O fim da música ao vivo
O fim da música ao vivo
É com grande tristeza que chego à conclusão de que, muito em breve, as pessoas se darão conta de que assistir ao show de uma banda se tornou uma opção de entretenimento dispensável.
Parece meio absurda essa ideia, principalmente para pessoas como eu, que esperavam anos até que uma banda grande aparecesse para tocar por estes lados. Mesmo as bandas nacionais vinham pouco para o Sul. Estou falando da década de 1990. Até mesmo para quem morava no centro do país era complicado assistir a grandes bandas ao vivo.
Entretanto, no início dos anos 2000, passou a ser cada vez mais comum ter bandas estrangeiras tocando por aqui durante suas turnês. Se anteriormente era quase um evento anual uma banda de rock ou metal aparecer por estas bandas, nesse período os shows começaram a acontecer com muito mais frequência. Em Porto Alegre, quase mensalmente tínhamos algum artista se apresentando.
Ainda faltavam condições mais apropriadas, pois os eventos eram realizados, na maioria das vezes, em locais pequenos e com pouca estrutura. Sem contar os ingressos muito caros, é claro.
Lembro de shows de bandas como Helloween, Judas Priest e Yngwie Malmsteen em que não dava para se mexer dentro do Bar Opinião. A maioria dos artistas tocava ali, mas a casa comportava cerca de 2.000 pessoas, no máximo. Mesmo assim, muitas vezes essa capacidade era ultrapassada em centenas.
Por sorte, não aconteceu nenhuma tragédia nesse período.
A tragédia de Santa Maria e as novas restrições
Entretanto, em 2013, a cidade de Santa Maria não teve a mesma sorte.
Mesmo não se tratando de um show de rock, várias pessoas morreram em decorrência de uma festa cujo incêndio, causado por uma combinação de falhas e irregularidades, acabou atraindo os olhares de todo o Brasil para o caso.
Muitos jovens morreram ou ficaram com sequelas gravíssimas.
Novas leis e exigências foram criadas, e ficou ainda mais difícil reunir condições adequadas para realizar um show. Várias casas de espetáculos foram interditadas e bares foram fechados.
Gradualmente, as coisas começaram a mudar novamente.
Mais uma vez, um fato real, trágico e lamentável fez girar uma roda que acabaria atingindo justamente aquilo que muitas pessoas gostavam.
No impulso solidário às vítimas, passaram a ser aceitas diversas medidas e restrições que, na minha visão, acabaram limitando as possibilidades de realização de eventos e de circulação do público.
Sem bares com pequenos shows — e até mesmo sem alguns locais que ofereciam apenas música eletrônica —, as pessoas começaram a optar por ficar em casa, consumindo música pela internet e se deparando com um mercado de artistas que passaram a transmitir suas apresentações por meio de lives nas redes sociais.
Shows, celulares e a mudança de comportamento do público
Cheguei a assistir a bons shows, com condições estruturais decentes para que fossem interessantes e seguros para o público, neste ano de 2015 em Porto Alegre.
Mas isso aconteceu principalmente no Pepsi On Stage. Quando resolveram realizar uma espécie de mini Monsters of Rock no Estádio do Zequinha, a coisa virou bagunça.
Entretanto, também reparei que boa parte das pessoas que vai aos shows não demonstra grande interesse pelo que está acontecendo no palco.
Tirando alguns fãs alucinados, parece que muitas pessoas comparecem aos eventos apenas para marcar presença e mostrar fotos aos amigos nas redes sociais.
São tantas pessoas interessadas em assistir aos shows através das telas de seus celulares que fica a sensação de que elas estão pagando caro para ver uma apresentação da mesma maneira que poderiam assistir em casa.
Para o público mais jovem, talvez essa seja a única forma de experiência musical ao vivo que conhecem.
Claro que não são todos, mas uma grande parte faz isso, e a demanda por esse tipo de conteúdo cresce cada vez mais.
Se essas pessoas perceberem que, para elas, não é tão interessante ir a um show, talvez se contentem em ficar em casa assistindo pelo YouTube. Ou seja, uma coisa leva à outra.
Existem muitas bandas que fazem apresentações online já prevendo esse comportamento, como mencionei anteriormente.
Para os artistas, isso pode ser interessante, pois não precisam gastar tanto com longas viagens e todas as despesas envolvidas em uma turnê. O público, por sua vez, pode ficar em casa assistindo pelo computador ou smartphone, sem gastar com deslocamento, ingresso e outras despesas.
A violência também afasta o público
Além da falta de entusiasmo em ver um artista ao vivo por parte de uma parcela da audiência, temos um motivo ainda mais forte — e, nesse caso, não dá para criticar as pessoas que preferem ficar em casa: a violência.
As grandes cidades estão vivendo um período de insegurança que torna cada vez mais complicado passar algumas horas na rua durante a noite e se deslocar para assistir a um show.
