A verdade do blues
A verdade do blues
Decidi escrever esta postagem como um mea culpa por ter tentado ignorar o blues durante vinte anos. Isso mesmo. Depois de todo esse tempo, finalmente parei para ouvir e apreciar artistas como Robert Johnson, Charley Patton, Son House, T-Bone Walker e tantos outros músicos ligados ao blues do Delta do Mississippi das décadas de 1920 e 1930.
Antes de explicar por que passei a me interessar tão tarde por esse estilo musical, preciso contar por que nunca havia me interessado por ele. É impressionante como somente o tempo nos dá maturidade para perceber determinadas coisas. Sinto-me abençoado por poder rever alguns conceitos. Nesse caso específico, o tempo fez com que minha mente estreita se abrisse e me permitisse enxergar aquilo que sempre esteve diante de mim. Já escrevi sobre esse assunto aqui.
O preconceito contra o blues
Preconceito. Essa palavra define diretamente o motivo pelo qual eu não me interessava por blues. Mas meu preconceito não era direcionado à cor da pele daquelas pessoas, à cidadania norte-americana ou à sua descendência africana. O problema estava em uma ideia equivocada que eu havia comprado de terceiros de maneira bastante superficial: acreditava ser impossível encontrar qualidade cultural originada entre os escravizados negros norte-americanos e seus descendentes.
Passei a ignorar completamente a cultura popular, produzida por gente simples, enquanto exaltava uma suposta alta cultura que eu sequer conhecia de verdade.
Pois é justamente isso que o blues representa: cultura popular.
Negros pobres, descendentes de escravizados, vivendo em regiões marcadas pelo trabalho nas plantações de algodão do Mississippi. Eu me perguntava: “O que essas pessoas poderiam ter a me oferecer?”.
É claro que eu não podia ignorar a influência que músicos de hard rock e heavy metal sofreram do blues. Ainda assim, sentar para ouvir o gênero e tentar compreender sua linguagem era algo inimaginável para mim.
Era muito mais confortável acreditar que a música de que eu gostava vinha exclusivamente dos compositores clássicos europeus.
Ledo engano.
Pobre do homem que, vivendo em condições semelhantes às de tantos trabalhadores brasileiros, julga-se culto e letrado a ponto de ignorar uma cultura genuína e digna que alimentou a imaginação de alguns de seus principais ídolos musicais.
Quando percebi que faltava verdade na minha própria música
A ficha caiu quando consegui terminar algumas composições da minha banda.
Peguei os rascunhos de dez músicas, com baixo, guitarras, vocais e baterias gravados e todas as partes definidas: introduções, riffs, solos e aquelas temáticas em inglês. Coloquei tudo em uma ordem que considerava coerente e ouvi aquele material algumas vezes.
Depois de vinte anos estudando música, ouvindo diversos artistas e tocando com muitas pessoas em diferentes estilos de rock e metal, acho que nunca havia entrado em contato com uma obra tão ruim.
Isso mesmo.
Por mais que eu quisesse colocar a culpa na produção, nos equipamentos ou no clima durante o processo de gravação, nada poderia justificar um conjunto tão descartável de ideias. Aquilo não conseguia ser chamado de música no sentido que eu procurava.
Não havia alma. Não havia envolvimento. Não havia verdade naquilo que saía dos alto-falantes.
Escalas, acordes, variações rítmicas, versos artificiais e uma combinação de elementos que imitava uma banda não constituíam música — pelo menos não no sentido de expressão artística que eu acreditava possuir.
Foi então que parei e pensei:
“É isso que eu quero que me represente como artista? É isso que mostrarei às pessoas que acompanham meu trabalho desde a metade da década de 1990? É essa imundície que os músicos que tocaram comigo e me respeitam irão ouvir quando quiserem conhecer meu trabalho?”
A resposta foi clara:
“Não. Em nada esse conjunto grotesco de composições medíocres me representa.”
Mas onde estava o erro?
Independentemente de alguns riffs de guitarra serem bons, de existirem linhas de baixo interessantes ou solos executados com técnica e alguma melodia, aquelas músicas não representavam a minha verdade.
Muito pelo contrário.
Elas mostravam um idiota arrogante que havia gravado músicas como quem tenta se livrar de alguma coisa que já não serve mais.
Por mais triste que possa parecer, essa era exatamente a intenção por trás daquele trabalho: livrar-me de anos de problemas com outros músicos, fazendo concessões e tentando “democratizar” composições que, originalmente, eu havia criado sozinho.
Minhas origens musicais
Cresci tocando violão clássico, com algumas pitadas de música popular brasileira. Tive contato com bandas como Garotos Podres e Ratos de Porão, que, ao cantarem em português, abordavam em suas músicas pensamentos compartilhados por muitas das pessoas ao meu redor. Essas bandas me influenciaram profundamente.
