A mídia atualmente

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Hoje quero falar a respeito da mídia. Claro que você não encontrará aqui um texto técnico; é apenas a visão de alguém que está do outro lado da tela, na audiência de algum veículo de comunicação ou conectado à internet. Quero expor o que penso sobre a qualidade dos programas da TV aberta e de outras mídias tradicionais. Mas por que perder tempo falando de algo aparentemente tão supérfluo?

Simples. Para a minha geração e para algumas anteriores, tanto a televisão quanto o rádio eram as principais referências quando o assunto era informação e entretenimento. A eles se juntavam livros, jornais e revistas, embora esses meios tenham perdido gradualmente seu potencial de alcance diante da televisão e do rádio. Tínhamos, assim, um pacote relativamente completo de informações disponível nas décadas anteriores à internet.

Também era comum assistir a filmes na televisão, principalmente para quem não tinha o hábito ou a possibilidade de frequentar o cinema regularmente. Desenhos animados, programas de variedades e outras atrações ajudavam a moldar opiniões desde a infância. A cobertura de jogos de futebol pelas emissoras de rádio, os noticiários e os programas musicais específicos eram exemplos de conteúdos capazes de prender a atenção dos ouvintes.

Eventualmente, a TV aberta transmitia algum jogo envolvendo times de Porto Alegre para o público da região metropolitana, mas normalmente eram partidas das equipes do eixo Rio-São Paulo. Havia também programas esportivos tanto na televisão quanto no rádio que, além do futebol, abordavam outras modalidades.

Com o tempo, jornalistas e personagens da televisão passaram a fazer parte do cotidiano das pessoas que tinham acesso a esses meios ou mesmo o hábito de ler jornais, assistir a telejornais e acompanhar novelas. Para os mais jovens, ainda em idade escolar, os bastidores da escola eram o grande catalisador de todas essas informações: era ali que se comentava aquilo que havia sido visto, ouvido ou lido.

Acho que o adjetivo “supérfluo”, usado anteriormente, já pode ser descartado. Espero ter demonstrado a relevância dos veículos de comunicação tradicionais na vida das pessoas nas últimas quatro décadas.

A televisão, o rádio e a mudança dos hábitos

Pois bem, eis a minha justificativa para trazer à tona algo que está me deixando um pouco desconfortável. Não sei se é a idade me tornando, a cada dia, mais ranheta ou se estamos diante de uma constatação real sobre o momento em que vivemos.

Não posso descartar a própria mudança de percepção provocada pelo avanço da idade, nem a influência daquilo que poderia chamar de “idiotice natural da juventude”. Ainda assim, o que relatarei a seguir me parece objetivamente verdadeiro, e não apenas uma questão de ponto de vista.

Ao longo dos anos 2000, fui deixando de lado a programação da televisão e do rádio e parei de comprar revistas. Se não abandonei completamente esses hábitos, pelo menos reduzi radicalmente o tempo dedicado a essas mídias. Não foi algo premeditado. Aconteceu gradualmente, de maneira bastante natural.

As rádios já não ofereciam grandes atrativos capazes de prender minha atenção a um programa específico ou a um apresentador carismático. Com exceção das transmissões de futebol, que sempre acompanhei pelo rádio quando não havia a possibilidade de assistir pela televisão, fui abandonando o hábito de manter um desses aparelhos permanentemente ligados em casa, como ainda acontece com muitas pessoas que conheço.

Eu já tinha meus CDs, fitas cassete, LPs e diversos contatos para adquirir as músicas que queria ouvir. Não precisava mais aturar um locutor que considerasse chato, uma sucessão de propagandas tentando vender alguma coisa ou a repetição irritante das mesmas músicas a cada quinze ou vinte minutos.

Estava em uma fase na qual poucas novidades me interessavam nesse sentido.

As revistas sobre rock, que ainda poderiam prender minha atenção, também estavam cada vez mais escassas. As poucas que encontrava à venda geralmente estavam disponíveis apenas em Porto Alegre. Além disso, eu já estava cansado de ler sobre as mesmas bandas.

