantes quando o álbum é analisado individualmente. Os investimentos em tecnologia, design gráfico e conceitos futuristas ajudam a construir uma identidade própria para o trabalho.

É preciso esquecer, por alguns minutos, que estamos diante da mesma banda que gravou The Number of the Beast e Piece of Mind.

Aliás, particularmente, não considero Virtual XI inferior a No Prayer for the Dying, por exemplo. Foi justamente esse álbum que ouvi quando comecei a conhecer o Iron Maiden, e minha relação com ele acabou sendo diferente daquela construída posteriormente com os grandes clássicos da banda.

O disco apresenta algumas características que remetem a diferentes momentos da carreira do Iron Maiden. A capa, o formato mais enxuto, com oito músicas, os climas instrumentais e alguns teclados e sintetizadores podem lembrar trabalhos como The Number of the Beast e Seventh Son of a Seventh Son, embora a comparação pare por aí.

Continua sendo Iron Maiden, sem dúvida alguma.

Mas a ausência de Bruce Dickinson e Adrian Smith é bastante perceptível, especialmente porque a dupla havia retornado à banda e, paralelamente, apresentava uma alternativa musical muito forte fora dela.

A produção é cuidadosa, como se poderia esperar de uma banda do tamanho do Iron Maiden.

Particularmente, gosto do álbum e considero muito fácil afirmar que ele é simplesmente o pior registro da banda ou um dos piores discos da história do heavy metal. Com o tempo, aprendemos a compreender melhor determinadas escolhas e a contextualizar os momentos em que nossos artistas favoritos nos decepcionam.

Virtual XI precisa ser ouvido dentro das condições em que foi produzido e lançado. Isso não diminui o valor dos demais álbuns do Iron Maiden, mas também não significa que este trabalho deva ser descartado simplesmente porque não corresponde às expectativas criadas pelos clássicos da banda.


Afinal, por que esses álbuns são injustiçados?

Deixo claro que esta é simplesmente a minha opinião sobre essas obras.

Particularmente, considero Native Tongue o melhor álbum do Poison — uma banda da qual não sou exatamente fã, embora tenha simpatia por sua trajetória.

Da mesma forma, acho que o Mötley Crüe poderia ter mudado de nome ou lançado aquele trabalho com outro título. Talvez a banda pudesse ter permanecido mais alguns anos com John Corabi nos vocais. Musicalmente, seria uma experiência interessante.

Quanto ao Iron Maiden, é difícil fazer qualquer crítica sem levar em consideração o tamanho da banda e a enorme legião de fãs que continua se renovando a cada geração. Entretanto, a banda sempre trabalhou intensamente e apostou alto em seus discos. Por isso, é preciso ter cuidado antes de simplesmente afirmar que determinado álbum é ruim sem analisar o contexto em que foi produzido.

Comparando essas bandas com elas mesmas, posso dizer que Virtual XI e Load são discos irregulares, enquanto Eternal Idol é uma agradável surpresa quando consideramos todas as circunstâncias de sua produção.

O objetivo desta série nunca foi estabelecer um ranking definitivo dos melhores álbuns da história. São apenas cinco discos que considero injustiçados e que merecem uma nova audição.

E essa talvez seja a principal ideia desta postagem: às vezes, um álbum precisa apenas que deixemos de lado a expectativa criada em torno da banda e permitamos que a música fale por si mesma.

Então, quando encontrar um desses discos em uma plataforma de streaming ou em sua coleção, dê uma nova chance. Pode ser que aquilo que parecia um fracasso no passado soe muito diferente quando ouvido com outros ouvidos.

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