Dia dos pais
Ser Pai: Amor, Perdas, Superação e a Luta por um Vínculo com os Filhos
O Dia dos Pais sempre foi uma época do ano que despertou em mim sentimentos diferentes — muitos deles antagônicos. Durante boa parte da minha vida, essa data me lembrava mais da ausência do que da presença paterna. Até que, aos 35 anos, eu me vi diante de uma realidade completamente diferente: havia me tornado pai.
Mas não pai de apenas uma criança.
Eu havia me tornado pai de quatro filhos.
Foi como se a vida tivesse me oferecido um intensivo de paternidade para compensar todo o tempo em que eu havia ocupado apenas os papéis de filho, neto e irmão.
Em determinado momento, acordei para a realidade de que tinha uma filha recém-nascida, uma menina de três anos, um menino de seis e outro de nove anos. Como lidar com diferentes idades, necessidades e níveis de exigência da paternidade sem ter um manual de instruções, um mentor ou acompanhamento especializado?
Simples.
Agindo com o coração.
Meus dois pais
Meu pai biológico pouco ou nada contribuiu para minha vida concebê-la. Ele me abandonou quando eu ainda era um bebê.
Apesar da dor que essa ausência poderia representar, considero-me, de certa maneira, um homem de sorte. Aquele jovem imaturo, que posteriormente abandonaria outros três filhos, acabou cedendo o lugar de pai a um homem muito mais experiente e, para mim, infinitamente mais valoroso: meu avô.
Seu Lauro havia criado seis filhos e se tornado pai ainda muito jovem. Quando me acolheu, indefeso e frágil, já carregava décadas de experiência.
Foi ele quem me levou e buscou na escola. Foi ele quem me ensinou a usar um martelo para pregar um prego, uma chave de fenda para apertar parafusos, trocar um chuveiro e consertar um vazamento hidráulico.
Mas, acima de tudo, ensinou-me princípios que carreguei pela vida: não mentir, não roubar, não maltratar ninguém e procurar fazer o que é certo mesmo quando ninguém está olhando.
Sadi, meu pai biológico, também me deixou uma lição importante: fazer exatamente o contrário dele e jamais abandonar um filho.
Já adulto, entretanto, descobri que talvez nem precisasse me preocupar com a possibilidade de ser pai. Exames indicavam que seria muito difícil eu conseguir conceber uma criança.
Eu estava errado.
O vazio parental
Quando perdi meu avô — meu pai adotivo e a principal referência paterna que tive —, abriu-se um vazio em meu peito que parecia impossível de preencher.
Eu havia feito tudo o que estava ao meu alcance para tentar salvá-lo. Tinha dinheiro para pagar um tratamento e tentei utilizá-lo para prolongar sua vida. Não consegui.
Era jovem, tinha um emprego estável, uma carreira sólida e condições de adquirir muitas das coisas que desejava.
Mas nada parecia suficiente.
Era como se existisse uma pergunta permanente dentro de mim:
“Até aqui, tudo bem. Mas e daí?”
O vazio provocado pela perda da minha principal referência paterna me levou a um período de profunda depressão.
Eu já havia passado por três relacionamentos, tocado em diversas bandas, voltado a estudar, sido aprovado em concursos públicos, conquistado uma casa, construído amizades e encontrado lugares onde me sentia pertencente.
Ainda assim, havia perdido a motivação para viver.
Tentei preencher aquele abismo existencial procurando maneiras de contribuir com pessoas que realmente precisassem de mim.
Foi nesse contexto que entrei em um quarto relacionamento, incorporando profundamente o arquétipo do “salvador”.
Eu ainda não sabia, mas aquela escolha mudaria completamente minha vida.
Enfim, pai
Meses depois, eu tinha quatro filhos e uma companheira.
Todos vivíamos espremidos em um único cômodo com banheiro, que até então havia sido meu lar de solteiro.
A situação exigia muito de mim. Havia quatro crianças dependendo da minha capacidade de prover e uma companheira se recuperando de uma gestação difícil, de uma infecção no fígado e de uma cesariana.
Naquele momento, a depressão parecia um detalhe irrelevante diante da responsabilidade que havia assumido.
Aos poucos — embora nem sempre tão devagar — fui ampliando a casa e reorganizando as finanças para sustentar um lar com seis pessoas, sendo eu o único provedor.
Isso não me impediu de continuar estudando música e produção musical, cumprir uma jornada de 40 horas semanais em um escritório, fazer transmissões ao vivo, produzir conteúdo para a internet, escrever livros e publicar textos em blogs.