Muitas das histórias sobre bastidores e sobre a vida dos músicos começaram a me parecer tão idiotas e insípidas que, durante algum tempo, cheguei a deixar de ouvir determinadas bandas. Entrava em uma banca de revistas apenas para comprar algum livro eventualmente ou outra coisa qualquer, como cigarros ou balas.

Ainda cheguei a consumir revistas específicas para instrumentistas, como Cover Baixo e Guitar Class, mas esse hábito também durou pouco.

O declínio dos programas de televisão

Quando chegava da escola, no início dos anos 2000, costumava assistir ao Programa do Jô. Gostava bastante do formato e das entrevistas, especialmente na época em que o programa era exibido pelo SBT.

Não havia necessariamente um critério rígido para a escolha das atrações. Normalmente eram três convidados, mais uma atração musical e um bloco de velharias, tudo conduzido com o carisma e o envolvimento do apresentador.

Quando o programa voltou para a Rede Globo, a coisa ficou um pouco sem graça, embora ainda aparecessem personalidades interessantes. A presença constante de atores da própria emissora, entretanto, foi ganhando cada vez mais espaço. Os programas de entrevistas passaram a funcionar quase exclusivamente como vitrines para divulgar outras atrações da emissora ou atividades de pessoas que tinham algum vínculo com ela.

Também havia programas interessantes em outros canais, como a TVE e a Band, muitos deles com formatos bastante alternativos. O jornalismo, entretanto, variava pouco em tom e enfoque, o que não ajudava a arejar o contexto.

O SBT foi uma das emissoras que manteve durante mais tempo um formato conservador, com Silvio Santos preservando algumas das antigas formas de fazer televisão e atrações como A Praça É Nossa, Hebe, Programa Silvio Santos, Chaves e os desenhos infantis.

Porém, muitos humoristas, jornalistas e produtores foram morrendo, e a qualidade das reposições se mostrou insuficiente ou simplesmente inexistente.

A padronização da mídia e da televisão aberta

Um claro direcionamento ideológico passou a influenciar o jornalismo, a condução das redações de telejornais e a produção de programas de auditório.

Até apresentadores como Fausto Silva, que já era considerado chato na época de Perdidos na Noite, mas eventualmente apresentava música ao vivo e convidados interessantes, acabaram se tornando figuras cada vez mais desgastadas para mim.

Com o tempo, os programas passaram a repetir uma fórmula que se multiplicou por toda a televisão aberta: autopromoção, convidados ligados à própria emissora, artistas promovendo seus trabalhos e uma sucessão de atrações que pareciam circular indefinidamente entre os mesmos programas.

O próprio Jô Soares teve seu programa reduzido em tempo e recursos e, embora continuasse apresentando convidados interessantes, havia muito tempo concentrava sua atenção em atores, produtores e artistas ligados à televisão.

Por mais que Jô Soares nunca tenha sido uma referência absoluta de intelectualidade, é inegável que possuía cultura e bom humor. Ainda assim, muitas vezes parecia limitado pelo próprio formato televisivo e pela falta de liberdade para explorar outros nichos.

É impressionante como Luciano Huck, Faustão, Serginho Groisman, Jô Soares, Regina Casé e Fátima Bernardes pareciam circular constantemente em torno dos mesmos nomes. Cada programa apresentava pequenas variações de uma fórmula semelhante, sem muita autocrítica ou independência para experimentar algo realmente diferente.

Não havia, a meu ver, um critério razoável na estruturação de determinados programas, e a qualidade da produção frequentemente parecia incompatível com os recursos tecnológicos disponíveis.

Tudo se transformava em uma espécie de autopromoção que chegava a ser constrangedora para quem assistia eventualmente e ainda tinha capacidade de analisar o conteúdo apresentado.

Às vezes, a impressão era de que a principal razão para determinados programas continuarem no ar era simplesmente abrir espaço para os comerciais dos patrocinadores.

A perda de criatividade na mídia

Para piorar, mesmo com todas as inovações tecnológicas que permitem transmissões com alto padrão de imagem e som, muitos programas continuam sendo conduzidos por apresentadores que parecem pouco à vontade e sem entusiasmo.