Cresci entre as décadas de 1980 e 1990, período marcado por uma grande crise financeira, enquanto o país ainda se recuperava de um longo período sob o regime militar.
Eu era o garoto que aprendeu a tocar os primeiros acordes em um violão Gianinni com o braço descolado, emprestado por uma tia. Que tocava com uma guitarra Jennifer e um amplificador Staner também emprestados. Quando isso não era possível, utilizava os equipamentos disponíveis no estúdio durante uma gravação ou no palco durante uma apresentação.
Aprendi inglês traduzindo letras de bandas estrangeiras e morava em um bairro nos arredores de Porto Alegre.
Esse menino esperou vinte anos para se considerar pronto, conseguiu ferramentas adequadas e gravou dez músicas com letras superficiais em inglês, construídas a partir de frases prontas e pensamentos artificiais. Eram canções cantadas sobre harmonias distorcidas e arranjos desenvolvidos ao longo de quinze anos em parceria com dezenas de músicos diferentes.
Tinha de tudo ali.
Menos verdade.
Voltar às origens para encontrar a própria voz
Foi então que voltei às minhas origens e comecei a refazer aquelas músicas em português, acompanhado apenas por um violão e tentando encontrar novamente a minha verdade.
Talvez, para quem ouvir essas novas versões, tudo pareça estranho, ruim ou descartável. Para mim, entretanto, somente agora algumas dessas músicas voltaram a ter o sentido que um dia tiveram.
É como se renascessem: um menino que herda uma roupa usada, mas descobre que ela lhe serve perfeitamente.
Lembro que muitas das canções que escrevi ao longo desses anos tinham verdade em sua origem. Porém, na tentativa de agradar aos outros ou de encaixá-las em determinado formato, elas foram borrifadas com o veneno da futilidade e passaram a soar como tantas coisas que a mídia tenta nos vender — porém sem o marketing e a propaganda do mainstream.
Eram honestas na origem.
Quando trabalhadas, porém, perdiam completamente sua essência.
O que o blues me ensinou sobre música
E onde o velho blues do Delta do Mississippi se encaixa nessa história?
Exatamente no centro de toda a questão.
O blues daqueles negros submetidos a condições extremamente difíceis era uma expressão artística genuína, surgida de experiências concretas de sofrimento, trabalho e sobrevivência. Contava a história de um povo que, muitas vezes, tinha apenas a própria voz para cantar sua dor e aliviar o peso da realidade.
Quando ouço Robert Johnson cantando e tocando seu violão em uma gravação rudimentar, poucas coisas me parecem tão honestas e verdadeiras.
Não importa quais equipamentos eu tenha à disposição para gravar. Não importa quais guitarras, baixos ou amplificadores utilize. Se a música não soar forte e verdadeira apenas no formato voz e violão, não adianta tentar encontrar o timbre perfeito, fazer o solo espetacular, criar o riff genial ou produzir uma mixagem profissional.
Tudo continuará soando como uma grande mentira.
Esse velho bluesman me fez pesquisar sua origem, o lugar onde viveu e as condições históricas e sociais de sua época. Mentalmente, fui transportado para uma espécie de celeiro adaptado para que as pessoas pudessem dançar e, por alguns instantes, escapar de uma realidade extremamente difícil.
Nesse momento, tudo fez sentido.
Aquela essência me faltava completamente.
Eu havia perdido a minha.
O que o blues pode ensinar sobre nossas próprias raízes
Para encerrar esta postagem, fico pensando em como seria se nós, brasileiros, nos agarrássemos às nossas verdadeiras raízes e cultivássemos toda a mistura e a herança cultural que carregamos.
E se déssemos nossa própria interpretação às histórias que fazem parte da nossa realidade?
Infelizmente, não podemos voltar no tempo e restaurar o talento de nossos grandes compositores. Também não podemos simplesmente virar as costas para a mídia e nos agarrar às nossas verdades individuais.
Isso porque, como brasileiros, ainda não conhecemos realmente qual é a nossa verdade — não apenas como país, mas principalmente como indivíduos.
Talvez isso tenha relação com aquela rebeldia natural da juventude, quando tentamos fugir das condições humildes em que crescemos para vestir uma fantasia determinada por um status quo que muda de acordo com as modas de cada época.
O blues me fez perceber que autenticidade musical não nasce da quantidade de equipamentos, da complexidade dos arranjos ou da qualidade da produção.
Ela começa muito antes disso.
Começa naquilo que temos para dizer.
E, principalmente, na coragem de dizer isso com a nossa própria voz.
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