Muito pelo contrário.
A paternidade me inspirou a buscar ainda mais conhecimento e a me tornar uma pessoa melhor.
Ser pai fez com que eu vencesse a depressão, abandonasse vícios como cigarro, drogas e excessos de álcool e concentrasse minha energia na construção de uma vida mais responsável.
Eu nunca me tornei perfeito.
Muito pelo contrário.
Mas posso afirmar que a paternidade me fez entrar definitivamente na vida adulta, mesmo já tendo ultrapassado os 30 anos.
Ser pai também é sofrer
Uma das experiências mais dolorosas que um pai pode enfrentar é a perda de um filho.
Eu vivi isso.
Perdi uma das crianças a quem havia me dedicado a cuidar. Não sei qual foi, exatamente, o percentual de culpa que me cabia naquela história, mas reconheço que também falhei.
Vi meu filho, ainda imaturo, partir e ser derrotado pela violência e pela crueldade que podem contaminar o mundo.
Tentei ser forte.
Redobrei os cuidados com os três filhos que permaneceram e tentei juntar os cacos emocionais de corações profundamente destroçados.
Como pai, continuei.
Corrigi rotas.
Melhorei planos.
Busquei conhecimento.
Investi em desenvolvimento pessoal.
O peito que antes estava vazio agora estava cheio.
Mas sangrava pela perda.
Um pai precisa tomar decisões diariamente não apenas por si mesmo, mas também por aqueles que estão sob sua responsabilidade. E toda decisão produz consequências.
A perda de um filho deixa uma ferida que pode permanecer aberta por muito tempo.
É como uma fratura: mesmo depois de cicatrizada, pode continuar sensível.
Algumas dores não desaparecem.
Aprendemos a conviver com elas.
O sonho da filha é também um projeto do pai
Minha filha biológica descobriu a dança ainda muito nova.
Eu apoiei sua decisão de perseguir aquele sonho.
Embora tivesse uma carreira estável, ainda estava geograficamente preso ao meu trabalho. A pandemia de Covid-19 mudou parcialmente essa realidade.
Com parte da jornada profissional sendo realizada remotamente, pude pesquisar, estudar e me preparar para trabalhar pela internet.
Passei a enxergar uma possibilidade que antes parecia distante: conquistar liberdade financeira e geográfica suficiente para acompanhar minha filha onde sua carreira pudesse levá-la.
Daquela criança inicialmente desengonçada começou a surgir uma bailarina graciosa.
Sempre inquieta, determinada e proativa, ela buscava novos desafios na arte que havia escolhido.
E encontrou, da parte do pai, apoio incondicional.
Certa vez, ela realizou um solo na abertura de um espetáculo de final de ano, vestindo um figurino de anjo.
O velho pai não conseguiu conter as lágrimas.
Naquele momento, chorei quase como uma criança.
Eu estava vendo diante dos meus olhos algo muito maior do que uma apresentação de dança.
Estava vendo um sonho nascer.
E percebi que o sonho de um filho também pode se transformar em um projeto de vida para um pai.
Eu queria estar presente.
Queria acompanhar.
Queria ajudar.
Queria ter liberdade suficiente para estar ao lado dela quando fosse necessário.
Mas a vida estava prestes a mudar novamente.
E, dessa vez, de maneira drástica e dolorosa.
Um pai traído, difamado e afastado
As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 destruíram parte dos projetos que eu havia construído.
Entretanto, o impacto não foi apenas financeiro.
Uma estrutura familiar construída com esforço, amor, dedicação e evolução constante começou a apresentar fissuras.
E elas eram tão graves que, em pouco tempo, atingiram as próprias bases que sustentavam aquele projeto familiar.
Os filhos haviam crescido.
Alguns já eram adultos ou estavam próximos da vida adulta e já não dependiam dos mesmos cuidados de antes.
A estrutura familiar que eu havia ajudado a construir começou a se desfazer.
A companheira que havia crescido ao lado de um empreendedor solitário também passou a seguir seu próprio caminho.
O projeto que havia exigido anos de esforço começou a ruir.
E eu me vi diante de uma pergunta dolorosa:
Como um pai continua exercendo plenamente seu papel quando se encontra endividado, emocionalmente destruído, envolvido em conflitos familiares e afastado dos filhos?
Mais dolorosa ainda era outra pergunta:
Como uma filha consegue manter seu vínculo com o pai quando a convivência entre ambos é interrompida?
Não tenho respostas simples.