O processo parece mal executado até mesmo nas situações mais simples. Não é raro encontrar falhas nos roteiros, equipamentos de cenário que não funcionam, atrações sem conteúdo e situações que não acrescentam absolutamente nada.

Isso sem mencionar a linguagem vulgar, pobre e cansativa, utilizada para transmitir conteúdos rasos e sem propósito, intercalados por apresentações musicais muitas vezes deslocadas.

Os temas também parecem se repetir indefinidamente: discriminações diversas, debates sobre tabus antigos, métodos modernos de educação dos filhos, profissões em evidência, a nova novela, a velha novela, seriados...

Oh, saco!

A mídia brasileira, de maneira geral, tornou-se, na minha visão, algo cada vez mais patético e sem sentido, onde um péssimo gosto artístico se mistura a interesses comerciais e a um discurso que muitas vezes parece excessivamente padronizado.

Antes víamos artistas e produtores à frente de programas como Os Trapalhões e, posteriormente, Casseta & Planeta. Mesmo com limitações de roteiro e uma precariedade técnica evidente quando comparados aos recursos atuais, esses programas tinham criatividade, carisma e dedicação.

Hoje, quem substitui essas pessoas?

E em que lugar poderiam estar os novos talentos?

O pior desse cenário é a perspectiva de que novos humoristas e criadores talvez encontrem cada vez menos espaço para desenvolver sua própria linguagem. Mesmo quando aparecem, precisam se adaptar a aquilo que é imposto pelos veículos de comunicação.

Em troca, recebem bons salários, visibilidade, estabilidade e a promessa de sucesso, mas podem acabar pagando por isso com a própria independência e com limitações à criatividade.

A música brasileira e a mídia

A música brasileira, tão rica em sua essência, seus ritmos e suas tradições, é frequentemente representada na grande mídia por gêneros e artistas que seguem fórmulas comerciais bastante específicas.

Na minha percepção, nomes novos e de qualidade dificilmente conseguem espaço nas grandes emissoras se não seguirem o protocolo estabelecido previamente.

Citei a Globo, mas outras emissoras não ficam muito atrás, com atrações igualmente padronizadas e engessadas.

Isso sem mencionar o crescimento das emissoras religiosas, que, além de manterem diversos canais próprios, também compram horários em outras emissoras para apresentar formatos bastante semelhantes.

Não faço essa crítica aos evangélicos ou aos católicos por intolerância religiosa, mas à utilização de um modelo de comunicação que considero tão burocrático e comercial quanto aquele empregado por outros segmentos da mídia.

A internet mudou a mídia?

O que está acontecendo com os grandes veículos de comunicação?

Será que, com o advento da internet, os investimentos em publicidade diminuíram?

Claro que não.

Será que as pessoas deixaram de assistir à televisão por causa da internet ou passaram a preferir a internet justamente por causa da mediocridade da televisão?

Talvez a questão seja muito mais complexa.

Existe uma estrutura ampla envolvendo escolas, universidades, empresas, governos e diversos interesses externos que influencia a maneira como as informações circulam e como o entretenimento é produzido.

Quanto mais desinformada e passiva estiver uma população, mais fácil pode ser manipulá-la em qualquer direção.

Ao invés de buscar recursos para melhorar as condições de vida das pessoas que vivem em áreas de risco, periferias e regiões dominadas pela criminalidade, muitas vezes os veículos de comunicação preferem transformar determinadas situações sociais em espetáculo.

O problema, nesse caso, não é mostrar a realidade das periferias. Pelo contrário: mostrar essa realidade pode ser importante. A questão é como essa realidade é apresentada e quais aspectos recebem destaque.

Enquanto houver pessoas satisfeitas apenas porque se sentem “representadas” na televisão, mesmo convivendo diariamente com problemas de atendimento médico, baixa escolaridade e violência, existe o risco de a representação substituir a transformação.

“Olha, a favela é chique! Favelado agora é importante, está na TV!”

Eis o que considero um possível engodo: transformar dificuldades reais em produto de entretenimento.

A sociedade diante da mídia

O resultado disso pode ser observado nas ruas, nas empresas, nas escolas, nas faculdades e praticamente em qualquer lugar.

