Uma vida em preto & branco

Uma vida em Preto & Branco

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Quem acompanha o meu trabalho com um pouco mais de atenção deve conhecer o single Preto & Branco (caso não conheça, clique aqui). Composto por apenas duas músicas, “Guerra” e “Mãos Nuas”, este lançamento de 2018 é a versão reduzida de um álbum que teria outras seis faixas, mas que teve sua produção interrompida por alguns motivos que detalharei ao longo do texto.

Antes, porém, acho conveniente destacar que esta postagem pode ser considerada uma continuação de “Uma noite de sábado qualquer...” (leia aqui), que conta como foi que acabei me apaixonando por música. Nesta que você lê agora, a narrativa é sobre o mesmo personagem, mas passando por outro momento da vida: a crise de meia-idade.

Preto & Branco

Como já havia comentado em outras postagens, durante muito tempo tive acesso apenas a aparelhos de televisão com imagens em preto e branco e som mono. Talvez por isso, quando estava sonhando, logo percebia que aquilo não era realidade, porque tudo aparecia sem cores.

O curioso é que essa perspectiva visual sempre esteve presente em minha vida.

Quando tocava black metal, devido à estética oriunda das bandas norueguesas que pertenciam a esse estilo, era comum encontrar artes sem cores e produzidas de maneira rudimentar. A própria capa do álbum Metallica, da banda homônima, apresenta, de certa forma, esse padrão estético.

Isso influenciou demais o meu trabalho. E, como o projeto em que eu estava trabalhando era autobiográfico, a primeira ação foi batizá-lo de Preto & Branco.

Entretanto, talvez por instinto artístico, passei a enxergar o restante da minha vida dessa maneira.

E o que seria viver uma vida em preto e branco?

No meu caso, foi chegar à crise de meia-idade depois de metade de uma década lutando contra a depressão e trabalhando com aquilo que realmente amo fazer — música — apenas nos finais de semana, feriados e períodos de férias. E ainda precisava dividir esse tempo com a família, os afazeres da casa, os estudos e tantas outras coisas que não tinham relação com o meu trabalho das 8h às 17h, de segunda a sexta-feira.

Não que meu emprego fosse ruim ou indigno. Pelo contrário: ressalto que sou grato por ele ter bancado financeiramente a mim e à minha família durante uma década e meia.

Mas serviços burocráticos realmente nunca foram minha paixão. Eram apenas mais tranquilos quando comparados à pavimentação, marcenaria, instalação de internet, atendimento em call center, metalúrgica e depósito, que foram algumas das ocupações que tive antes.

O fato é que esse é o tipo de vida em preto e branco que eu estava vivendo: passar a maior parte do tempo em atividades burocráticas para receber um salário e esperar o final de semana para “realmente” viver.

O álbum que não terminou

O projeto musical em si parou nas duas músicas citadas porque não consegui administrar meu tempo nem meus recursos para ir além.

Faltava apenas gravar as versões definitivas das outras seis faixas, que incluíam “Alvorecer”, “Ruas à Noite”, “Teia da Aranha” e “Batismo”, músicas que já toquei ao vivo em lives e das quais também utilizei trechos como trilha de algumas postagens.

Além disso, problemas com instrumentos e equipamentos, juntamente com a indecisão em relação a alguns arranjos, foram obstáculos que surgiram ao longo do processo. Isso acabou me levando a optar por outras atividades de ocasião, como treinamentos e produções paralelas.

Muitas dessas composições, aliás, me acompanharam durante vinte anos. Elas sobreviveram sendo adaptadas para cada formação das bandas que criei ao longo dessa trajetória.

Tudo isso pode ser visto no meu canal do YouTube (aqui), onde existem vídeos com versões anteriores dessas músicas.

A Heavinna, embora seja uma espécie de filha bastarda e não reconhecida do Metallica, quando pensamos no século XXI se aproxima muito mais do Guns N’ Roses, mas sem o sucesso que Axl e companhia conquistaram nas últimas décadas do milênio passado.

O que significa viver em preto e branco?

Em resumo, viver uma vida em preto e branco, de acordo com a minha experiência, é abandonar os sonhos e as ambições mais genuínas para tentar se enquadrar discretamente na sociedade e aproveitar alguma oportunidade profissional que permita receber um salário capaz de garantir uma existência digna.

No rigor da regra, tendo como referência aquilo que observo e as estatísticas que nos cercam, a vida humana parece consistir exatamente nessa adaptação ao tédio, ao disponível, ao comum e ao ordinário.

Acordar.

Trabalhar.

Pagar as contas.

Cumprir obrigações.

Esperar o final de semana.

Recomeçar.

E repetir tudo novamente.

Qualquer pessoa que busque realizar seus sonhos ou seguir em direção ao próprio propósito terá que viver uma vida extraordinária, fazendo coisas incomuns. E isso significa pagar um preço que a maioria das pessoas não está disposta a correr o risco de bancar.

Talvez seja justamente essa a diferença entre simplesmente existir e sentir que estamos vivendo.

O Preto & Branco nasceu como nome de um projeto musical autobiográfico. Mas, olhando para trás, percebo que ele acabou se tornando muito mais do que isso.

Foi uma representação de um período da minha vida.

Uma época em que eu conseguia enxergar claramente o que amava fazer, mas tinha cada vez menos tempo, recursos e energia para fazer aquilo acontecer.

Talvez o maior problema de uma vida em preto e branco não seja a ausência de cores.

É saber que elas existem — e ainda assim passar a maior parte do tempo olhando para uma tela sem elas.


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