Talvez ninguém tenha.
O Dia dos Pais mais doloroso
Há momentos em que a palavra "pai" deixa de representar apenas uma condição afetiva e passa a representar uma luta.
O pai dedicado, imperfeito e obrigado a manter distância precisa lidar com a dor de perder momentos que jamais poderão ser recuperados.
O aniversário de uma filha.
Uma apresentação.
Um abraço.
Uma conversa cotidiana.
Um Dia dos Pais.
Existem homens indignos de exercer a paternidade.
Assim como existem filhos que não reconhecem ou não valorizam os esforços dos pais.
Eu também errei.
Errei como filho.
Errei como pai.
Errei como companheiro.
Sou humano.
E ser humano significa ser inevitavelmente imperfeito.
Mas também fiz escolhas movidas pelo amor.
Abandonei sonhos musicais para permanecer próximo dos meus avós, que foram meus pais de fato, até o fim de suas vidas.
Perdoei meu pai biológico por ter me abandonado e por tudo o que ocorreu entre nós, mesmo sabendo que ele talvez jamais me reconheça como filho da maneira que eu gostaria.
E agora enfrento uma das experiências mais difíceis da minha vida:
viver distante do amor da minha filha.
Este Dia dos Pais de 9 de agosto de 2026 será vivido sem a presença dela e dos meus enteados.
É uma situação que me causa uma dor que não consigo transformar em palavras simples.
Também é uma situação que me obriga a reconhecer que relações familiares podem chegar a pontos em que o amor permanece, mas a convivência deixa de ser uma escolha individual.
Quando existem conflitos familiares e disputas judiciais, todos os envolvidos acabam sofrendo de alguma maneira.
E, no meio disso tudo, existe uma criança ou uma jovem que continua sendo filha.
É por ela que qualquer pai deveria desejar que as portas permaneçam abertas para o diálogo, para a reconciliação e para a construção de um vínculo saudável.
Ser pai é ter fé no amor incondicional
O que mantém um ser humano de pé diante das dificuldades não é apenas dinheiro, trabalho ou patrimônio.
São também os papéis que desempenha na vida:
pai, filho, marido, companheiro, irmão e amigo.
Existem momentos em que os desafios parecem maiores do que nossa capacidade de enfrentá-los.
Há obstáculos que parecem intransponíveis.
Há perdas que parecem definitivas.
Há dias em que continuar parece ser a única vitória possível.
Mas, enquanto pais e filhos estiverem vivos e mantiverem alguma fé na possibilidade de reconstruir seus vínculos, ainda existe esperança.
Ser pai é acreditar no amor incondicional.
É acreditar que existe algo que permanece mesmo quando a convivência é interrompida.
É acreditar que o tempo pode abrir portas que hoje parecem fechadas.
É acreditar que uma conversa pode acontecer depois de anos de silêncio.
É acreditar que um abraço ainda poderá acontecer.
É acreditar que os erros podem ser reconhecidos, as feridas tratadas e as diferenças superadas.
A noite pode parecer interminável antes do amanhecer.
Uma batalha pode parecer perdida antes que surja uma nova oportunidade.
E algumas histórias precisam de muito tempo para encontrar um novo capítulo.
Mas talvez essa seja uma das maiores responsabilidades da paternidade:
não desistir de amar os filhos, mesmo quando a vida torna difícil demonstrar esse amor.
Uma mensagem para os pais
A todos os homens que tentaram superar suas próprias limitações humanas para desempenhar o papel de pai, desejo um excelente Dia dos Pais.
Aos pais que acertaram, que tenham orgulho.
Aos que erraram, que tenham humildade para reconhecer.
Aos que estão presentes, que valorizem cada momento.
Aos que estão distantes, que encontrem caminhos para reconstruir seus vínculos.
Aos que perderam filhos, que encontrem força para continuar carregando o amor que permaneceu.
Aos filhos que perderam seus pais, que encontrem paz nas lembranças daqueles que lhes ensinaram alguma coisa.
E aos pais que hoje enfrentam conflitos, mágoas, separações ou distâncias, desejo que encontrem coragem para lutar pelo que realmente importa.
Porque ser pai não significa ser perfeito.
Significa assumir a responsabilidade de amar, proteger, ensinar, aprender, reconhecer os próprios erros e continuar tentando.
A paternidade é uma luta diária.
E, quando existe amor verdadeiro entre um pai e seus filhos, essa é uma luta pela qual vale a pena lutar.
É um propósito pelo qual vale a pena viver.

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