Sem uma mídia minimamente séria, que estimule reflexão e ofereça diferentes perspectivas, perdemos opções de entretenimento, cultura e informação.

Não precisamos necessariamente de mais pessoas dizendo ao público o que pensar. Precisamos de formadores de opinião capazes de estimular as pessoas a pensar por conta própria.

Entretanto, o que muitas vezes encontramos são agitadores que disseminam ideias vazias e tendenciosas, construídas artificialmente e apresentadas como se fossem espontâneas.

Ninguém parece levar mais a sério a política, a polícia, o Estado, a crise financeira, a saúde, o caos urbano ou a cultura.

Tudo parece fazer parte de uma realidade imutável que, na verdade, não seria tão ruim assim, pois temos Coca-Cola, Walmart, McDonald's, Casas Bahia e cartões de crédito.

Reclama-se, lamenta-se, registra-se tudo nas redes sociais e esquece-se rapidamente.

Mesmo quando aparecem notícias sobre corrupção, violência e descaso por parte do poder público, existe uma espécie de anestesia coletiva produzida pela repetição constante das tragédias.

A notícia chega, provoca indignação durante alguns minutos e logo desaparece para dar lugar à próxima.

A internet não resolveu o problema

Você acha que não tem nada a ver com isso?

Você financia indiretamente empresas de rádio e televisão, artistas, jornalistas, políticos e todo o sistema de comunicação quando consome os produtos que eles promovem, paga impostos e participa das discussões públicas.

Você desligou a televisão para ler um livro, ficar com sua família ou sair para se divertir?

Ou simplesmente trocou a televisão pelo smartphone para consumir exatamente o mesmo tipo de conteúdo em outra tela?

A internet poderia ser uma ferramenta extraordinária para ampliar o conhecimento. E ela realmente pode ser.

Mas isso depende de como a utilizamos.

Você vai utilizar toda essa tecnologia para estudar, pesquisar, produzir algo ou desenvolver uma habilidade?

Ou vai passar horas curtindo fotografias, comentando bobagens, assistindo a vídeos sem conteúdo e lendo versões superficiais de notícias?

De repente, pode até acabar comprando alguma coisa anunciada em uma página e pagando com cartão de crédito.

Se a televisão e o rádio dependem da publicidade para sobreviver, a internet pode ser ainda mais sofisticada nesse processo. Plataformas digitais coletam informações sobre seus usuários e utilizam esses dados para direcionar conteúdos e anúncios.

A sensação é de que você está no controle, quando muitas vezes está apenas recebendo aquilo que algum algoritmo decidiu que provavelmente irá despertar sua atenção.

A internet é uma excelente ferramenta para quem possui uma base cultural e intelectual que permita separar o lixo do conteúdo realmente interessante.

Mesmo assim, não é uma tarefa fácil.

O futuro da mídia

Para encerrar, todos os dias temos notícias sobre violência, assaltos, mortes, estupros, sequestros, roubos, bares fechando, shows ruins com ingressos caríssimos e uma infinidade de acontecimentos que contribuem para uma sensação permanente de insegurança e pessimismo.

Ao mesmo tempo, continuamos consumindo uma programação televisiva que frequentemente parece incapaz de acompanhar a complexidade do mundo em que vivemos.

O resultado pode ser uma população cada vez mais acostumada a receber informação pronta, consumir entretenimento superficial e reagir rapidamente sem necessariamente refletir sobre aquilo que acabou de assistir.

Esse talvez seja o verdadeiro problema da mídia atualmente.

Não é simplesmente a televisão, o rádio, os jornais ou a internet.

É a maneira como nos relacionamos com eles.

A tecnologia mudou. As telas mudaram. Os meios de distribuição mudaram. Mas a necessidade de pensar continua sendo a mesma.

E talvez esse seja justamente o ponto que não podemos terceirizar.

Quanto mais informação temos à disposição, maior deveria ser nossa responsabilidade em aprender a selecionar, questionar e compreender aquilo que consumimos.

Caso contrário, teremos apenas trocado o aparelho de televisão pelo smartphone, mantendo intacto o velho hábito de deixar que alguém pense por nós.

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