Lemmy se foi e não teremos mais o Motorhead
Lemmy se foi e não teremos mais o Motörhead
Estava numa fila interminável, vivendo um momento histórico, na noite de 30 de abril deste ano que hoje chega ao fim. Como acompanho os shows em Porto Alegre há alguns anos — mais de 20, para ser mais exato —, encontrei muitos amigos e conhecidos naquela noite que tinham o mesmo objetivo: assistir ao evento em que três dinossauros do rock proporcionariam alguns dos últimos momentos de suas longas e dignas carreiras.
O Monsters of Rock, que passou por Porto Alegre, trouxe alegria e decepção. Estávamos todos felizes porque as bandas que tocariam naquela noite eram geniais. Entretanto, a desorganização de quem gerenciava o evento causou muita preocupação. Já escrevi sobre o evento [aqui]. Entre o pessoal que aguardava o show, havia vários comentários sobre o cancelamento da apresentação do Motörhead em São Paulo, devido a problemas de saúde de seu líder. Conforme o tempo passava e a imensa fila que dava acesso ao estádio do Zequinha não andava, o temor ia tomando conta dos fãs. Seria muito difícil assistir ao show completo de Lemmy e sua banda.
Ainda longe da entrada para o evento, pude ouvir a voz rouca de Lemmy saudando o público que já estava lá dentro. Um misto de sentimentos tomou conta das pessoas ao meu redor. Elas sentiam ódio, tristeza, culpa, incredulidade e ansiedade. Eu ouvia, de longe, o que estava acontecendo lá dentro e fiquei muito entristecido, pois sabia que aquela seria minha única oportunidade de ver o Motörhead ao vivo.
Cheguei ao gramado do Zequinha apenas a tempo de assistir a “Overkill”, a última música do show. Muitos que estavam havia horas na fila sequer conseguiram ver isso. Esse foi o único contato que tive com o Motörhead e com a figura de Lemmy Kilmister.
O fato de ele ter morrido esta semana me fez pensar em diversas coisas sobre a vida e a música. Talvez o Motörhead ganhe ainda mais popularidade a partir de agora. Afinal, as coisas são assim mesmo: é preciso morrer para fazer sucesso junto à molecada de hoje.
Meu primeiro contato com o Motörhead
Tive meu primeiro contato com o Motörhead quando ainda era um moleque magrelo e espinhento que andava com os roqueiros mais velhos. Um amigo me mostrou o vinil On Parole, de 1976. Sinceramente, não gostei de quase nada no álbum. Soava sujo, mal gravado e simplório. Eu não entendia como tanta gente bacana que conhecia podia gostar daquela banda.
Então o Sepultura gravou o vídeo de “Orgasmatron”. Por sorte, consegui uma versão original gravada diretamente da rádio. Era o mesmo Motörhead, mas soava pesado e agressivo. Depois, a MTV passou alguns clipes da banda, como “Going to Brazil” e “Overkill”. Foi aí que pude perceber que aquela banda era muito maior do que eu imaginava.
Em 1993, eles lançaram o álbum Bastards. Um amigo comprou o disco e eu o gravei em uma fita. Até hoje fico surpreso quando ouço aquele álbum. Soa pesado e moderno, mesmo sendo obra de uma banda clássica.
Ace of Spades foi a “cereja do bolo” para que eu passasse a apreciar com a devida atenção o trabalho da banda. Não que agora eu considere todos os álbuns muito bons ou que ache que o Motörhead não tenha músicas fracas. A banda sequer está entre as vinte que mais gosto.
Porém, Lemmy Kilmister sempre será aquele cara feio, bêbado e carismático que andou sobre a Terra durante quase setenta anos e fez muita gente gostar de heavy metal. Talvez Ozzy e Lemmy sejam duas das figuras mais lendárias do metal, e o estilo deve muito aos dois.
A música que transforma um homem em lenda
Você pode conhecer um pouco da história da banda e de Lemmy clicando [aqui], onde Gastão Moreira e Clemente Nascimento fizeram um programa do Heavy Lero dedicado a ele.
Vou escutar a discografia completa da banda durante o mês de janeiro, em homenagem ao grande Lemmy. Acho que a melhor maneira de homenageá-lo é parar por um momento para pensar em sua carreira e, depois, ouvir toda a sua obra.
Afinal, Lemmy era apenas um homem. O que o transformou em uma lenda foi sua música.
Acho que ele jamais fez concessões radiofônicas que pudessem manchar a carreira da banda, e isso é um mérito que pouca gente possui. O Motörhead construiu sua história seguindo seu próprio caminho, sem precisar se adaptar ao que estava na moda.
Descanse em paz, Lemmy!

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