Nosso tempo...

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Vivemos em um mundo onde políticos corruptos conseguem comprometer um país gigantesco por meio de inúmeras falcatruas e onde grandes empresas demonstram seu tamanho por meio de manobras de caráter duvidoso, muitas vezes trabalhando em estreita parceria com o governo.

Há pouco tempo, sediamos uma Copa do Mundo que prometia trazer modernidade e infraestrutura para as cidades-sede. A população receberia o tão propagado “legado da Copa”. Essa era a promessa de nossos governantes para nos manter distraídos enquanto problemas muito maiores se aproximavam.

Pois é. Pouco tempo depois, enfrentamos uma grave crise financeira. O governo que prometera levar o país a um nível mais alto demonstrou, na minha visão, incompetência e falta de compromisso com suas próprias promessas. Nossa saúde pública sofre com a falta de médicos e com equipamentos precários nos postos de pronto atendimento e hospitais. Nossa educação revela como os recursos provenientes dos altos impostos que pagamos diariamente são destinados a outras finalidades, em vez de serem aplicados adequadamente em áreas fundamentais. Os resultados de avaliações internacionais já apontavam problemas sérios na educação brasileira. E isso não aconteceu da noite para o dia: é o resultado de anos de descaso.

Mas falar de política nunca foi meu forte. Aliás, atualmente, nem me interessa tanto. Quase sempre encontramos a mesma análise passional de torcedores de futebol, defendendo discursos repletos de números e estatísticas cuidadosamente elaborados para, muitas vezes, não dizerem absolutamente nada.

O que considero ainda pior é perceber que políticos condenados e presos, em determinados casos, continuam vivendo em condições muito melhores do que a esmagadora maioria dos trabalhadores honestos do país. Mesmo quando são julgados e condenados, nem sempre vemos uma reparação proporcional aos danos causados à sociedade. Estou mencionando esse cenário político porque quero chamar atenção para aquilo que considero um dos grandes males da sociedade moderna: o descaso com a coisa pública.

A sociedade do politicamente correto

Hoje, muitas vezes, não se pode criticar ninguém sem correr o risco de enfrentar uma ameaça de processo. Vivemos sob uma exigência de comportamento politicamente correto que chega a irritar até o mais sensato dos monges budistas.

Mas esse rigor parece aparecer principalmente quando estamos diante de assuntos menos importantes: uma piada infeliz de um humorista sem graça, uma proposta de lei absolutamente irrelevante ou alguma polêmica envolvendo uma celebridade.

Quando um artista enfrenta algum problema pessoal, por exemplo, surgem comentários contundentes, protestos, longas matérias na televisão, entrevistas com especialistas e pesquisas de opinião pública. Existe um superdimensionamento de fatos que, muitas vezes, significam muito pouco diante dos grandes problemas sociais que deveriam ocupar nossa atenção.

Enquanto isso, questões como educação, saúde pública e segurança, embora tenham enorme exposição na mídia e afetem diretamente o cotidiano da população, são tratadas com um conformismo apático, como se nada pudesse ser feito a respeito.

Esse contraste me incomoda.

Tecnologia, redes sociais e isolamento

Adolescentes são atropelados porque atravessam avenidas movimentadas sem olhar para os lados e sequer percebem as buzinas dos automóveis porque estão com fones de ouvido.

As redes sociais são utilizadas para aproximar pessoas que, muitas vezes, sequer se incomodam em conversar com alguém sentado ao lado durante uma viagem de quatro horas de ônibus ou trem.

O que mais inunda a nuvem é gente publicando selfies em busca de curtidas e comentários em seus Facebooks, Instagrams e outras redes sociais. Ao mesmo tempo, diminui o interesse genuíno pelo conhecimento.

Ninguém parece preocupado em aprender alguma coisa. A resposta é quase sempre:

“Quando eu precisar, consulto na internet.”

Não há nada de errado em utilizar a internet como ferramenta de pesquisa. O problema está em transformar a possibilidade de pesquisar qualquer coisa instantaneamente em uma desculpa para não aprender absolutamente nada.

E são essas pessoas, capazes de entrar em debates vazios nos quais não correm risco algum, apresentando argumentos rasos para defender teses ridículas sobre assuntos irrelevantes, que um dia poderão governar o país, cuidar da nossa saúde, pilotar aviões e educar nossos filhos e netos.

Se hoje já enfrentamos tantos problemas, apesar de toda a nossa história e das transformações sociais pelas quais passamos, o que será legado às próximas gerações?

O que estamos deixando para o futuro?

Imagine uma geração de “escravos da tecnologia” que vai aos shows mais preocupada em filmar tudo para publicar nas redes sociais do que em assistir à apresentação. Pessoas que baixam PDFs de grandes obras literárias que nunca irão ler ou armazenam discografias completas de bandas que jamais irão escutar.

Temos acesso praticamente ilimitado à informação, à música, aos livros, aos filmes e à cultura. Entretanto, o acesso não significa necessariamente conhecimento.

Talvez essa seja uma das grandes contradições do nosso tempo: nunca tivemos tanta informação disponível e, ao mesmo tempo, parece tão difícil transformar informação em conhecimento.

Haverá um grande despertar?

Não sei.

Um mundo de exposição e descarte

Esse é o nosso presente. Esse é o perfil do mundo em que vivemos.

Um mundo onde tudo é exposto, compartilhado e, no mesmo instante, descartado e ignorado.

Um mundo onde parecem faltar respeito e amizades verdadeiras. Onde tudo é proibido, mas pouco se cobra. Onde tudo é julgado, mas quase nada é efetivamente responsabilizado. Onde aquilo que é condenado muitas vezes não passa de encenação e rapidamente é esquecido.

Um mundo onde a criatividade é frequentemente utilizada para requentar e banalizar aquilo que já foi feito.

Um tempo em que características que antes eram associadas à virtude, caráter, gentileza e responsabilidade podem ser vistas como fraqueza ou fingimento. Um simples gesto de gentileza pode ser tratado como algo patético, enquanto demonstrações de amor e carinho são reduzidas a impulsos de carência ou luxúria.

Talvez estejamos perdendo a capacidade de reconhecer valores que não podem ser medidos em curtidas, compartilhamentos ou visualizações.

Coragem, fraqueza e indiferença

Vivemos em um mundo em que muitos risos são cínicos e muitas promessas parecem ser feitas sem qualquer compromisso com a verdade.

Chegamos ao ponto de transformar a exposição pública das nossas próprias fragilidades em uma demonstração de coragem, esperando em troca manifestações igualmente públicas de piedade de pessoas que, muitas vezes, sequer compreendem o significado dessa palavra.

Somos incentivados a conviver com as diferenças — sejam elas relacionadas à orientação sexual, religião, classe social ou etnia — e isso é algo que considero positivo quando significa respeito genuíno ao próximo.

O problema começa quando essa tolerância é confundida com passividade diante da corrupção, da roubalheira, da incompetência, da injustiça e do desprezo social e cultural.

Respeitar as diferenças não deveria significar aceitar a corrupção.

Ser tolerante não deveria significar ser indiferente.

Defender a liberdade individual não deveria impedir a cobrança por responsabilidade.

E talvez seja justamente aí que esteja o grande dilema do nosso tempo: aprendemos a discutir quase tudo, mas esquecemos de questionar aquilo que realmente importa.

Enquanto isso, o mundo continua mudando.

A tecnologia avança, as redes sociais se multiplicam, a informação se torna cada vez mais acessível e os acontecimentos são registrados e compartilhados em velocidade impressionante.

Mas será que estamos realmente evoluindo na mesma velocidade?

Essa é a pergunta que permanece.

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