Com os ingressos caros e a bebida ainda mais cara, não se pode dirigir depois de consumir álcool. Ao mesmo tempo, é muito difícil encontrar um lugar para estacionar com segurança, e ainda existe o risco de ter o carro roubado.
Mesmo com o transporte público disponível, pode ser uma aventura pouco agradável andar de ônibus à noite nos arredores dos locais onde acontecem os shows.
Claro que, em 2015, ainda não se notava uma grande desistência por parte do público ou dos produtores. Mas eu acreditava que isso poderia acontecer muito em breve.
Vejo na possibilidade de transformar estádios em grandes casas de espetáculos um sinal de que tudo poderá voltar a ser elitizado e eventual, pois os pequenos e médios espaços deixarão de existir.
As bandas iniciantes ficarão sem lugares para tocar, o público ficará em casa e haverá um progressivo retrocesso.
Sepultura, Ramones e a experiência de assistir a um show
Volto ao início do texto, quando falava dos shows aos quais estive presente, e relembro ter visto Sepultura com os Ramones em 1994, em Porto Alegre.
Parece que uma nuvem mágica me conduziu por todo o trajeto até chegar ao local do show.
Lá dentro, parecia que todos estavam hipnotizados pelo som e pelo ambiente, que para muitos representava uma grande novidade.
Foi uma experiência memorável para mim.
Era como se fosse uma grande celebração da música e como se jamais fosse acontecer algo igual novamente.
Hoje, tirando os moleques que fazem todo tipo de loucura por seus ídolos de plástico, os verdadeiros amantes da música parecem se sentir mais incomodados do que felizes em um show de uma banda de que gostam.
Além do clima muitas vezes forçado dos ambientes, paira no ar uma insegurança perturbadora.
Mesmo indo ao show, sempre existem grandes reflexões na hora de comprar o ingresso, sair de casa e, principalmente, quando chegamos ao local do evento.
Parece desconfortável ficar na fila para entrar, sair para comprar uma bebida e depois simplesmente querer voltar para casa assim que a banda parar de tocar.
Para onde está indo a música ao vivo?
Muitos foram os responsáveis para que as coisas chegassem a esse ponto.
Cada parte envolvida contribuiu, de alguma maneira: os organizadores, o público, os artistas e a própria sociedade.
Por isso, retomo a afirmação do início deste texto: em breve, talvez não tenhamos mais música ao vivo da maneira como a conhecemos.
O público prefere assistir a apresentações repletas de playbacks. Os organizadores também podem preferir vender esse tipo de produto, e os investidores podem optar por apoiar esse modelo.
As bandas de moleques já não ensaiam necessariamente nas garagens ou nos quartos improvisados. Muitas vezes, trocam arquivos produzidos nos próprios computadores.
Elas também encontram cada vez menos espaços para tocar ao vivo em escolas, feiras e bares.
Quase ninguém paga para ter um CD de uma banda famosa. Imagine, então, se vai pagar para assistir a uma banda iniciante.
Felizmente, tive a oportunidade de assistir a bons shows e de tocar em uma dúzia de cidades com as bandas com as quais colaborei.
Agora posso ficar em casa, assistir aos meus DVDs e ouvir meus CDs, LPs e músicas em streaming, tomando uma cerveja e sem me preocupar com todas as coisas que acabei de enumerar.
Mas isso não significa que eu não sinta falta da experiência de estar diante de um palco.
O futuro dos shows ao vivo
Para encerrar, cabe aqui uma reflexão.
Será que todo o caos que estamos vivendo nos últimos meses continuará se consolidando a ponto de não podermos mais sair de nossas casas?
Ou cairemos em um campo magnético que nos puxará de volta para os anos 1980, quando o Brasil era visto, lá fora, como uma enorme floresta habitada por um povo primitivo que passava o ano inteiro vivendo de carnaval?
Ou, pior ainda, poderemos cair no abismo de uma guerra civil, passando a nos matar uns aos outros e destruindo nossas cidades por motivos banais?
Se pararmos para pensar nisso, fica difícil ter pensamentos otimistas.
Torço para estar errado.
Mas os germes que vejo impregnando tudo à minha volta apontam, na minha percepção de final de 2015, para um futuro caótico.
E talvez seja justamente por isso que a música ao vivo seja tão importante.
Porque um show não é apenas o som que sai das caixas. É o deslocamento, o encontro, o palco, o público, a expectativa, o ambiente e a experiência compartilhada.
Quando deixamos de sair de casa para viver essas experiências, não estamos apenas mudando a maneira de consumir música. Estamos mudando a própria relação que temos com ela.
Assista todos os episódios de KRPCast clicando aqui;
Conheça o ecossistema KRP clicando aqui;
Ouça o trabalho de Kako Ramos no Spotify clicando aqui;
Para mais informações entre em contato clicando aqui;

Comentários
Postar um comentário