Uma noite de sábado qualquer

Uma noite de sábado qualquer

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Era uma noite de sábado qualquer. Como de costume, eu estava na casa de minha mãe naquele final de semana. Em 1989, eu, então com 11 anos, ainda morava na casa dos meus avós. Gostava de dormir na casa da minha mãe para poder assistir à televisão até mais tarde, pois meus avós sequer tinham um aparelho.

Então, jogado preguiçosamente em uma velha poltrona, diante da minúscula tela de 14 polegadas em preto e branco, assisti à premiação do Grammy. Eu já gostava de música e tocava violão desde os 8 anos. Mas, naquela noite em especial, não sei se era uma reprise ou uma transmissão ao vivo daquele evento, pude assistir ao Metallica tocando, na íntegra, a música “One”, que concorria naquela edição por causa do videoclipe, o primeiro da banda.

Aquela experiência foi um divisor de águas na minha vida.

Deixei de ser o menino que tocava violão na igreja para desejar ardentemente ter uma guitarra e fazer parte de uma banda de heavy metal. A partir de então, passei a buscar conhecer mais artistas daquele gênero musical.

E, como costuma acontecer quando desejamos algo com muita força, parece que o universo conspira de alguma forma para deixar certas migalhas pelo caminho, guiando-nos nessa jornada até o objeto do nosso desejo. Não demorou muito para que eu tivesse acesso a bandas como Iron Maiden, Dio, Black Sabbath, entre tantas outras.

No ano seguinte, a MTV chegou ao Brasil, as emissoras de rádio passaram a ter programas específicos sobre rock em sua programação e começaram a aparecer revistas nas bancas de jornal falando sobre o estilo.

Talvez até já houvesse algum movimento nesse sentido antes disso, mas, como ainda não existia da minha parte o interesse em buscar aquilo que mais tarde se tornaria uma paixão, eu simplesmente não conseguia perceber. Afinal, naquela época, meu mundo era limitado ao que eu conhecia na escola, na igreja e nos passeios esporádicos com meus avós ou minha mãe.

Quando o rock chegou até mim

Muita gente do underground costuma reclamar de bandas como Guns N’ Roses, Nirvana e o próprio Metallica por terem alcançado grande exposição na mídia.

Em certo momento, reconheço que chegou a encher o saco ouvir sempre as mesmas músicas. Mas, se não fosse todo aquele barulho em torno dessas bandas, as lojas de discos provavelmente não venderiam tantos álbuns, suas músicas não tocariam tanto nas rádios e na televisão e talvez nós continuássemos, por muito mais tempo, à margem de tudo o que acontecia no exterior quando o assunto era rock.

Críticas semelhantes eram feitas às revistas, como a Top Rock, acusadas de plágio, de inventar notícias e de enganar os leitores. Mas, sem as edições especiais que elas lançavam, seria quase impossível encher as paredes de pôsteres, algo que era completamente natural para jovens da minha idade.

Também havia as camisetas da Pirata Urbano, vendidas em algumas lojas e por preços bastante acessíveis. Não era raro encontrar bandas tocando nas calçadas ou mesmo DJs em frente aos bares, colocando Metallica, Red Hot Chili Peppers, Guns N’ Roses, Nirvana e tantos outros artistas.

Era assim que a música chegava até nós.

Não havia internet, streaming ou redes sociais. Para descobrir uma banda, muitas vezes era preciso depender da televisão, do rádio, das revistas, das lojas de discos, dos amigos ou simplesmente estar no lugar certo na hora certa.

E foi exatamente isso que aconteceu comigo naquela noite de sábado.

Uma noite que mudou tudo

O que tiro dessa experiência é que, em certos momentos da vida, pequenos acontecimentos que poderiam facilmente passar despercebidos acabam mudando completamente o rumo dos nossos passos.

Não quero recorrer ao destino ou à Lei da Atração para justificar os acontecimentos que vivenciamos. Mas é curioso pensar que, em meio a tantos fatos que acontecem diariamente, alguns parecem possuir uma importância diferente.

São pequenos acontecimentos que, naquele instante, talvez não pareçam significar absolutamente nada.

Uma música na televisão.

Uma revista encontrada em uma banca.

Uma camiseta vista em uma loja.

Um amigo indicando uma banda.

Um disco emprestado.

Um show assistido por acaso.

Anos depois, percebemos que alguns desses momentos foram muito mais importantes do que imaginávamos.

Naquela noite de sábado, eu tinha apenas 11 anos e estava sentado em uma velha poltrona, diante de uma pequena televisão em preto e branco. Para mim, era apenas mais uma noite na casa da minha mãe.

Mas, de alguma maneira, aquela noite mudou o caminho que eu seguiria pelo resto da vida.

E talvez seja justamente isso que torna certas lembranças tão especiais: na hora em que acontecem, parecem apenas acontecimentos comuns. Só muito tempo depois percebemos que estávamos diante de um divisor de águas.

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